A inspiradora Alexandria Ocasio Cortez perante o ódio misógino

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Já toda a gente ouviu o discurso na Câmara dos Representantes de Alexandria Ocasio Cortez na semana passada. E, na verdade, é um daqueles discursos de antologia que vai ficar para as próximas décadas. Não só pelo conteúdo (já lá chego) mas pela construção retórica magnífica, pela calma aparente que convive com umas resplandescentes garra, convicção, decência e, até, retidão moral. Pelo carisma, pelo star power e pelo talento que ficaram ali, se dúvidas houvesse, consagrados. Há discursos de políticos memoráveis e este vai ser um deles. Antes de continuarmos, ora vejam e ouçam esta magnífica peça.

Não pretendo comentar muito a construção deste discurso, porque fala por si e basta-se. Noto só como refere a cultura de abuso verbal e de violência contra as mulheres, que é tolerada sem qualquer sobrancelha levantada por toda a sociedade. Noto ainda a lata da tentativa do congressista Yoho (o insultador) de escapar da necessidade de pedir desculpas e oferecer reparação, e, em vez disso, negar, culpar outras pessoas (os jornalistas que ouviram mal) e levantar poeira com o facto de ter sido pobre, de amar Deus (????), de ter filhas e ser casado. Noto, por fim, como muito bem AOC referiu, a desenvoltura com que homens com poder maltratam mulheres publicamente

Mas gostaria de trazer uns cêntimos laterais a este tema.

Um. A maneira descarada como os machistas do mundo consideram ser seu direito inalienável insultar mulheres. E, em contínuo, como vêem as mulheres como tendo obrigação de tolerar – caladas, sorridentes e sem protestos – os insultos masculinos. Não é algo que se veja só ocasionalmente. É frequente. E não é somente um comportamento que se tenha em momentos de irritação, que isso todos temos. É um comportamento para repor a ordem natural das coisas (segundo os sexistas) quando as mulheres desnaturadas a tentam subverter. É um comportamento que informa que por muito que as mulheres façam e digam, estão sempre sujeitas – e obrigadas – à aceitação do abuso insultuoso pelos homens, que desta forma se colocam acima na hierarquia social e cultural. Podemos espernear quanto quisermos, que no fim cabe aos homens, com rancor, declarar como somos imprestáveis (através de um grande leque de adjetivos desagradáveis). E, desta forma, fica reposta a ordem e o equilíbrio certo do poder. Os homens insultam – e é a palavra dos homens que contam -, as mulheres calam e o assunto fica resolvido.

Dois. Um homem boçal e abusador para com mulheres que se tenta esconder atrás do facto de ser casado e ter filhas. Como se isso fosse algum atenuante. Não é, é um agravante. Ter mulher e filhas e ainda assim ter comportamentos de abuso para com mulheres só demonstra o quão desnaturado é: nem com mulheres na família conseguiu aprender a amar e a respeitar mulheres. E, sim, digo amar. Um homem que maltrata publicamente mulheres desta forma odeia mulheres, por muito que sustente e tenha sexo com algumas mulheres. Ter filhas e ter mulher dá maior responsabilidade a um homem e obriga-o mesmo a lutar em prol da dignificação pública do estatuto das mulheres.

É algo que me repugna particularmente em sexistas: saber que têm filhas. Homens que ativamente promovem ideologias e políticas que, todos os dias, causam dano às suas filhas são particularmente repulsivos.

Três. Um homem poderoso, com visibilidade, com legitimidade política que insulta e maltrata publicamente uma mulher – já o disse vezes sem conta a propósito do boçal-in-chief Trump – envia uma mensagem clara: é lícito e legítimo insultar e maltratar mulheres, em privado mas também publicamente de forma orgulhosa. É efetivamente uma mensagem de incentivo ao ódio e ao abuso às mulheres e à violência para com mulheres. É um comportamento que dá luz verde para que outros abusos e ódios e violências se sigam.

É, claramente, um atentado à participação pública e política das mulheres, à sua liberdade de expressão, à sua existência no espaço mediático e público. É uma forma de dizer às mulheres que pagarão a atividade política e pública. Recordo que nas últimas eleições britânicas 18 deputadas não e recandidataram aos seus círculos justificando não estarem dispostas a tolerarem mais o ódio que lhes era dirigido, online e offline.

Quatro. Apreciem, por favor, a diferença abissal de talento entre Alexandria Ocasio-Cortez e o congressista Yoho. Um é abrutalhado (no conteúdo e nas ideias políticas – votou contra legislação mais punitiva para linchamentos, imaginem, e é um trumpista leal), sem chama, sem capacidade estética discursiva, cinzento, quadrado, mentiroso, um de muitos numa mole humana indistinta. Outra é carismática, articulada, convincente, com star power, com garra, com capacidade de fazer acontecer segundo as suas ideias, prende a atenção, é empática, irradia inteligência.

Nem todos os homens políticos são assim – longe disso. Há homens políticos interessantíssimos e muito válidos – como não podia deixar de ser, e ainda bem que existem, que a diversidade é um valor em si mesmo e o mundo deve ser construído por e para os dois sexos.

Em todo o caso, até pelo maior número de homens na política, a verdade é que há muitos políticos homens absolutamente desinteressantes, medíocres e substituíveis (por mulheres ou homens de melhor qualidade). Um dos efeitos da entrada das mulheres na política é a melhoria média quer dos políticos no global quer dos homens que estão na política (porque as mulheres que entram são geralmente mais qualificadas que a média dos homens pré-existentes). O que significa que a entrada de mulheres leva a que permaneçam os homens mais talentosos e qualificados – e saiam os mais cinzentos, indistintos e medíocres. (Yoho comes to mind.)

Donde, o ataque de Yoho a Alexandria Ocasio-Cortez é também esta reivindicação: que a política continue a preferir os medíocres como Yoho (por serem homens) a estrelas crescentes como AOC (que afinal é mulher).

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