O condicionamento do patriarcado que consegue que as mulheres deixem de lutar por si próprias.

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É uma visão muito tradicional das mulheres e que o patriarcado esteve séculos a reforçar, porque lhe serve muito bem os propósitos. Ajudada pela cultura judaico-cristã e a religião católica, que sempre nos assegurou que o principal papel de uma mulher era o de mãe (mas nunca disse aos homens que o clímax da masculinidade e de utilidade no mundo era serem pais). Falo, claro, desta ideia tão arreigada de que as mulheres devem ser altruístas, gratuitas, abnegadas, dispostas ao sacrifício pelos outros, lutadoras pelo bem do próximo em vez de pelo seu próprio bem.

Esta versão idealizada das mulheres transborda para todos os lados da vida. Ainda hoje, décadas depois do início do movimento de emancipação das mulheres. Uma das acusações que faziam a Hillary Clinton, quando se candidatou à presidência dos Estados Unidos, era ser ambiciosa. Está bom de ver, uma mulher não está autorizada a querer sucesso, dinheiro, poder, mediatismo para si, que horror. Uma mulher, no máximo, pode suportar estas coisas horrorosas todas enquanto trabalha para os outros, seja a família sejam os eleitores. Na negociação de ordenados, as mulheres que negoceiam o que lhes é oferecido são malvistas e podem mesmo perder a oportunidade de emprego ou de promoção. As chefias só toleram que uma mulher negoceie ordenados se o fizer em prol de outros.

Nos debates públicos, a mesma convicção de que as mulheres se devem anular continua, aleluia. Feminismo e direitos das mulheres são muito bonitos, mas só enquanto não conflituam com nenhuma outra causa – que, claro, passam sempre à frente, porque sabemos há milénios que as questões femininas são as que menos importância têm.

Muitas vezes essas outras causas eram justíssimas em si próprias. (Outras nem por isso.) Quem ler Bell Hooks em Não Serei Eu Mulher? fica de coração despedaçado pela forma cruel com as mulheres negras eram esmagadas. Esperava-se que prescindissem de reivindicar igualdade e justiça entre os sexos, para somente reivindicar igualdade e justiça entre raças – algo que iria beneficiar quase exclusivamente os homens negros. (E as mulheres brancas cobravam, por sua vez, a lealdade aos homens negros. Que, de resto, também passaram de aliados das mulheres sufragistas na exigência do direito ao voto a completamente desinteressados do voto das mulheres no momento em que os homens negros o obtiveram.)

Nos tempos atuais, uma das formas mais eficazes de controlar o feminismo é associá-lo a outra causa – que, evidente, se torna a causa principal e o feminismo a causa secundária. Assim, quem controla o ativismo são os seres destinados para tal: os que têm cromossomas xy. O ambientalismo (causa essencial que, como o feminismo, tem de ser prévio a qualquer ideologia). O anti-capitalismo. A inclusão das minorias. O anti-racismo. Nos últimos dias, com a continuação dos ataques misóginos a J.K.Rowling por causa das suas posições sobre os trans (que concordando-se ou não, estão a léguas de serem ódio aos trans), o transativismo.

À direita nem passa pela cabeça que as desgovernadas das mulheres queiram subverter o sistema que os fabulosos homens hetero da raça dominante criaram, que estes são criaturas celestiais que nunca erram. À esquerda espera-se que as mulheres, obedientes, percebam que têm de proteger a sua imagem tradicional de abnegadas, sacrificadas, altruístas, somente desejando o bem alheio. E o mais hilariante é que muitas acedem a manter esta tradicional supressão das próprias necessidades femininas.

Este é um ponto que se eu fosse mãe de uma filha insistiria sem tréguas na educação que lhe daria: as mulheres defendem os seus direitos e os direitos dos seus filhos e filhas intransigentemente (e aqui insere-se, por exemplo, a defesa da sustentabilidade ambiental, da democracia, dos direitos humanos). As demais causas vêm depois e somente se não atropelarem o lugar das mais importantes.

É crucial ensinar as mulheres a serem egoístas – neste sentido de não permitirem os atropelos e ultrapassagens de todos às pretensões feministas. Podemos ser solidárias com as restantes causas, mas as nossas vêm primeiro. E quem vier com a mensagem patriarcal de abandonarmos as nossas lutas para abraçarmos as de terceiros, bem, é para tratar como pessoa sexista que desconsidera as experiências e necessidades das vidas das mulheres.

A ter atenção que a armadilha desta ideia patriarcal da mulher boazinha, que não atende às suas próprias necessidades, abnegada é usada também relacionalmente em todas as faceta da vida – mais uma vez em proveito dos homens. A colega que se espera que prejudique o seu trabalho e a sua progressão para ajudar o colega homem. Ou o colega homem que nem vê problema de usar o trabalho da mulher somente em seu benefício porque, bem, o que querem as mulheres? guardar só para si os resultados do seu trabalho?! que cabras!

O chefe que espera que a subordinada compreenda que vai promover o colega homem menos competente porque, bem, é a ordem natural das coisas. E às mulheres fica mal serem ambiciosas. É o namorado ou marido que é egoísta e produz bullshit, mas vê como seu direito que a resposta seja um sorriso de perdão e compreensão da namorada/mulher. É o amigo que espera sempre o ombro e os conselhos e o tempo disponível, mas a quem nem passa pela cabeça retribuir a generosidade. São os comentários passivos-agressivos ou desrespeitosos ou menorizadores, de todos, que se reclama que as mulheres encarem como mera brincadeira – ai que falta de sentido de humor! Enfim, são todas as relações pessoais da mulher que fazem porcaria mas exigem da dita mulher que seja ela a limpar a porcaria que outros fizeram e a repor a ordem e a estética. E de cara alegre, se faz favor, que é uma obrigação feminina.

Politicamente, profissionalmente, relacionalmente – não, as mulheres não têm de ser abnegadas e altruístas. Têm de defender os seus interesses intransigentemente.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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