Há falta de vozes femininas, e excesso de vozes masculinas, no debate público (parte 1)

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Nos últimos dias apareceram-me nas redes sociais imagens gráficas sobre a falta de mulheres nas secções de opinião dos jornais e televisão.

A professora de Economia e cronista do Público Susana Peralta colocou no facebook os cronistas que o Expresso tem na sua edição impressa semanal no caderno principal. Como podem ver na imagem abaixo, onze homens (e brancos, sim, também, refira-se, e provavelmente todos heterossexuais e classe média alta). Um boys club muito catita. Menina não entra.

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Não quero insultar a qualidade dos cronistas, apesar de um ou dois me parecerem extremamente desinteressantes. Miguel Sousa Tavares usufruir ainda de um espaço de opinião num jornal de referência é, para mim, sintoma da pouca exigência que por cá se tem com quem atingiu um certo patamar mesmo que evidencie decadência pronunciada. O Luís Aguiar Conraria e o Pedro Santos Guerreiro são ótimos e valem sempre a pena. Em todo o caso, perguntamos: pelo Expresso sabem que existe uma metade da população do sexo feminino?! Têm assim tanto desinteresse em exibir pontos de vista de mulheres?! As opiniões femininas são descartáveis e não contam?! Julgam as mulheres tão incapazes e tão pouco argutas e péssimas escritoras que não têm lugar num jornal como o Expresso?!

A Susana fez o mesmo exercício com os comentadores semanais da TVI. Em doze, há uma mulher. É a loucura. E a senhora em questão é Manuela Ferreira Leite, já com uma idade considerável – é aquele velho estratagema (de que já aqui escrevi) de só promover mulheres mesmo no fim da carreira, para não fazerem concorrência aos homens mais novos.

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No seguimento destas imagens, cheguei a um post de Joana Sá, que pôs em gráfico a percentagem das entrevistadas em dois podcasts – Perguntar Não Ofende e 45 Graus – e dois jornais (Expresso e Público). A calamidade é o Expresso, claramente, mas todos os outros meios de comunicação têm somente certa de 25% de mulheres entrevistadas/opinadoras. Há que melhorar.

O cenário no resto dos meios de comunicação não será muito diferente. Porventura estes três do gráfico de Joana Sá (tirando o Expresso) são dos que melhor se portam. Rita Figueiras escreveu um livro – Efeito Marcelo: o comentário político na televisão – sobre isso mesmo, o comentariado em televisão, e concluiu que 82% dos comentadores eram homens.

Nem vale a pena usar-se o argumento do mérito: deve escrever quem é mais qualificado, diferenciado, talentoso, especializado independentemente do sexo. É treta. Há imensas mulheres na academia, ex-políticas, investigadoras universitárias, professoras, ativistas das mais variadas causas ou jornalistas (ou de qualquer outra profissão) que poderiam, com talento, escrever opinião e falar num podcast ou numa televisão.

Além de se estar a excluir mulheres dos debates públicos, diminuindo assim a qualidade do próprio debate – não esquecer que a entrada de mulheres na política ou nas chefias das empresas elevou a qualidade média de todos os políticos e de todas as chefias das empresas, incluindo a qualidade média dos homens – há ainda efeito mais pernicioso. O debate, como está, é feito à volta dos assuntos preferenciais dos homens, as soluções apresentadas são as que mais servem à metade masculina da população, os problemas e as questões específicas das mulheres são apagadas e ignoradas (ou, pior, são apresentadas por quem não as vive em primeira mão e através, novamente, dos filtros masculinos). Desta linda forma, promove-se aquela ideia já tão arreigada: os temas preferenciais dos homens são os temas da humanidade inteira, as soluções mais benéficas para os homens são as soluções ideais para qualquer membro da espécie humana. Os homens são o arquétipo de Humano, as mulheres são um desvio à norma, com coisas esquisitas só para elas – enquanto as realidades dos homens são realidades universais.

Para além de todos os malefícios, esta exclusão de mulheres é uma má decisão comercial. Ao contrário do que julgam os decisores masculinos que escolhem permanecer mal informados, as mulheres não adoram que lhes sejam impingidos só homens e temas e narrativas masculinas. Pelo que não lêem e não vêem e não ouvem. Em tempos de crises económica em muitos órgãos de comunicação social, não é ajuizado hostilizar metade dos consumidores. O Financial Times, por exemplo, esse exemplo de jornal masculinizado, há poucos anos tomou uma série de medidas para aumentar o número de leitoras, tanto ao nível dos temas oferecidos como dos autores da secção de opinião. Em busca de mais receitas, evidente.

Claro que os responsáveis dos meios de comunicação social podem mudar este estado de coisas. Mas todos nós temos ainda mais poder para provocar a mudança. Se um órgão de comunicação social não julga as mulheres suficientemente boas para lhes dar linhas e tempo de antena em quantidades mínimas, então as mulheres devem usar o seu poder como consumidoras e não consumir os produtos que as menorizam. Se não somos boas o suficiente para produzir conteúdos, não podem pretender que gastemos neles o nosso dinheiro de pessoas de pouca qualidade.

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