RTP a calar as histórias de mulheres Destemidas. Em 2020.

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De facto às vezes parece que Portugal insiste em permanecer no tempo das mulheres subservientes – ao padre e ao marido -, de bigodes e saias compridas e cabelos tapados. Não se sabe bem de onde, mas aparecem assim uns vultos do passado e devoradores de tudo o que tenha aroma a modernidade, atualidade, progresso.

O provedor da RTP, Jorge Wemans, em 2020, recomendou que toda a série de desenhos animados Destemidas não fosse exibida na RTP2 se não num horário próprio para adolescentes (para crianças, presume-se, é desadequado) e que fossem mesmo retirados da parte infantil-juvenil da RTP Play. Estão agora somente na parte geral da RTP Play. Os episódios sobre Thérese Clerc e a jornalista Nellie Bly (este então além de qualquer compreensão por pessoas possuidoras de neurónios) inicialmente não estavam colocados, mas face à pressão lá apareceram todos. Em se tratando de uma televisão pública, é de deitar mãos à cabeça.

Esta decisão veio depois de numerosas queixas ao provedor da RTP a propósito do tal episódio que contava a vida de Thérèse Clerc, que se tornou ativista feminista, pró legalização do aborto (tendo feito abortos a outras mulheres), construiu uma colónia para mulheres séniores na idade, e assumiu ser lésbica depois de se divorciar de um casamento com muitos filhos. Ah – porque foi isto que espoletou a fúria da direita bafienta que se queixou – e depois de ter lido Marx.

Portanto uma mulher admirável – concorde-se e aprecie-se tudo o que fez na vida, e as ideias políticas, ou não – não pode ser exibida às crianças, nem aos adolescentes, nem aos adultos que vão à RTP Play procurar conteúdos interessantes sobre feminismo.

Portanto houve uma avalanche de queixas ao Provedor da RTP para suprimir a história de uma mulher porque a dita leu Marx. Porque o desenho animado tem um beijo na boca entre duas mulheres – credo, lesbianismo na tv. Porque exibe – e muito bem – o machismo da esmagadora maioria dos padres católicos.

Refira-se que a série de desenhos animados não é de todo promotora de marxismo – a não ser para os maluquinhos do marxismo cultural, essa realidade extremamente perigosa sobretudo porque não existe. São desenhos animados que valem muito a pena, a partir dos livros de Pénélope Bagieu. Os episódios falam da história da Imperatriz Wu da China, da médica ginecologista Agnódice, a guerreira apache Lozen, a primeira transsexual Christine Jorgensen, a criminalista Frances Glessner Lee, a colecionadora de arte Peggy Guggenheim. Estão a ver. Mas uma mulher admirável e destemida um dia leu Marx, portanto a sua história não pode ser conhecida.

Já aqui escrevi uma série de textos sobre o apagamento das mulheres do debate científico, das artes, da memória histórica. A imposição de invisibilidade às mulheres é uma forma muito eficaz de diminuir a importância do sexo feminino e de reforçar a desigualdade – a mensagem é clara: quem é mais importante aparece mais vezes e tem voz mais sonora e frequente.

Ora é precisamente para isto que serve uma televisão pública, para contrariar o apagamento das mulheres e para promover a igualdade de género. Desde logo porque é sustentada pelos impostos das mulheres, que são metade da população – além, claro, de os organismos estatais de uma sociedade decente promoverem a igualdade efetiva de oportunidades e direitos de todos os cidadãos e cidadãs. Esta necessidade acresce pelo enviesamento que a própria RTP tem em favor das vozes dos homens. Não conheço estatísticas para a RTP, mas nos Estados Unidos em 2017 os apresentadores de programas de notícias eram homens em mais de 60% das vezes. Os conteúdos televisivos americanos de entretenimento não têm mulheres nas equipas criativas em 70% dos casos. E as estatísticas para os filmes são uma catástrofe: desde as mulheres que são só 33% das personagens falantes dos filmes com mais receitas de bilheteira, só 9% dos filmes têm casting equilibrado em termos de género, só 11% têm mulheres com mais de 45 anos nos papeis principais, e por aí adiante, piorando o cenário para minorias raciais ou LGBT.

Pelo que a decisão do provedor e da RTP é particularmente grave, porque vem acentuar desigualdades de acesso ao espaço público já existentes. E vem reforçar que as vidas e as histórias de mulheres são conteúdos com menos dignidade que quezílias sobre Marx ou as ofensas bafientas à volta de lésbicas. Talvez devamos também inundar Jorge Wemans com críticas à sua absurda, perigosa e intolerável decisão, exigindo a recolocação dos episódios na RTP2 e na zona infantil da RTP Play. Os miúdos precisam de ser educados para a igualdade de género.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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