Quem seriam hoje os teus índios, Grande Padre?

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Foto de Leonel Castro

Custa entender a conversa recorrente da decadência do Ocidente, e/ou da civilização ocidental. Se a justificassem com a crescente desigualdade económica e social nas principais democracias ocidentais, mas não.

Se ainda a explicassem por, após mais de sete décadas depois da Segunda Grande Guerra, não termos conseguido eliminar definitivamente a pobreza, mas não, também não. Se ainda assim, a fundamentassem por termos criado mercados financeiros desligados da vida real, que crescem em valorização sobre milhões de desempregados atirados para a mais cruel pobreza, mas não, não é.

Se ao menos considerassem a decadência civilizacional suportada no facto de não conseguirmos usar as admiráveis tecnologias contemporâneas em benefício da continuidade da própria espécie, ou não termos ainda compreendido os limites biofísicos do planeta, que continuamos a forçar até ao limite da extinção em massa; mas não, também não é!

Então, a que se deve afinal a decadência do Ocidente? As justificações mais comuns vão do inverno demográfico, à invasão de migrantes na Europa, passando pela desunião ou afastamento das principiais democracias europeias dos EUA, à falta de poderio militar da Europa para a sua autodefesa, ao crescimento económico pífio quando comparado com a China, até à maior tibieza das instituições ocidentais e agora ao revisionismo da gloriosa história do Ocidente.

Ainda que atendíveis, e que justifiquem um determinado grau de declínio civilizacional, não são efeitos terminais, bem pior são os que ameaçam a sobrevivência da própria humanidade.

Andamos a justificar o declínio civilizacional com questões secundárias, ao invés de nos concentrarmos no essencial. E o essencial devia ser a eliminação da pobreza e da desigualdade social na sociedade e a liderança e determinação em vencer o combate às alterações climáticas.

Vamos fingir que acreditamos que as recentes manifestações que começaram nos EUA e se estenderam à Europa, são exclusivamente motivadas na discriminação racial?  Já esquecemos os tumultos pré-COVID no Chile ou em França? Basta prestar atenção aos seus participantes, ou aos cartazes e palavras de ordem, para entender que não é assim.

A discriminação racial é apenas a mais visível e chocante de todas, a que se somam outras discriminações sociais e económicas, que há muito uma sociedade avançada devia ter ultrapassado. A desigualdade crescente e o desaparecimento da classe média está a fazer crescer uma grande maioria de marginalizados; marginalizados do acesso aos serviços públicos fundamentais que uma sociedade devia prover. E este é um fenómeno global – vai ficar cada vez mais evidente no futuro.

Se vamos defender a civilização ocidental não nos concentremos, apenas, na defesa do simbólico, não é o mais importante numa sociedade avançada.

Dois casos: em Lisboa houve pichagem de uma estátua e foi um – Ai Jesus!…, em contraste, no Norte rural de Portugal, nas aldeias do Barroso as empresas mineiras destruíram recentemente parte da paisagem e o património natural de uma zona classificada como património agrícola mundial da FAO, apenas para fazer umas sondagens, e não tivemos consternação geral. E agora preparam-se para destruir tudo o resto, para escalavrar os montes e os baldios pondo em risco a biodiversidade, a água, e ameaçam o modo de vida sustentável de centenas de aldeões, perante uma indiferença, ainda, generalizada.

Destruições patrimoniais como esta, que se preparam para todo o país – do património natural de Portugal que afeta profundamente a vida das pessoas do interior. Quem defende este património e o modo de vida sustentável desta gente, não serão estas perdas bem mais irreparáveis do que meia-dúzia de estátuas rabiscadas?

Hoje, se fosse vivo, o Grande Padre António Vieira teria facilidade em encontrar nos rurais esquecidos do interior de Portugal, os seus “novos índios”, porque, como os outros são vítimas indefesas do colonialismo extractivista – agora versão “neo”, ainda assim não menos predatório. Não se cansaria de lutar contra todos aqueles que lá fora, e cá dentro, querem oprimir a vontade dos mais frágeis, das comunidades locais, expropriar as terras e destruir um património natural único para impor uma actividade económica devastadora.

O declínio que o Grande Padre reconheceria hoje no Ocidente é o de uma sociedade que se tornou tecnologicamente avançada, mas que não foi capaz de ultrapassar o colonialismo dos poderosos, nem dispensar a canga sobre os que se lhe opõem.

Nota final: Leiam a fantástica reportagem – Lítio: o medo mora em Trás-os-Montes (Notícias Magazine) – a fotografia é ilustrativa – mais uma vez são as mulheres que estão na cabeça da luta pelo ambiente e pela sobrevivência de modos de vida sustentáveis.

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