O ativismo trans é necessário, mas não é feminismo

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Há umas semanas J.K. Rowling fez um tuit crítico desta moderna mania de separar o conceito de ‘mulher’ dos processos biológicos que lhe estão associados: gravidez, ovulação, níveis hormonais, e, no caso concreto, menstruação. Apesar de toda a discriminação que tem as mulheres como alvo ter fundo nas questões sexuais e de reprodução das mulheres – sobretudo controlar a vida sexual das mulheres e garantir que a produção de filhos serve para manter o património e a linha familiar dos homens -, com o advento do movimento dos direitos das pessoas trans essa especificidade que é A causa de discriminação é retirada às mulheres.

Não venho aqui atacar os direitos das pessoas trans. Devem ser protegidas, não podem ser expostas nem nas escolas nem nas empresas nem nos outros lados. E não acompanho a J.K. Rowling (já lá chego) na convicção que tem de que a maioria das pessoas trans tem simplesmente uma dificuldade de identificação que passará com a idade. Sendo um processo difícil e com custos ainda face à sociedade, duvido que não seja adotado só por quem está certo do que é ou não é. Também tenho objeção a impor aos demais aquilo que são. Julgo-me na obrigação de ouvir os outros sobre o que são, e aceitar.

Mas não é isso que está em questão. Porque eu também me quero definir pelo que sou. Sou uma mulher. Não sou uma mulher cis. Sou uma mulher. Sem mais adjetivos.

E aqui começa o problema. Se o ativismo trans faz sentido, e é necessário defender direitos dos trans que por vezes lhes são muito específicos, tal não implica que este ativismo faça parte do feminismo. Podemos ser aliados, mas são coisas diferentes. O feminismo é um ativismo pelos direitos das mulheres, não pelos direitos de pessoas trans que nasceram homens, se socializaram como homens, nunca tiveram as experiências específicas do que é ser mulher (desde a menstruação à inevitável desvalorização social que sempre nos persegue, mais ou menos marcada), mantêm órgãos sexuais masculinos depois da transição e até pretendem continuar a ter sexo como homens depois de se identificarem como mulheres. Estas pessoas, inteiramente dignas e respeitáveis e que, sendo vulneráveis pelos desafios da transição, devem ter direitos protegidos, não podem determinar o que é ser mulher e os caminhos do feminismo.

Regressando a J.K. Rowling, o nível de abuso online que recebeu depois do seu tuit foi massivo. Ódio do mais indecoroso e mais grosseiro. Atente-se que J.K. Rowling não é uma mulher conservadora. É uma socialista progressista, com grande obra de apoio social a mulheres e crianças mais pobres e vítimas de violência, participação cívica e até política – apoiante do Labour e anti brexit.

Em resposta ao ódio, J.K. Rowling escreveu um ensaio muito pessoal, contando a sua história de violência sexual e violência doméstica, e sem uma gota de ódio pelas pessoas trans. A defesa dos direitos das mulheres como é evidente não é ódio a outras pessoas. E, acima de tudo, não aceito que a possibilidade de violência sexual sobre mulheres – sempre relativizada e secundarizada – , em espaços sexualmente segregados como casas de banho e casas-abrigo e prisões, seja menorizada para atender às necessidades de mulheres trans que mantêm pénis.

Como é natural, J.K. Rowling recebeu mais ódio.

Custa-me entrar neste debate, não só porque me parece que a minha posição e a de J.K. Rowling e a de tantas outras feministas é do mais elementar bom senso, mas também porque está viciado. Pessoas reacionárias e mal intencionadas que não querem saber de direitos de mulheres ou de pessoas trans pegam nela, arvorando-se – com uma hipocrisia de vómitos – defensores da segurança sexual das mulheres, dos desportos femininos, das quotas de mulheres na política e nas empresas. Mas tem de ser.

Este é um debate que se torna inevitável. Do meu lado, sendo inteiramente solidária com as pessoas trans, não aceitarei que os direitos das mulheres sejam secundarizados (ainda mais) face a outros grupos.

Não é o feminismo que está em cheque, é o trans ativismo. Este é que necessita de encontrar forma de funcionar sem atropelar o feminismo e os direitos das mulheres.

Como sei isto? Pelo nível de abuso que é vertido sobre as mulheres que dizem coisas parecidas com J.K. Rowling. E uma coisa sei com clareza absoluta: todas as causas que servem para verter ódio e abuso em cima de feministas são causas erradas. Por agora, o trans ativismo é uma das linhas mais seguras que serve para insultar, enxovalhar, ameaçar e calar mulheres feministas. O que em si mesmo é prova de que não cabe no feminismo.

Não vejo feministas insultando as pessoas trans. Simplesmente reservam a sua esfera de direitos. Na verdade também não vejo pessoas trans insultando feministas. Quem insulta são os partidários do trans ativismo, geralmente não-trans, homens e mulheres. Neste episódio chegou-se ao ridículo do rapaz que fez tão mal de Harry Potter nos filmes, que deve à imaginação de J.K. Rowling toda a sua fama (não fez mais nada que se apreciasse) vir a público dizer a J.K. Rowling, mulher, o que é que é ou não é uma mulher. Delirante, não fosse intragável.

Pelo que sim. Como estamos, o trans ativismo é, mais do que uma defesa dos direitos dos trans (inteiramente respeitável e necessária), um caminho fácil para os homens dizerem às mulheres o que são as mulheres e o que é o feminismo, calando-nos e condicionando-nos e limitando-nos. Não entendo como há mulheres que toleram isto.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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