Todas as mulheres sabem o que é sair de casa e ter medo que algo de mal nos aconteça

0

Nestes dias, com a morte de George Floyd, o homem negro que morreu asfixiado debaixo do joelho de um polícia em Minneapolis, tem-se ouvido a conversa bem intencionada com a seguinte tónica ‘os brancos não sabem o que é sair de casa e ter medo de sair de casa porque algo de muito mal pode acontecer fora de casa’. Isto é tudo muito bonito, mas é uma treta de homens brancos que tomam, como sempre, porque se acham a universalidade do mundo, as suas experiências como se fossem as experiências de todos.

Sim, os negros nos Estados Unidos (e se calhar por cá também) sabem que correm riscos só pelo facto singelo de saírem de casa. O risco de serem insultados pela cor de pele, de serem discriminados no trabalho, nos serviços que adquirem, nos espaços que frequentam. Mas também de serem vistos como criminosos, e de terem uma probabilidade muito maior que qualquer branco de terminarem tendo problemas com a polícia.

E não, nenhum branco em Portugal (ou nos Estados Unidos) sai à rua esprando vir a ser vitimizado ou maltratado pela cor de pele mais clara. O tom de pele é protetor, e todos nós da cor dominante sabemos disso e percebemos as facilidades que traz. Donde, é precisa muita hipocrisia e maldade para negar as dificuldades muito acrescidas que tem um negro em Portugal – não por causa de violência aberta, mas por todas as portas que se fecham.

A questão é que os perigos que os negros correm na rua não são exclusivos da cor. E a sensação e a perceção palpável de perigo não sei se não serão maiores nas mulheres. Não acredito que alguma mulher, mesmo em Portugal, país seguro, que tenha tido de dar uns passos sozinha numa rua à noite não tenha ficado aterrorizada com a experiência. Não há nenhuma mulher portuguesa – ou de qualquer país – que não tenha procedimentos de segurança acrescidos quando sai à rua: andar em sítios movimentados, com luz, não entrar em transportes vazios, correr em parques à noite ou nas ruas, trancar as portas do carro, manter-se acompanhada de pessoas conhecidas.

Todas as mulheres têm sobre si o perigo da violência sexual de que podem ser vítimas. Ou, menos horrível mas ainda traumático, de assaltos. Não é uma possibilidade teórica. Há uns meses, depois de um jantar de um partido político para que fui convidada, na Escola Náutica de Oeiras, saí sozinha para o meu carro. Não era muito tarde, mas estava escuro, só com um grupo bastante à frente. Dois homens cruzaram-se comigo, ar de bairro social, e um deles parou à minha frente para me impedir de passar e metendo conversa. Eu falei alto, para que o grupo mais à frente me ouvisse, continuei, o segundo homem começou a barafustar com o companheiro por me ter assustado e mandou-o continuar. Eu corri para os desconhecidos mais à frente que também tinham vindo do jantar, ouvindo a descompustura do ‘meu protetor’ ao que me tinha assustado enquanto se afastavam.

O que teria acontecido se não houvesse grupo mais à frente? Ou se o idiota que me abordou não estivesse acompanhado de alguém civilizado?

Outra vez, no Porto, perto de um espaço que é meu e estava a arrendar, já a anoitecer, numa rua do Bonfim um homem entradote na idade começa a seguir-me com o carro à velocidade que eu estava a andar no passeio, de janela aberta, fazendo sons ordinários. A minha vontade foi de bater no carro com alguma coisa contundente, de tão nojenta que foi a cena. Mas virei costas e saí daquela rua em passo apressado.

Estas foram as experiências mais recentes. Todas as mulheres vivem com isto ao longo da vida. Todas as mulheres têm noção de que correm perigo fora de casa (e, algumas, dentro de casa também). Todas as mulheres tiveram muitas experiências destas e sustos destes ao longo da vida.

Portanto as mulheres sabem bem o que é estarem em perigo por saírem de casa. E também sabem que a resposta dos conservadores e sexistas a estes perigos é ‘fiquem em casa, protegidas, que é o vosso lugar’. Em boa verdade até gostam de exacerbar, e nunca agir para diminuir estes perigos, porque diminuem a liberdade de movimentos de uma mulher e os sexistas gostam de constranger a liberdade das mulheres.

Podemos não terminar presas e com problemas com a polícia quando saímos de casa, como sucede com os negros. Mas temos probabilidade de terminar violadas, agredidas, amedrontadas, ameaçadas. Com o bónus de sabermos que, acontecendo alguma coisa, o nosso agressor não vai ser acusado ou, sendo, nunca cumprirá pena de prisão, que as nossas autoridades e tribunais são muito benevolentes com os agressores de mulheres. E tudo isto também não se tolera mais.

Artigo anterior‘Será que ela está à altura?’ Das formas sonsas às ostensivas de minar o poder das mulheres.
Próximo artigoCrime e castigo
Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.