“Faces are strange when you’re a stranger, faces look ugly when you’re alone.”

Porque parece que, de repente, nos odiamos uns aos outros mais do que o costume? Crises mexem com a nossa segurança; a insegurança leva-nos à desconfiança; a desconfiança leva ao isolamento; o isolamento à impotência; a impotência à insegurança; e esta a mais isolamento e desconfiança. E o ciclo fecha-se. O inferno são os outros?

“Faces are strange when you’re a stranger, faces look ugly when you’re alone.”

O sistema nervoso avalia riscos constantemente

E o que é que isto tem a ver com psicoeducação? Tudo, como sempre. O sistema nervoso processa a informação que lhe chega dos sentidos, tanto do exterior como do interior, e avalia constantemente os riscos a que estamos expostos. A sua função principal é manter-nos vivos, o que implica detetar a causa da ameaça e eliminá-la ou neutralizá-la. Quando a ameaça não é clara, queremos desesperadamente encontrar culpados.

As duas fontes de informação — interna e externa — não estão separadas. Os nossos estados internos são influenciados pelo exterior e a nossa perceção do exterior é alterada pelo nosso estado interno. É essa a razão pela qual as nossas visões sobre quase tudo são tão diversas: os olhos com que olhamos não são neutros.

Culpados escolhidos, segurança procurada

Por isso escolhemos culpados diferentes. Alguns acham que a culpa é da autoridade de saúde, uns por aumentar os números e outros por os diminuir; outros que é da China, da Organização Mundial de Saúde, de um empresário conhecido ou do vizinho que foi passear o cão. Independentemente de estarem certos ou errados, a intenção por trás de todas essas visões é a mesma: conseguir segurança num momento de grande insegurança.

Do estado seguro ao estado desafiado

EstadoComo vemos o outroComportamento típico
Em segurançaAliadoCooperação, curiosidade, escuta, bem-estar
Em alerta e vigilânciaPossível ameaçaEscrutínio, competição, medo ou zanga
Fuga ou lutaAdversárioBriga, discussão pela necessidade de descarga
CongelarInvisívelTensão escondida sob uma atitude descontraída
LisonjaAgressor elevado a superiorSubmissão; aliar-se ao agressor amplia o perigo

O alerta que se torna permanente

Nas situações de insegurança há um estado de alerta e vigilância: o outro pode ser uma ameaça e é escrutinado na sua estranheza. Em vez de cooperação surge a competição, e o outro já não é um aliado mas um adversário. É um estado essencial à sobrevivência quando a ameaça é real; no entanto, quando se torna um estado constante, tendemos a ver ameaças onde elas não existem e inimigos em cada rosto. Nenhum conflito interno ou externo pode ser resolvido neste estado — as soluções ganha/perde são sempre temporárias e implicam um estado de guerra permanente.

A sensação de perigo cria uma carga, e por isso tantas pessoas procuram “briga”, às vezes discutindo acerca de nada, apenas pela necessidade de descarga. No outro extremo surge a reação de “fazer-se de morto”, em que a tensão fica escondida por baixo de uma atitude descontraída. A resposta mais assustada, e ao mesmo tempo assustadora, é a lisonja: quando não é possível conectar-se e lutar ou fugir não são opções, a única saída é submeter-se ao agressor e elevá-lo a um estatuto superior.

O outro como ameaça

Repare-se no que está em jogo: a nossa perceção do outro não depende apenas de quem ele é, mas sobretudo de como estamos por dentro. Quando o estado interno é de segurança, o outro é um aliado; quando é de ameaça, o mesmo rosto torna-se suspeito. É por isso que os mesmos acontecimentos, vistos de estados diferentes, produzem inimigos em cada esquina. Não é uma falha moral de cada um: é o modo como o sistema nervoso tenta, à sua maneira, manter-nos vivos.

Regressar à conexão

Se a desconfiança alimenta o isolamento e o isolamento alimenta a desconfiança, a saída passa por interromper o ciclo em qualquer ponto: uma conversa, um gesto de escuta, a recusa em tratar o outro como suspeito por defeito. Não é ingenuidade; é a única via que não reproduz a lógica da ameaça que nos assusta. Num tempo de crise, cuidar das condições que tornam as pessoas capazes de se sentir seguras é também cuidar da possibilidade de entendimento.

Do punitivo ao reparador

  • Sentir-se seguro não é uma escolha, é um privilégio.
  • Não adianta culpar quem usa a lisonja nem considerar isso uma falha de carácter.
  • As ações individuais nunca são apenas individuais: expressam forças que se movem no coletivo.
  • Só quando me assumo como parte do problema posso ser efetivamente parte da solução.

As implicações desta reação remetem para as palavras de Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” Em termos humanos, soluções fáceis e duais simplesmente não funcionam — temos tentado isso nos últimos milénios sem sucesso. É preciso passar de uma abordagem punitiva para uma abordagem reparadora, da desconexão à conexão, reconhecendo e reencontrando a humanidade no outro, sobretudo quando ele é estranho.