“Faces are strange when you’re a stranger, faces look ugly when you’re alone.”

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Porque parece que de repente nos odiamos (mas do que o costume) uns aos outros?

Crises mexem com a nossa segurança, insegurança leva-nos à desconfiança, a desconfiança leva ao isolamento, o isolamento à impotência, a impotência à insegurança e esta a mais isolamento e desconfiança. E o ciclo fecha. O inferno são os outros?

E o que é que isto tem a ver com psico-educação podem perguntar? Tudo, como sempre.

O Sistema Nervoso processa informação que lhe chega dos sentidos, tanto do exterior como do interior e avalia constantemente os riscos a que estamos expostos. A sua função principal é manter-nos vivos. Isso implica detectar a causa e eliminar ou neutralizar a ameaça. Quando a ameaça não é clara, queremos desesperadamente encontrar culpados.

Estas duas fontes de informação: interna e externa não estão separadas. Os nossos estados internos são influenciados pelo exterior, isso acho que todos sabemos mais que bem, e também a nossa percepção do exterior é alterada pelo nosso estado interno.

É essa a razão porque as nossas visões sobre quase tudo são tão diversas. Porque os olhos com que olhamos não são neutros. Não só a nossa história afecta a nossa percepção, como o nosso próprio estado interno faz o mesmo.

Por isso escolhemos culpados diferentes. Alguns acham que a DGS é a culpada, embora uns por aumentar os números e outros por os diminuir… outros que á a China, a OMS, Bill Gates ou o vizinho que foi passear o cão. Independentemente de estarem certos ou errados, a intenção por trás de todas essas diversas visões é a mesma: conseguir segurança num momento de grande insegurança.

E por isso é tão importante que o nosso estado mais normal seja seguro e a reacção de perigo seja passageira. O sistema nervoso oscila entre vários “modos”:

Quando em segurança vemos o outro como aliado, tendemos a cooperar, sentimos bem estar, relaxamento, alegria. Sentimos curiosidade pela vida e pelos outros, queremos explorar. É muito mais fácil escutar e compreender o outro.

Nas situações de insegurança ao contrário há um estado de alerta e vigilância. O outro pode ser uma ameaça e por isso é escrutinado na sua estranheza. Podemos sentir-nos assustados, zangados ou as duas coisas ao mesmo tempo. Em vez de cooperação surge a competição. O outro já não é um aliado mas um adversário. É um estado essencial à sobrevivência quando a ameaça é real. No entanto, quando a se torna um estado constante, tendemos a ver ameaças onde elas não existem e inimigos em cada rosto.

Nenhum conflito interno ou externo pode ser resolvido neste estado. As soluções ganha/perde são sempre temporárias e implicam um constante estado de guerra, com várias batalhas, e alternância de domínio. Vemos isso entre outros no futebol… e na política.

A sensação de perigo cria uma carga, por isso tantas pessoas procuram “briga”, às vezes discutindo acerca de nada, apenas pela necessidade de descarga. No outro extremo surge a reacção de “fazer-se de morto” ou ser invisível, a tensão fica escondida por baixo de uma atitude descontraída ou até amorfa. Os músculos da superfície colapsam, os internos estão em tensão máxima.

A resposta mais assustada e ao mesmo tempo assustadora é a de lisonja, quando não é possível conectar-se, quando lutar ou fugir não são opções, e mesmo congelando não é possível parar o perigo, a única opção é submeter-se ao agressor. Elevá-lo a um estatuto superior e tornar-se um minion. Continua a ser uma estratégia de sobrevivência, mas desta vez amplia o perigo, ao tentar aplacar o agressor, aliando-se a ele, é quase impossível não se tornar num. Lembra alguma coisa?

As implicações desta reacção são imensas. E remetem às palavras de Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.”

Não adianta muito culpar quem usa lisonja, nem considerar uma falha de carácter, mas sim compreendermos que sentir-se seguro não é uma escolha, é um privilégio.

Em termos humanos soluções fáceis e duais simplesmente não funcionam, temos tentado isso nos últimos milénios sem sucesso. Não adianta culpar o mensageiro nem eliminar os portadores dos sintomas. É preciso mais. Esse mais implica, com todas as dificuldades que isso significa, passar de uma abordagem punitiva para uma reparadora. Passar da desconexão à conexão. Reconhecer e reencontrar a humanidade no outro, sobretudo quando ele é estranho. Nada fácil.

As acções individuais nunca são apenas individuais, são sobretudo expressão das forças que se movem no colectivo abaixo da superfície. Só quando me assumo como parte do problema posso ser efectivamente parte da solução.

Toda a gente sabe o que é ser agressor ou vítima, embora cada um dê significados diversos a cada uma das palavras, mas não conheço uma palavra que defina uma pessoa que não é uma  nem outra coisa. Conhecem? Talvez eu seja distraída, ou talvez precisemos de uma palavra nova.

 

 

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