Esqueletos guardados no armário

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Nesta vida somos todos um bocadinho artistas. Artistas de nós mesmos. De nos querermos reinventar momento atrás de momento. De queremos que a nossa casa seja um palco de aventuras e de amores rasgados. De paixões e de calmarias. Que seja uma livraria, daquelas onde se pode mergulhar entre mil contos enquanto se toma o café perfeito na poltrona imaginada. Que seja o mais ‘gourmet’ e ‘clean’ dos restaurantes, cheio das especiarias e ingredientes ditados pelo mais ‘trend’ dos ‘blogueiros’. E que o nosso roupeiro seja o reflexo deste palco, onde nada é deixado ao acaso, onde todas as cores fazem ‘pandã’ e onde é reservado um espaço de destaque para aquelas marcas mais especiais, tal qual a montra perfeita da loja online.

Mas por detrás de cada palco existe um outro mundo. Um mundo de cabos soltos, luzes fundidas, cartazes caídos e guarda-roupas amontoados.

Hoje vou levar-vos numa visita guiada ao meu guarda-roupa. Juntos vamos descobrir os esqueletos que lá tenho guardados, de entre botas altas, ‘sneakers’ coloridos, carteiras, malas e sacos, saias curtas e compridas, vestidos esvoaçantes, ’t-shirt’ provocativas, camisolas de angorá, algodões vários, sedas, gangas, peles, camurças…

Aposto que neste momento alguns de vós perguntar-se-ão qual o propósito deste artigo. Pois sejamos claros a esse respeito: é repôr a verdade, contribuir para que a realidade dos nossos armários seja visível para nós próprios. Contudo, um aviso! Depois de ler este artigo, não vai haver retorno… não poderemos jamais dizer “ahhhh, não sabia”, “ahhhh, se eu soubesse…..”.

 

Ora, vamos lá tentar explicar isto da indústria do vestuário de forma simples.

Utrecht. 21:30h. Num dia qualquer.

Ligo o computador. Faço um google rápido. Encontro a página que me interessa. Já temos intimidade suficiente para que ela conheça o meu ‘username’ e ‘password’. Entro. Já tenho na mente o que me apetece para a temporada que se adivinha. É este mesmo, um ’maxi-dress’ de algodão, um algodão preto, grosso. Giro! Ainda vejo outras coisas mas nada mais me convence, por ora. Lá pago o vestido.

Entretanto, numa terra distante…

Sai de casa cedo. O sol já raia. Vai a pé. O sari flutua com a brisa do acordar do dia. Chega por fim. Sobe cinco lances de escadas. Entra. O seu lugar está ali, à sua espera. Como sempre. Igual. Senta-se. A balada da máquina prolonga-se até tarde na noite. A encomenda está quase pronta. Têm agora de coser as etiquetas. Não compreende o que cose. E, para dizer a verdade, nem se interessa muito. Já foram tantas. E todas idênticas. É o fim de um longo processo que começa muitos antes, nas plantações. Ela bem sabe o que isso é. Noutros tempos foi a origem da bonança da sua família. Até a desgraça se ter abatido sobre eles. E tal como a terra a secar diante dos seus olhos também a vida dos seus secou…

 

O meu ‘maxi-dress’ já chegou. Uma maravilha este serviço de entregas por paquete. Experimento-o. Gosto ainda mais do que na página da internet. Vou já vesti-lo! Mas, entretanto, leio a etiqueta. “Made in India. 100% Cotton”. Fico a pensar.

Fazendo de cabeça uma conta simples pondero como pode o preço deste vestido pagar o cultivo de meio quilo de algodão, de 6.000 litros de àgua (equivalente a dois meses dos meus duches diários) e de inquantificáveis kW de energia para o fabricar?!??? Fico baralhada…. Será que a vaidade do vestido novo me está a retirar a lucidez? 

Mas afinal o preço que pago pelo meu vestido novo paga exactamente o quê?

Pois bem. Paga muita coisa.

Paga a marca ‘high-end’ do vestido.

Paga o design ‘único’ do vestido.

Paga a qualidade dos acabamentos do vestido.

Paga o tecido exclusivo do vestido tingido na Índia com tintas tóxicas mas que dão um toque e brilho especiais à peça.

Paga a contaminação dos rios e a exaustão da terra com os pesticidas, herbicidas e fungicidas utilizados na produção do algodão.

Paga a saúde de todos aqueles indianos que trabalham nas fábricas de tecidos em contacto directo com produtos químicos altamente cancerígenos.

Paga os salários miseráveis de todos os trabalhadores e pequenos empresários envolvidos na produção da minha nova coqueluche.

Paga o orgulho do agricultor forçado a mudar da sua agricultura sustentável milenar de base familiar para um método intensivo de agricultura comercial.

Paga o ‘business model e os ‘overhead’ da multinacional.

Paga a publicidade e o marketing que têm como ‘target’ mulheres como eu.

 

Duro não é?

Mas ainda não acabou…

A visita guiada não se dá aqui por terminada. Há mais esqueletos no armário…

Os esqueletos de todos os crocodilos que ano após ano são mantidos em condições atrozes em cativeiro para produzir as nossas melhores nossas malas.

Os esqueletos dos milhões de abelhas, borboletas, e demais insectos e animais que perecem envenenados pelos químicos utilizados na produção dos 33.9 mil milhões de peças de vestuário importados anualmente para a UE.

Os esqueletos de todos os mamíferos, peixes, moluscos, algas e crustáceos que morrem sufocados pelas microfibras libertadas com as infindáveis lavagens dos 99% dos tecidos não sustentáveis.

Os esqueletos de todas as vacas e ovelhas que foram maltratadas, mal nutridas, fisicamente abusadas e privadas de qualquer liberdade para nos garantir a mala com a mais perfeita das peles.

Monstruoso, não é?

E agora? O que vamos nós fazer agora com isto?

Resta-me deixar-vos em aberto com a vossa resposta…

A minha resposta já a encontrei…

Uso o que já tenho.

Vou à modista alterar o que já não gosto.

Compro em segunda-mão.

Compro ‘free-trade’.

Compro ‘orgânico’.

Compro ‘sustentável’.

Ou não compro.

Porque não consigo fingir que não sei. Porque não consigo pensar que “não tem importância”. Porque escolho não mais viver com esqueletos no meu armário!

 

#TIMETOWAKEUP

Fotografia por Andrej Lišakov em Unsplash

 

 

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