Os mais velhos como não pessoas

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Sabem uma das maiores perturbações que me trouxe esta pandemia da Covid-19? Foi a forma como muita gente olha para os idosos, para os mais velhos, como dispensáveis, os melhores candidatos a morrer que uma pandemia poderia escolher, pessoas que não têm direito a aspirações nem a vida e, na verdade, como não pessoas. Sujeitos de decisões de outros sobre eles, que lhes podem roubar o controlo que ainda têm sobre as suas existências, a alegria da vida quotidiana, a proximidade com os entes queridos. Ou bem que podem morrer de covid ou, se não, que fiquem vivos mas enfiados nas suas casas sem incomodar as andanças dos mais novos.

A pandemia da Covid-19 trouxe-me algumas informações sobre aquilo que as pessoas estão dispostas em prol dos outros, ou o que não estão de todo dispostas, que foi uma lição sobre a natureza humana, tanto no geral como no concreto, que não esquecerei. Os últimos momentos assim definidores foram a eleição de Donald Trump e a erupção do movimento #metoo.

Não vou esquecer a quantidade de vezes que li, desde as redes sociais a comentadores dos jornais, escrevendo que a mortalidade da Covid se concentra nos que têm mais de 70 e, sobretudo, 80 anos. O subtexto: são pessoas que não há problema se morrerem. É certo que toda a gente funcional fica mais afetado com a morte de crianças de que com a morte de adultos de qualquer idade. Afinal são pessoas que invocam, e bem, todos os nossos mecanismos de proteção, são ainda sobretudo potencial, algo que se está a formar. Qualquer pessoa prefere uma pandemia que não afete as crianças. Mas isso não implica que mortes do extremo oposto devam ser vistos como indiferentes.

Confesso que quando leio linhas como estas da resposta de Maria Manuel Mota (a quem temos de agradecer os testes à covid portugueses), afirmando que ‘o vírus é bonzinho’ desconfio que tipos de cérebros as produziram. A razão dada para o vírus ser ‘bonzinho’: “Temos de ter noção que praticamente não afeta crianças, adolescentes e jovens adultos“. “E os grupos de risco são pessoas com mais de 70 anos ou com outras complicações de saúde. Embora acima dos 70 anos morrer não seja uma fatalidade, isso não acontece com a maioria desses pacientes.” Donde: o vírus mata que se farta os mais velhos, mas como esses não faz grande mossa que morram, é um ‘vírus bonzinho’.

(Isto mesmo descontando as informações que dão conta da destruição semelhante ao HIV que este coronavírus faz nos sistemas imunitários, da reinfeção de muitos recuperados da Covid, de muitos que se curaram ficando com sequelas nos pulmões por provavelmente anos, de haver infetados que não têm nenhum sintoma e ainda assim morrem de pneumonia, e de na verdade se saber ainda muito pouco do vírus, concretamente as suas consequências a longo prazo, para que se possa afirmar com algum pudor se o vírus é bom ou não.)

Os mais velhos, mesmo se mais frágeis e menos autónomos, são pessoas com inteira dignidade, têm vida, têm afetos, têm alegrias e tristezas, têm dores e têm momentos de alívio. Os mais enérgicos e autónomos têm projetos, movimentam-se, ajudam os filhos, dão um importante apoio emocional e logístico aos netos, na verdade têm uma porção não despicienda do trabalho cuidador das crianças. Lamento dizer, mas considerar que os mais velhos se morrerem, paciência, que não são dignos de esforços comuns e coletivos para lhes salvar vidas dentro do possível, é estratificar as pessoas com níveis de dignidade diferentes, como se uns fossem mais pessoa que outros. E isto é o notebook básico do fascismo.

Depois há quem até se incomode se os mais velhos morrerem. Então, têm uma ótima solução: é prendê-los dentro das suas casas (ou lares, que são enormes focos de contágio) e não os deixar sair até se obter uma vacina. Portanto julga-se normal colocar os mais velhos como mortos-vivos, sem direito a existência própria, para que os mais novos não  sejam obrigados a ter nenhum incómodo protetor nas suas vidas. Retira-se toda a alegria de vida aos idosos, garante-se que têm poucos contactos com os seus filhos e netos (que são as maiores fontes de felicidade), promovem-se depressões. Mas não faz mal, são velhotes, quem quer saber? Já não são bem pessoas.

Todas estas visões me revolvem as entranhas. Os mais velhos são cidadãos e participantes de pleno direito na vida da sociedade. Agora que parámos o contágio livre do coronavírus, que já comprámos ventiladores e medicamentos com alguma eficácia, que já se produziram e importaram máscaras e gel desinfetante e outros materias de proteção individual, vamos começar a levantar o confinamento – no tempo que, de resto, sempre se previu. A proteção dos mais idosos nos espaços públicos deve ser assegurada da mesma forma que para os demais, nós devemos todos ser agentes protetores dessas pessoas mais velhas, permitindo-lhes liberdade de ação e, enfim, vida.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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