O poder da Coscuvilhice – A nossa arma contra a violência doméstica

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Naquela manhã fui para o escritório com um olho negro. Negro daqueles que nem o melhor tutorial do ‘YouTube’ consegue disfarçar. E doía. Foram precisos alguns ‘Ben-u-ron’ para me fazer arrancar para o dia. Mas lá fui com a minha saia travada trabalhar. Fui almoçar à cantina, como fazia amiúde. Senti-me olhada. Se calhar aquela saia caía-me melhor do que pensava. Depois do almoço uma colega, mulher, já vivida, abordou-me… “Rita, está tudo bem lá em casa? O teu marido está bem? Se precisares de alguma coisa podes sempre dizer…” Agradeci-lhe. E o dia foi passando. Ao fim do dia, mesmo antes de sair, passei pelo gabinete de uma outra colega, também ela mulher, para um trivial “até amanhã” e eis que surge outra vez: “Rita, que coisa… o teu olho. Está tudo bem em casa?”. Em casa? Olho? Nesse momento ficou tudo muito claro. Senti imediatamente a pressão de cabalmente esclarecer o assunto. Dizer que não, que não tinha sido nada disso, que agradecia imenso a atenção mas que não, que eu e o meu marido nos entendíamos muito bem, que nos respeitávamos, e que tinha realmente sido um acidente, uma ‘turra’ dada inadvertidamente pelo meu filho. E assim me justifiquei.

E se é verdade que apreciei a abordagem cuidadosa das minhas colegas, também é verdade que me senti muito incomodada pelo facto de lhes ter passado pela cabeça que eu poderia ser mais uma de entre as vítimas. Mas porquê é que me senti tão constrangida? Não seria totalmente plausível que eu fosse uma de entre as 23.586 vítimas de violência doméstica registadas pela APAV em 2019? Preencho todos os requisitos, sou mulher, estou na faixa etária alvo, e tenho o nível de educação adequado…

Confesso que este é um tema que me perturba bastante. Que me atordoa. Porque é tão íntimo. Expõe-nos tanto. São segredos de cama… de vida… de entre-os-lençóis-da-casa. Revelam fotografias estragadas. Arruinam o sonho de ‘felizes-para-sempre’ em que crescemos a acreditar. Desalentam a busca pela felicidade que guia o ser humano. Mancham-nos a alma, o orgulho e, pior, o nosso amor próprio… 

Mas lá veio o Coronavírus levantar a poeira. Que, a fazer das suas, nos desafia como sociedade a encontrar uma resposta que realmente ajude os que ao ficar em casa não podem escapar de uma ameaça muito mais visível do que este vírus.

“Mas ajudar como?”, perguntarão.

“Coscuvilhando.” – respondo eu. 

Assim, simples.

Vamos todas, já, acabar com o estigma que existe em torno da violência doméstica! Vamos falar disso como se nada e tudo fosse. Vamos abrir-nos. Vamos ‘quadrilhar’ com a vizinha, com a irmã, com a amiga, com o homem da padaria, com o que também passeia o cão. Perguntemos à nossa mãe se também ela passou por isto, à nossa tia. Liguemos à nossa colega e raios! falemos disto. Daquela vez em que dormimos com ‘fulano’ e da outra beijámos com ‘sicrano’. E do grito. Da ameaça pequenina. Da violência implícita. Do beijo forçado. Da perseguição. Da chantagem. Dos palavrões. Do controle. Da estalada. Da violação. Disso, disto e de muito mais. Também é vida. Também é a nossa vida. Não é vergonha. É viver! E às vezes é sobreviver!

Sabiam que nomeadamente Yuval Noah Harari no seu livro ‘Sapiens: A Brief History of Humankind’ argumenta que o mexerico é a base da sobrevivência da nossa espécie. O tipo de informação que nos transmite permite-nos apreender certas realidades que de outro modo nunca intuiríamos nem aprenderíamos.  

Tomemos então isto por certo! Por arma! Sem medos. Façamos algo proveitoso nestes tempos de enclausura. Falemos de nós próprias para variar e das outras se calhar. Vamos acabar com isto e já! Vamos falar a verdade, de verdade, e com isso espantar este silêncio, este bicho papão. Estendamos a nossa mão! 

Vamos juntas criar um mundo no qual se fala abertamente de violência doméstica. Esta é a arma mais poderosa e que ninguém jamais poderá desactivar.

Agora cairia bem para a credibilidade deste texto se eu aqui dissesse que também já passei por isto, que também eu sou vítima, que compreendo. Mas a verdade é que não, nunca. Esse não foi o meu fado.

Mas agora tenho o mote e a inspiração. Inspiração que são todas as mulheres que para além da vida visível de trabalho, casa e família, ainda têm essa sombra de vida invisível.

É por nós, porque ser mulher é de todas! E por entender que para ela vai sempre existir um momento, um instante, em que um ‘flashback’ do abuso surge, em que um ataque repentino de ansiedade espreita, em que ‘desconfiar’ é a palavra de ordem, em que qualquer relação que se construa com alguém terá esqueletos no armário. E para nós que ouvimos, saber que depois destes ‘mexericos’ também que a nossa vida nunca mais vai ser a mesma. Que a história que vamos escutar vai mudar-nos para sempre tal como mudou as mulheres que a viveram. Não prometo nada. Apenas que sei ouvir e que sei fazer rir e tentar não julgar.

Peço-vos… ele não vale a vossa vida… a vida que vos tira a cada minuto… falem… peçam ajuda… desabafem… se precisarem estamos todas aqui… e também está a APAV… no número gratuito 116 006 (de segunda a sexta das 09:00 – 21:00) ou o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica no número 800 202 148, ou escrevendo para linha SMS 3060 ou email para: covid@cig.gov.pt (24h por dia/ 365 dias por ano). Todos são serviços anônimos e confidenciais. E não se esqueçam o ‘WhatsApp’ nunca deixa pista basta apagar a mensagem…

 

 

E, de saída, uma última nota. É-me muito óbvio que a violência doméstica não vitimiza apenas mulheres. Não me esqueci de todas as crianças, e jovens, e avós, e pais, e homens, e todas as pessoas que por um motivo ou por outro sofrem ou sofreram desta violência. Mas, infelizmente, os números estão lá para mostrar, a violência contra as mulheres representa 80,5% de todos os casos de violência doméstica registados pela APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) em 2019 em Portugal. Entretanto, o meu mais sincero respeito por todos…

 

#TIMETOWAKEUP

Fotografia por Max Kleinen em Unsplash

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