Quase que os vi morrer – O derradeiro ‘FaceTime’ do Coronavírus

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Não tenho medo de morrer. Nunca tive.

Aceito simplesmente que ‘morrer’ é a outra face da moeda ‘viver’.

Aceito também que não tenho nenhum controle sobre o momento ou o modo em como vou morrer (e neste momento nem antevejo querer ter). Mas às vezes caio na tentação de pensar que tenho controle sobre a minha vida, sobre o meu viver. Pensamento inquieto, esse.

O Coronavírus trouxe-me várias coisas. E, por enquanto, não me tirou nada. Nada importante, digamos. Não me tirou a liberdade, nem o amor, nem o prazer, nem a tranquilidade, nem amigos. Nada. A muita gente tirou, mas a mim não, ainda não…

Mas uma das coisas mais importantes que me trouxe foi lembrar-me que tal como não tenho controle sobre a morte, também não tenho controle sobre a vida. Nenhum de nós tem. O que temos sim é o poder de decidir o que fazer com o tempo que nos é dado e com as circunstâncias que se nos deparam. Isso sim, isso temos. Isso tenho. 

E não, descansem. Não me vou pôr aqui a sugerir que deviríamos aproveitar este tempo para fazer isto e aquilo, aqueloutro e mais outro. Nem para nos reinventar, nem para aprender mil coisas novas, nem para nos tornarmos uma versão melhor de nós próprios.  Nada disso. Não. Não temos que fazer nada que não tenhamos já cá dentro.

Mas sim, vou dizer que neste tempo assim oferecido pelos deuses é tempo de meditar. De sentir. De aceitar o que se sente. Ansiedade, frustração, tristeza, desespero, aflição. De me aceitar ser eu e de conseguir rir disso mesmo, sozinha, ao espelho, de manhã. De ver as rugas a espreitar, das noites em branco a estudar ou a ‘brincar’. De me ver. De ter a coragem de comer aquele chocolate e de não me sentir culpada por isso. De beber aquela garrafa de vinho e não ter medo de enfrentar que às vezes preciso de um copo de vinho para me compôr. Sim, isto. De reavaliar. De pensar se foi para viver esta vida que nascemos. Se por esta vida que temos nos vale morrer…

É também tempo de pensar nas coisas difíceis, de as aceitar como são ou como não são. 

Durante muitos anos tentei sempre esquivar-me de ir a velórios e funerais. Não sabia como agir, não sabia bem o que dizer, “que tinha muita pena”, “que também estava triste”, “que a perda da família era escutada, era sentida”…Nunca me demorava muito, só o indispensável. Não me queria envolver naquela dor. Era difícil. Incomodava.

Mas então percebi. Que nada acaba ali, naquela caixa. Que é um estádio da vida. Um momento de partilha, de comunhão, de saudade, de amor.

E de todas as coisas que o Coronavírus me trouxe, esta foi a que mais me doeu.

Não foram os apelos desesperados na internet, ou o número de crianças infectadas, não foi a jovem de 16 anos internada nos cuidados intensivos a lutar pela vida, não foram os médicos e enfermeiros com as caras marcadas pelas máscaras de protecção, não foram sequer os números… de mortos… de recuperados… de contagiados… não, não foi nada disso… foi aquele beijo na distância, filtrado por um ‘FaceTime’ qualquer e facilitado pela boa vontade da enfermeira de serviço.

Doeu-me ter (re)aprendido que na morte temos de ter lugar para dizer adeus. Temos de nos despedir. A morte distante dos outros fez-me lembrar que sem adeus há morte mas não há enterro, não há luto, não há espaço para aceitar esta parte da vida.

Quando lá chegaram já foi tarde demais. Antes não puderam ir. “Por causa do vírus”, disseram-lhes. E ela entretanto morreu… assim, sozinha dos seus… sem um abraço, um carinho, um perdão, uma confissão. Assim… Só.

E eles nem o último olhar lhe viram, nem o último sorriso, nem o calor do bafo do derradeiro suspiro sentiram, nem nada… 

Poderia ser um conto, um capítulo de um romance, mas não é! É o mundo. E a vida e a morte de cada um de nós… antes de nos reinventarmos e de deixarmos o nosso corpo para trás, a sete-palmos-debaixo-da-terra!

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