Uma alegoria da imortalidade

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Uma alegoria da imortalidade, 1540 Giulio Romano

Temos uma pandemia em curso, um fenómeno destes é uma ameaça existencial à humanidade. Cada vez que acontece ficamos aterrorizados, mas mantemos aquela confiança que nos tem assegurado a sobrevivência como espécie, acreditamos que as pandemias são apenas percalços naturais numa longa existência, que com recurso à ciência e à tecnologia são ultrapassáveis e vão ser no futuro cada vez menos significativos e ameaçadores.

A esta nossa atitude, aparentemente racional, está subentendida uma crença, uma espécie de fé na imortalidade da espécie humana, que nada tem de racional. Mesmo, quando recorrentemente citamos Keynes “no longo-prazo estamos todos mortos”, concedemos apenas que nós, individualmente, os que agora estamos vivos vamos morrer, um dia, não a espécie humana. É uma crença irracional porque há muito que a ciência nos assegurou que o mais certo destino da espécie humana, como de muitas outras espécies no passado, é a extinção.

A imortalidade da espécie humana é um mito muito reconfortante e útil, fundamental para fazer funcionar a economia e a sociedade também esta suportada em outro grande mito – o do crescimento perpétuo. Acreditamos que com a vacina e os antivirais a humanidade conseguirá sempre encontrar tecnologias e formas de combater esta ameaça. Isto sedimentará em nós a fé na imortalidade da espécie, mais uma vez, e apesar das centenas de milhares de indivíduos que vão morrer da doença em todo o mundo, conseguiremos sobreviver.

Este mito da imortalidade da espécie, também se alimenta de uma outra crença muito estimada inicialmente pelos economistas marxistas e hoje um dogma em Silicon Valley – a de que o poder da tecnologia não tem limites – uma espécie de salvação pelo progresso científico e tecnológico.

Estamos hoje confrontados com exemplos limites destas crenças, quando não é apenas na imortalidade da espécie que acreditamos, mas também na imortalidade do próprio indivíduo (um tal HomoDeus, de que fala Yuval Harari). Quando aceitamos que conseguimos inverter as alterações climáticas somente com recurso a tecnologia, sem que haja mudança de padrões comportamentais, estamos perante um outro exemplo de tecno-barbarismo, para o qual o Papa Francisco nos tem alertado.

Não temo pelo futuro da ciência nem da tecnologia, acredito que estão a ser desafiadas e darão um enorme salto em frente com este repto do destino, temo se estas não forem guiadas pelos princípios humanistas, e pelo quanto estamos dispostos a ceder da nossa humanidade para salvar a nossa pele como indivíduos.

Há muito quem defenda que para evitarmos no futuro novas epidemias como esta, basta para tanto sacrificar a nossa privacidade à tecnologia e à robustez do poder dos Estados. Queremos com este ensejo garantir uma vida mais longa e confortável enquanto indivíduos – mas será legítimo, se em troca perdermos a nossa privacidade?

Pendem sob a humanidade ameaças tão ou mais graves que as doenças epidémicas, forças que por norma precipitam ou acompanham o colapso das civilizações: a migração ingovernável, a ameaça nuclear, a bioengenharia, a destruição dos oceanos, e as alterações climáticas. A questão é: até onde estamos dispostos a ceder no nosso humanismo, para combater estas forças e podermos alimentar o mito da imortalidade da espécie humana?

Algo nos vai derrotar no futuro como espécie, não sabemos como nem quando, e aqui distinguem-se os pessimistas dos optimistas. Com a perda de privacidade o que pode sucumbir definitivamente nesta pandemia COVID19 é um pouco da nossa humanidade, até ao dia em que, se não for uma doença epidémica será um dos outros “cavaleiros do apocalipse” que virá para nos levar – a todos. Nesse dia espero que encontre uma espécie que ainda se reconheça do humanismo, e não uma outra que se deixou perder por “mitos”.

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Victor Tavares Morais
Victor Tavares Morais, nasceu em Luanda no ano em que o homem pisou a Lua e o escritor Samuel Beckett ganhou o prémio Nobel, é católico, casado e pai de dois filhos. É engenheiro e mestre em gestão, trabalhou entre Portugal e Cabo Verde, e podem encontrá-lo no twitter em @tavares_morais.

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