Pandemia: afinal há quem queira matar os velhinhos

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Há coisas que não deveriam ser difíceis. Em alturas de crise aguda, quem não tem informação abundante ou relevante não deveria dar palpites aos estudiosos e aos especialistas. Por exemplo, na segunda guerra mundial aposto que as equipas que se dedicavam a detonar em segurança as bombas que caíam nas cidades inglesas e não explodiam foram poupadas aos bitaites sobre como fazer a sua (mui perigosa) tarefa pelas redes sociais da altura. Devíamos trazer esse bom hábito de parcimónia para estes tristes tempos de pandemia e isolamento.

Ora tenho lido (e também ouvi uma) várias opiniões – até agora todas elas vindas de uma pequena parte (e não generalizemos para o todo!) da direita conservadora, ou da alt right (aqui não sei quão generalizado), de pessoas que escrevem ou falam em meios de comunicação social (não se trata portanto do maluquinho das redes sociais) – dando conta do disparate que é fechar tudo, disromper totalmente a nossa vida, dar cabo da economia, tudo isto só por uma doença com uma mortalidade nem assim tão elevada e que mata sobretudo idosos e pessoas com problemas de saúde pré existentes. E ainda moralizam. Somos nós, sociedade medriquinhas, que já não sabe conviver com a morte, que os mais velhos vêem de forma mais descomplexada.

Estas aventesmas (perdoem-me o francês, mas não lhes consigo chamar outra coisa) devem julgar que os tais dos idosos se estão a marimbar se vivem ou morrem, que não gostam de passar tempo com os filhos e netos e em alguns casos bisnetos, que não apreciam a vida, que, enfim, estão perfeitamente confortáveis perante uma morte horrível com uma pneumonia forte, com falta de ar, num hospital onde nem podem ter visitas da família e não põem a vista em cima dos entes queridos até morrerem. Estas aventesmas, para esconder o seu egoísmo, chegam ao ponto de por este exótico ponto de vista nos mais velhos, seres que afinal não são frágeis, são uns heróis sem medo, forjados em tempos menos picuinhas.

O mais torcido disto tudo é que esta opinião vem de pessoas que se ofendem muito, mais uma vez com grande moralismo, com a eutanásia – são contra, claro, ao estilo daquele cartão ‘por favor não matem os velhinhos’ – e com o modo como a vida atual trata os mais velhos. (ATENÇÃO: nem todos os que se opõem à eutanásia têm estas posições para a pandemia. A maioria não terá. Refiro-me a uma minoria da direita conservadora.) Não raro falam do hedonismo dos tempos modernos e da falta de capacidade de sacrifício. Elogiam os tempos de austeridade da troika, como se fossem uma lição de sobriedade.

Portanto: dar uma morte pacífica a quem está em sofrimento atroz não pode ser; mas criar as condições de colapso dos sistemas de saúde que garantem mortes horríveis aos mais velhos e fracos, ah, isso tudo bem. Os mais velhos e fracos – vamos todos fingir para aliviar as consciências – nem se importam de morrer. Desde que não os afete aos próprios opinadores, novos e saudáveis, querem lá saber e até dão altivos umas lições à volta de como trememos quais varas verdes perante a morte.

O que defendem? Aquilo que o Reino Unido já tentou, com consequências desastrosas (medidas em número de mortes): isolar os mais velhos e os doentes crónicos (como se fosse possível isolar totalmente apenas grupos de pessoas que contactam com frequência com cuidadores que não estariam em isolamento) e deixar o resto da sociedade continuar com cuidados ao nível mínimo.

Bom, é conveniente esclarecer que as pessoas de maior idade ou com problemas de saúde crónicos que têm morrido em Itália não morrem só de COVID19. A maioria morre pelo colapso dos hospitais, pela inexistência de ventiladores suficientes para tantos casos críticos simultâneos, pela escassez de camas em unidades de cuidados intensivos, pelo esgotamento dos médicos, pelo racionamento dos recursos (medicamentos, ventiladores, espaços de cuidados intensivos,…) que – numa ocasião de calamidade – são aplicados aos que têm maior capacidade de sobrevivência.

Donde, muitos dos mais velhos que morrem em Itália, mesmo contagiados e com uma pneumonia trazida pelo coronavírus, sobreviveriam acaso estivessem numa situação em que todos os recursos conhecidos lhes fossem dedicados – em vez de serem simplesmente deixados morrer, como sucede na Lombardia (e parte o coração a qualquer um).

E o que é que esgota os recursos dos hospitais e dos sistemas de saúde? Pois bem, é o contágio generalizado que ocorre SEMPRE que não há medidas de contenção como escolas e serviços fechados e isolamento e quarentena. Porque mesmo que o contágio ocorra maioritariamente com pessoas mais jovens e sem problemas de saúde, alguma percentagem desses casos vai necessitar de internamento e de cuidados intensivos – i.e., quem não tomasse cuidados para não se contagiar iria, uma vez doente, retirar recursos aos mais idosos e aos doentes crónicos. E, havendo necessidade de racionar quando a situação fica descontrolada, os tais recursos vão ser empregues nesses mais novos e saudáveis, deixando os mais velhos e os doentes crónicos à sua sorte.

Não se trata somente de uma doença que apressa a morte dos mais frágeis. O que tem também um grande peso a apressar-lhes a morte é o colapso dos hospitais trazido pelo descaso dos que defendem a vida como de costume e termina pondo uma excessiva parte da população doente.

Para minorar os efeitos de uma pandemia (os de saúde, porque quanto aos económicos estamos todos às aranhas e a apalpar terreno novo), os métodos que funcionaram são conhecidos. China, Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul, que já tiveram surtos de SARS ou de MERS, sabem bem, por lições amargas passadas, que procedimentos adotar. Distanciamento social, escolas e o maior número possível de empresas e serviços fechados, fronteiras fechadas ou controladas, uso de máscara, lavagem de mãos e desinfetante. Dois meses, aparentemente, chegam para conter este surto.

São estes métodos que protegem os mais velhos, os mais novos, os com mais maleitas e os com menos. Depois tratamos da economia, tanto mais que uma crise económica que não foi provocada por motivos intrínsecos aos fundamentos da conjuntura económica promete boas perspetivas de recuperação.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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