O coronavírus e a necessidade da solidariedade e do espírito de grupo

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Há muito que não sabemos ainda sobre o coronavírus COVID19 – que proporção da população irá contaminar, qual será a taxa de mortalidade afinal, como se transmite, se é sazonal ou não. Mas algumas lições já podemos tirar: mostrou sem dúvidas como as respostas a eventos de potencialidades catastróficas têm de ser coletivas, um esforço de todos, e têm de conter uma grande dose de solidariedade.

Já várias pessoas escreveram como a resposta chinesa ao coronavírus, sobretudo em Wuhan mas também noutras zonas em que a movimentação dos chineses foi muito reprimida, foi facilitada por se tratar de um estado ditatorial. Não concordo totalmente com a parte da ditadura. A resposta chinesa foi decisiva porque a China tem um estado central forte pelo menos desde 221 a.C., quando Qin Shi Huangdi unificou o país no primeiro império. Os chineses estão habituados a confiarem nos seus imperadores (e os imperadores do Partido Comunista Chinês continuam a ser imperadores) para lidarem com as inundações dos rios, construírem e cuidarem das obras de irrigação (num país dependente da agricultura para alimentar uma população volumosa desde sempre), remendarem os resultados dos terramotos.

Esta epidemia mostrou a necessidade de estados centrais funcionais e eficazes. Tal como numa guerra, tem de ser a autoridade central a coordenar as respostas dos vários organismos, a recolher informações, a alocar recursos, a distribuir pessoas, a tomar decisões como encerrar escolas e universidades, salas de espetáculos, restaurantes, impedir missas e encontros religiosos, apoiar economicamente quem (que somos todos) terá consequências negativas da epidemia, e um etc loooongo. E, se nos momentos cruzeiro os estados centrais atrapalham se demasiado gordos e interventivos, devem sempre manter as condições de se reanimarem e crescerem para as ocasiões.

Mas não incumbe só ao estado responder a ameaças destas. Fomos todos notificados. Lavar as mãos, usar desinfetante nos intervalos, não andarmos a passear nem às compras sem necessidade, permitir as pessoas trabalharem de casa, ficar em casa se existirem sintomas de constipações ou gripes ou se se chegou de viagem de um dos locais mais explosivos, como o Norte de Itália, não participar em grandes eventos sociais, evitar locais fechados, adiar viagens e deslocações, evitar transportes públicos, manter distância das outras pessoas. E temos a obrigação de tudo isto mesmo se não estamos nos grupos de risco – para melhor proteger de contágio as pessoas de risco: os mais velhos e os que têm outras doenças crónicas. Somos responsáveis por nós, mas também pelos que nos são próximos e pelos que não nos são próximos. É um desafio coletivo e todos somos chamados a fazer a nossa parte.

Outra lição que podemos tirar será esta dos benefícios do trabalho à distância a partir de casa. E esta lição poderá ser muito impactante para as mulheres – que são as mais sacrificadas com horários pouco flexíveis nas empresas. Poderá ser uma forma de as empresas começarem a aceitar que é normal uma mãe ou um pai ficar a trabalhar em casa se tem um filho doente – em vez de obrigar um deles a faltar ao trabalho e perder parte do ordenado, o que geralmente cai em cima das mães, com as consequências negativas profissionais que se conhecem.

Outra ainda: conseguimos todos ter os comportamentos que reduzem as emissões de carbono e nos trazem as alterações climáticas.

Os momentos charneira que chamam a totalidade da comunidade a participar têm esta mania irritante de mudar estruturalmente as sociedades. Geralmente para melhor. As guerras mundiais, com todo o sofrimento envolvido, trouxeram enormes melhorias à condição feminina. Também um sentimento de unidade em toda a sociedade, paradoxalmente acompanhado da exigência pelos mais esquecidos e desfavorecidos de políticas mais justas que os incluíssem.

Além de cumprirmos a obrigação de atrasarmos o ritmo de contágio do coronavírus pra nos protegermos a todos, temos de exigir ao estado que seja eficiente e pro ativo e, logo a seguir, agir para que as boas práticas aprendidas com a resposta ao coronavírus não se esboroem.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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