“Tudo é para ti!”

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Foto: Vídeo Oficial de "Aïcha" (Canção de 1996 de Khaled)

O Gender Social Norms Index (GSNI) é um índice criado pelas Nações Unidas para medir o quanto as crenças sociais obstruem (ou não) a igualdade entre géneros no trabalho, na educação, na política, nas relações enfim. Recolhe dados de 75 países, correspondentes a 80% da população mundial – porque há países mais povoados que outros.

Saíu agora fresquinho um novo relatório do GSNI, o que equivale a ser um relatório com o selo das Nações Unidas. A conclusão mais básica e sumarizada é esta: mais de 90% dos sujeitos inquiridos (homens e mulheres) demonstram sentimentos de preconceito em relação às mulheres. Ou seja, os homens em relação às mulheres e as mulheres em relação a todas as outras mulheres (porque estas cabeças naturalmente devem ter feito uma dissonância cognitiva, retirando-se do seu papel e transformando-se subitamente em julgadoras de “todas as outras, essas galdérias, menos eu que sou séria”, acção não incomum que se vê no teatro desta vida).

Noventa e um por cento dos homens e oitenta e seis por cento das mulheres demonstraram um nível claro de preconceitos em questões tão directas como: Os homens são ou não melhores líderes políticos que as mulheres? As mulheres têm ou não os mesmos direitos que os homens? A educação universitária é mais importante para um homem do que para uma mulher? Os homens têm mais direito ao exercício de uma profissão do que as mulheres? Os homens são melhores executivos de negócios do que as mulheres? Quem detém a autoridade quanto a direitos reprodutivos? Algum deles pode ter direito a exercer violência íntima sobre o parceiro?

Parecem – e são – questões de tão óbvia resposta para gente civilizada em sociedades que se dizem igualitárias. Estas sociedades em que vivemos que dizem que não vale a pena existir movimentos de luta pela igualdade de direitos das mulheres porque isso é conceito que há muito se alcançou. Estas sociedades em que se reclama que a liberdade feminina é um dado absolutamente adquirido, não vale a pena falar disso. Estas sociedades que dizem que as mulheres não só se protegem umas às outras, por fraternidade extensa numa espécie de fenómeno protector do género, como até têm um código de discriminação positiva. Afinal, parece que as ditas sociedades modernas e civilizadas andaram a vender-nos fake news. Talvez com a intenção que nos deixássemos de preocupar com este dilema? Talvez com a intenção que fossemos resvalando para a opinião diversa da tal falsa discriminação positiva? O certo é que este relatório demonstra o que as feministas (palavra que hoje quase se tornou insulto!) há muito vinham dizendo: as mulheres estão na mó de baixo. Aquilo que se pensa delas é pobre, preconceituoso e infeliz.

Por exemplo, metade das pessoas acredita que os homens são melhores líderes políticos, e 40% pensa que são também melhores nos negócios. Um espantoso (ou talvez não) 30% afirmou ser aceitável que um homem batesse numa mulher caso mantivessem um relacionamento amoroso.

Se é verdade que os homens ainda são os que têm maior preconceito em relação às mulheres, a verdade é que as mulheres perpetuam (e muito) esses mesmos preconceitos em relação ao seu próprio sexo, não ficando a estatística muito aquém da dos homens. Para piorar o quadro, os estereótipos de preconceito parecem estar a piorar (e não o inverso… ou seja, a sociedade é hoje mais cruel em relação à visão que tem das mulheres do que já foi!). Assim, os dados de 2004 eram mais promissores em relação a uma igualdade entre os sexos do que os dados de hoje em dia. Razões? Não sabemos. Mas suspeito que as tais “fake news” e uma “suposta sociedade igualitária” que nos vendem e que não temos de todo é capaz de ter contribuído para que, subitamente, tenha havido uns revoltados de plantão e umas revoltadas que lhes querem agradar como os responsáveis por uma rede maior de preconceito e desnível.

Nesta semana de Dia Internacional da Mulher, relembro sempre uma canção franco-algeriana da minha adolescência, em que um homem professa a sua grande paixão a uma mulher que ele considera distante como uma rainha e digna do mais rico e belo. Khaled, o cantor, oferece a Aïcha (nome de mulher e da canção) jóias, poemas, frutas raras, músicas, o sol, países, toda a sua vida. Ela responde: “Guarda os teus tesouros. Valho mais do que tudo isso. Grades são grades mesmo quando feitas de ouro. Quero os mesmos direitos que tu. E também [quero] respeito, em cada dia. Quero apenas amor.” Vinte  e cinco anos depois, Aïcha ainda é actual.

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