Gente Independente, Halldór Laxness

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“Não quero saber de tamanhos disparates, disse o pai. Não quero ouvir nada sobre um maldito mundo qualquer, pensas que estás a falar de algum mundo? O que é o mundo? Este é o mundo, o mundo está aqui, Casas de Verão, as minhas terras, é o mundo. E ainda que queiras engolir o Sol num momentâneo acesso de loucura porque estás a ver notas azuis da América, que evidentemente são falsas como toda e qualquer grande soma de dinheiro que cai nas mãos de um indivíduo sem que ele tenha trabalhado para tal, tu irás comprová-lo mais cedo ou mais tarde: Casas de Verão é o mundo, e nessa altura eu sei que irás pensar nas minhas palavras.”

Andei com este livro algum tempo, li-o em três fases, densamente e com calma. Mas custou-me deixar Bjartur de Casas de Verão, o herói islandês que tantos sorrisos me tirou. Laxness, mestre na arte de emprestar magia às suas histórias, conta a vida de um homem duro, rude e trabalhador, aparentemente distante e de sentimentos sólidos e indestrutíveis.

Viajamos ao início do século, a uma Islândia de agricultores pobres. E Bjartur, homem independente, resiste como pode – sozinho, sobrevivendo a duas das suas mulheres e à perda de filhos. Casas de Verão, lugar idílico isolado do mundo, assiste a um amor supremo do agricultor pelas suas ovelhas.

Ao longo da narrativa, Bjartur vai criticando os que desistem e fogem para a América, assiste à grande guerra dos países lá fora, à entrada do capitalismo num país pobre, de um sistema bancário e político que empresta dinheiro em condições enganosas, acabando por sugar o pouco que existe.

No meio de tanta eloquência, vamos sendo levados pelas tradições islandesas, pelas crenças da existência de um diabo à solta, pela poesia. Laxness vai enchendo o leitor de imagens poderosas, metáforas e descrições de arrebatar.

Bjartur resiste, luta, mantém-se fiel aos seus princípios. Um homem independente, contra tudo e todos.

Gente Independente é um romance da Cavalo de Ferro.

Sinopse:

Este romance de Laxness, Prémio Nobel de Literatura, tem lugar na Islândia, no início do século XX, numa sociedade de servidão e num país com uma natureza inclemente. É a saga de Bjartur, um homem obstinado, inquebrável e inesquecível.

Bjartur vive no limiar da auto-suficiência contando apenas com a sua obstinação e força interior, rejeitando qualquer caridade em nome da independência, valor levado ao extremo das suas consequências. Vive num vale com reputação de assombrado, só confia no seu reba­nho, no seu cão e no seu cavalo. Se alguém toca o seu coração é Ásta, a sua filha, mas tudo muda quando ela o desilude e magoa os seus enraizados princípios de honra.

A determinação de Bjartur e a luta pela independência são genui­namente heróicas. A sua história é épica e ao mesmo tempo trágica e bela, um romance que continua a comover gerações de leitores.

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Rodrigo Ferrão nasceu em 1983, é natural do Porto e frequentou o curso de Direito, mas virou a página e foi livreiro alguns anos. Rodeado de livros, dedicou-se à discussão literária através do mundo digital. Não totalmente realizado com o debate, decidiu escrever a sua própria poesia, seguindo-se de outras grafias. Gosta de ler, passear no campo e na cidade, escrever e viajar – não perde uma oportunidade para contar aquilo que vê. Sonha um dia largar o trabalho e ir por aí, divagando como pensa.

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