Amor: a redenção da mulher promíscua. Ou: um livro que só poderia ter sido escrito por um homem

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Uma das minhas batalhas é a necessidade de histórias e conteúdos nos media, nos livros e nas plataformas de filmes e séries sobre mulheres e por mulheres. Vivemos num mundo que nos inunda dos pontos de vista do que devem ser as mulheres, a moral sob que vivem as mulheres e as relações entre homens e mulheres – tudo partindo do ponto de vista masculino. Porque são sobretudo homens os argumentistas, realizadores e produtores de conteúdos. O que gera mais uma desigualdade: o mundo é contado segundo as lentes masculinas, para servir os interesses masculinos, abordando os temas preferidos da masculinidade, esquecendo os temas mais pertinentes para as mulheres, ignorando a visão do mundo do sexo mais pobre e com menos oportunidades, terraplanando as opiniões relacionais e sociais e políticas segundo as lentes femininas. É só mais um reforço de que o mundo é desenhado para os homens e as mulheres devem adaptar-se a um mundo que não considera as suas especificidades.

Dei há poucos dias com este texto que escrevi no blog Farmácia Central em 2011, sobre um livro que nos conta o romance e a cumplicidade entre Catarina, a Grande e Potemkin, o seu favorito. Um livro mais centrado nele que nela – havia lá de ser de outra forma – e com uma estranha defesa da moral de Catarina. Ora vejam:

 
Se algum dia (muito, muito, muito longínquo) me der para escrever as minhas memórias, estes meses do fim de 2010 e metade (pelo menos, tendo em atenção o ritmo de leitura) de 2011 será chamado ‘a minha fase russa’. Comecei pela leitura de Rites of Peace, The Fall of Napoleon and the Congress of Vienna, de Adam Zamoyski, por onde se passeavam o Csar Alexandre e vários oficiais russos e algumas senhoras de ascendência russa (sendo a a Princesa Bagration a mais notória). Passei para o Crimea de Orlando Figes, que nos informava sobre o irmão do Csar Alexandre e vários outros russos mais ou menos envolvidos na história da guerra da Crimeia, incluindo alguns já referidos na obra da frase anterior. Estou agora a ler Catherine the Great & Potemkin: The Imperial Love Affair, de Simon Sebag Montefiore. E tenho na estante para leitura breve Estaline, A Corte do Csar Vermelho e Young Stalin, do mesmo Simon Sebag Montefiore. (Isto, claro está, intermediado com um ou outro livrito com acção situada mais a sul ou mais a oriente, para arejar os olhos dos temas russos).

Chegando ao objectivo do post – que não, não é meramente dar-vos conta das minhas leituras – lê-se no Catherine & Potemkin (livro mais centrado em Potemkin do que na imperatriz) muito sobre os amantes de Catarina, a Grande, os seus ‘favoritos’ que se tornavam oficiais quando lhes era atribuido um determinado cargo de serviço à imperatriz. Os seus favoritos foram numerosos (entre os quais se contou Potemkim, ainda que este tivesse ficado eternamente favorito) e, anteriormente, houve amantes antes de enviuvar do Csar Pedro III. Mesmo tratando-se do sec. XVIII, quando o sexo era praticado com bastante casualidade pela aristocracia (vem à memória o romance epistolar Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos ou o casamento tardio de Charles James Fox com uma cortesã), Catherine terá tido uma vida sexual invulgar para uma rainha ou imperatriz. A páginas tantas Montefiore aponta a Catarina doze amantes durante a sua vida. E o engraçado (e é este o ponto do post, caso já se questionassem) é Montefiore defender Catarina colocando-a apaixonada por todos os seus amantes. Escusado é referir que semelhante exercício não se faria com nenhum monarca que tenha tido relações sexuais e/ou amorosas com doze (ou mais) mulheres, nem se faz com Potemkin, o possível consorte secreto da imperatriz. No entanto, não deixo de referir que ainda no sec. XXI se subentende que para as mulheres, ao contrário de para os homens, só o amor justifica/redime o sexo. E que seja o número de amantes o ponto que um autor de género masculino considere necessitar de explicar bem na personalidade de Catarina. Características da imperatriz que eu considero, essas sim, antipáticas (por exemplo a sua falta de amor para com os filhos, tendo até, na verdade, usurpado o trono do Csar Paulo durante vários anos) ou reveladoras de maior fragilidade emocional (o número de vezes que se apaixonou, noutro exemplo) são ignoradas. O importante mesmo para Montefiore é tornar claro que Catarina não era movida pelos seus apetites sexuais (cruz-credo), mas sim pelo seu coração (como qualquer boa mulher).

No resto, o livro recomenda-se.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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