Foi você que pediu uma defesa da violência no namoro?

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Ilustração de Emma, no livro A Carga Mental E Outras Desigualdades Invisíveis.

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No dia 14, dia dos namorados, uma mulher escreveu o tuite que está acima destas linhas. Segui com outro tuite na mesma sequência (aqui em baixo). Descreveu casos de comportamentos abusivos de namorados que, com trinta anos, já tinha vivido. E explicava que eram homens que viviam convencidos, e diziam-no, que a amavam. Terminava com a constatação de que mais importante que flores e bombons e outras presentes inócuos no 14 de fevereiro, a segurança é o mais importante numa relação.

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As respostas que recebeu no twitter foram de arrepiar. Houve solidariedade e carinho, claro, mas muita gente das cavernas que isentou de qualquer censura o comportamento dos namorados, ou que viram assuntos mais prementes do que violência de homens sobre uma mulher. Tivemos os que comentaram que quatro namorados para uma mulher de trinta anos era muito (que os grunhos do twitter são aparentados dos islâmicos mais conservadores e não convivem bem com a liberdade sexual feminina). Os que disseram que era mentira ou má interpretação. Os do argumento do costume: as mulheres também são agressoras (não se sabe por que razão, os homens que vivem com mulheres não morrem às dezenas nem vão parar aos hospitais aos milhares). Ela é que frequentava locais errados, bebia, algo de errado tem a vítima. Não aprovam os comportamentos dos namorados, MAS…

Os que julgaram que, perante uma denúncia impactante de violência no namoro, o mais importante era esclarecer que não se devia generalizar e que os homens não são todos agressores – algo que, de resto, não era dito em lado nenhum. Mas para estas almas o importante era manter a honra dos homens, não a solidariedade com uma mulher agredida. Porque, claro, os pequenos interesses dos homens valem sempre mais que os grandes interesses das mulheres. Porque para estas almas é mais grave uma imaginada injúria aos homens que violência real sobre uma mulher.

Ah, e que curioso que homens, que se afirmavam não agressores, se tenham sentido englobados na denúncia. Por que carga de água um homem não agressor se sente ofendido quando se fala de homens agressores? Quando se criticaram os católicos que explodiram o estúdio do Porta dos Fundos no Brasil, eu, católica, não me senti visada; como nada tenho a ver com aquilo, as críticas evidentemente não eram para mim. Desconfio que os homens que se sentem englobados quando se fala de homens abusivos afinal têm afinidades com os agressores, porventura seriam mesmo agressores nas circunstâncias certas.

Houve ainda, claro, a culpabilização da mulher que foi violentada. Ela é que escolhe homens assim, a responsabilidade é dela por fazer tais escolhas, ela precisa de psicoterapia, ela tem mau gosto em homens, ela tem um padrão de maus relacionamentos, enfim, a mulher é que tem a culpa de escolher homens agressores. Censurar os agressores é que népias. Afinal se uma mulher escolhe homens maus, a culpa é dela quando eles são maus, certo? E, além disso, nunca ninguém se enganou sobre o carácter de outras pessoas, pois não?

Enfim, deixo aqui os tuites de resposta mais canalhas. São claramente ódio à mulher que faz a denúncia – e desculpabilização e menorização da violência no namoro. E como esta questão só tem dois lados, o das vítimas e o dos agressores, se se ataca a vítima entra-se na apologia dos agressores. A vítima não tem nenhuma obrigação de fazer prova de perfeição ou castidade (era o que faltava) para merecer o estatuto de vítima. Tudo para não se assumir a generalidade deste tipo de comportamentos que homens têm sobre mulheres (as estatísticas de violência no namoro – e de visão complacente com essa violência – são horripilantes), nem se ter de ter a coragem de criticar comportamentos masculinos para com mulheres.

Tirei alguns que poderiam estar mal formulados e não serem tão agressivos e hostis quanto pareciam. Têm nomes e fotografias (pelo menos o que está no twitter), porque acredito que a cumplicidade com a violência sobre mulheres deve ser exposta e merecer censura social. Chamo a atenção que dentro dos tuítes odioso existem também alguns de mulheres (que vergonha). Curiosamente, estes tuítes que se pretendem moralistas e dar lições a uma mulher são ótimos exemplares do esgoto a céu aberto que por aí anda (pardon my french).

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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