Marega: lição de discriminação 101

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Imagem aqui: https://www.ojogo.pt/futebol/1a-liga/porto/noticias/sos-racismo-emite-comunicado-sobre-marega-decidiu-abandonar-com-toda-a-legitimidade-11830004.html

Deixo aqui algumas notas a propósito da retirada de Marega no jogo de ontem do Futebol Clube do Porto com o Vitória de Guimarães, porque as considero sintomáticas das reações discriminatórias, sejam elas racistas, machistas, homofóbicas, de ódio religioso, e um quilométrico etc.

1. A tentativa de colocar o escrutínio e a crítica na reação de Marega. Esta é a mais paradigmática, porque a mais costumeira. Faz-se um ataque racista, sexista, homofóbico, whatever, que, inevitavelmente, gera uma resposta. O que se faz de seguida? Mesmo que a resposta seja mais contida que, ou equivalente à, provocação agressora? Ignora-se a provocação, finge-se que a agressão inicial (motivada por racismo, sexismo, ódio religioso, transfobia, homofobia, o que seja) não aconteceu, para se rasgarem as vestes com os atos ou palavras da reação do alvo da agressão. Ah, que pessoa ingrata, descontrolada, como diz coisas assim dos seus semelhantes (uns anjinhos, todos) ou como tem atos que de forma tão evidente os desconsidera.

Por isso Marega é que – disseram os comentadores de futebol que, incrivelmente, ganham dinheiro para comentarem o que não percebem de todo – foi ‘emocional’, não quis ouvir os colegas que estavam a querer ‘conversar com ele’ (enquanto o tentavam manter em campo, em vez de se solidarizarem e saírem também), ‘precisava de se acalmar’, tão hostil que ‘empurra Alex Teles que estava a tentar conversar com ele’ (libertou-se sem agressividade dos braços de quem o queria impedir de sair), ‘o árbitro devia expulsá-lo’ e um ainda mais quilométrico etc. Os comentadores e jornalistas que relatavam o jogo foram um manancial de vergonha sem fim.

Mas, lá está, é comum. Assim, desvia-se o escrutínio e a crítica de quem os merece – os brancos racistas, os homens machistas, os heterossexuais homofóbicos,… – para os alvos do sexismo, machismo, homofobia,… Descontextualizam-se as respostas para se continuar a diabolizar e desumanizar negros, mulheres, LGBT e por aí em diante.

Acontece sempre. Lembremos o caso Nancy Pelosi de há poucos dias. Donald Trump, que como mais alto oficial está obrigado a um maior escrúpulo no cumprimento do respeito institucional e democrático, deixou Nancy Pelosi de mão estendida no discurso do Estado da Nação. E procedeu a usar um discurso institucional para mentir descaradamente e fazer campanha eleitoral. Mas o que causou indignação foi Pelosi rasgar as folhas do discurso de Trump como resposta à boçalidade e à mentira de Trump. Ele é homem e branco, ela é mulher. Ele provocou, ela respondeu (e bem). Donde: vamos todos colocar a crítica nela, porque ele, homem e branco, está acima da crítica (exceto se insultar outro da mesma casta superior, homem e branco).

Sempre. As denúncias do Me Too é que são exageradas e pidescas; o assédio laboral às mulheres coberto de impunidade, que explodiu o Me Too, não tem relevância nenhuma. Por exemplo. De resto é até frequente fazer-se a provocação racista e sexista para isto mesmo: gerar uma resposta e depois usar a reação – como se tivesse sido gerada do ar apenas pela maldade do negro, da mulher, do gay – para material para novos ataques.

É uma estratégia ordinária, que deve ser denunciada . O que há a censurar é a provocação inicial. Sair disto é entrar no esquema do racismo, sexismo, e por aí em diante.

2. Afinal não foi nada racismo. Então se os adeptos do Vitória de Guimarães não estavam com cartazes dizendo ‘somos racistas’ é por que não são racistas. Agora ninguém reconhece que é racista, machista, homofóbico, intolerante. Não, pelo contrário: odeiam o racismo, machismo, homofobia, etc. – garantem-nos. E com essa garantia estão a salvo para terem as tiradas racistas, machistas, homofóbicas todas que lhe apeteçam, podem insultar, podem perseguir, podem gozar, podem defender o estatuto secundário e desumanizado de grupos de pessoas que têm em comum o sexo, a orientação sexual, a cor da pele, o formato dos olhos,…

Racismo – e politicamente correto e marxismo cultural – é denunciar comportamentos racistas, chamar racistas a quem tem esses comportamentos e etc. Quem os tem, sem assumir que é racista, e até prometendo o contrário, evidentemente não é racista. Quem diz racista diz homofóbico, machista, um qualquer tipo de supremacista.

Donde, esta é a estratégia: negar sempre que se é racista, machista, homofóbico. Assim ninguém vai reparar que se é retintamente racista, machista, homofóbico – esperam. Em boa verdade, costuma acontecer que quanto mais se nega, mais se é. Como sempre, as auto declarações não valem nada: os gestos efetivos e as palavras correntes, sim, e é por isso que se deve avaliar.

3. Também é boa oportunidade para ficar muito escandalizado pelo racismo escancarado de chamar macaco – com sons ininterruptos dos adeptos – a um negro endinheirado e com visibilidade pública. Assim ficam cobertos para considerar justos, ou ignorar, os casos de violência policial sobre os negros pobres. Para partilhar o Notícias Viriato (que, claro, também se indignou por lhe chamarem ciganófobo) escrevendo que ciganos assassinaram o jovem negro de Bragança. Para gritar que os portugueses foram uns colonizadores compassivos. Para defender todas as políticas que mantenham a exclusão dos negros das universidades, da Assembleia da República e do poder autárquico, dos cargos profissionais que vão além das tarefas meniais. Para perder as estribeiras com os ativistas anti-racistas. (Estão a seguir o raciocínio, certo?)

O mesmo se passa com o machismo. Há grande revolta com a violência doméstica, claro, para a seguir se defender papeis tradicionais para os dois sexos. Fazer finca pé na recusa de encarar o problema, e menos ainda as soluções, para o gender wage gap – que é uma ótima maneira de promover a pobreza feminina e a dependência de maridos e companheiros abusivos. Esbracejar contra as quotas, na política e nas empresas, com uma idiota e falsa conversa sobre mérito, porque é vital manter as mulheres fora dos cargos de poder. Insultar e perseguir imparavelmente mulheres com visibilidade. E mais e mais e mais.

Portanto já sabem: aproveitem os casos limite para fazerem boa figura, e assim se sentirem à vontade para serem uns inglorious bastards no resto do tempo.

4. Ainda bem que temos pessoas (homens, por acaso) nas televisões e na rádio fazendo comentários sem qualquer noção do que têm à frente, sem valores que lhes mostrem que cânticos racistas é que são inaceitáveis, não a recusa de aceitar o racismo que lhe é exibido, sem vislumbrarem o significado dos eventos, pretendendo que Marega é que estava a criar uma confusão por assunto nenhum, omitindo os cânticos racistas que se ouviam. São pessoas super competentes e fantásticas e com imenso mérito. Ainda bem que são homens, porque pessoas tão incompetentes só sendo homens conseguem chegar aos cargos de visibilidade bem pagos.

5. Marega recusou as regras do jogo racista que lhe quiseram impor. É assim que se faz. Ignorar o racismo não é solução. Resistir estoicamente também não. Isso é aceitar que o racismo faz parte das regras do jogo (e o jogo não é o futebol). Não faz. Nunca se deve contemporizar com quem nos desumaniza. O jogo não deve ser jogado, deve ser subvertido.

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