“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”

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A sociedade actual vê-se em mãos com problemas com que não se deparava outrora.

Estamos menos solidários, mais desconfiados, temos pouquíssima disponibilidade, e estamos cada vez mais virados para o nosso pequeno mundo e problemas.

Começo por dar o exemplo daquela senhora que se esqueceu do passe social da filha de 8 anos e recusou-se a sair do autocarro tendo o motorista chamado os agentes de autoridade a intervir.

Não pretendo dissertar sobre a situação de violência em específico e muito menos culpabilizar qualquer uma das partes.

No entanto era noite, havia pelo menos uma criança no autocarro, o motorista não condescendeu, resultando que essa mulher fosse algemada com recurso a força à frente da sua filha de 8 anos.

Ninguém nesse autocarro se predispôs a pagar o bilhete dessa menina. Ninguém nesse autocarro e depois fora dele (enquanto filmavam) protegeu a menina da exposição à violência, gratuita ou não, não é isto que está em questão… mas ninguém o fez.

Muita gente está recordada daquele pai que sofreu de violência por outro agente de autoridade num jogo de futebol, mais uma vez reforço que não estou a julgar se houve gratuitidade na agressão. Mas comoveu-nos a prestação do outro agente que tentou proteger esse menino de uma mesma exposição à violência.

Duas situações análogas, mas numa criança era “negra” e na outra “branca”…

Não tenho legitimidade para afirmar se foi por racismo ou não… apenas reforço que eram duas crianças, ambas portuguesas, que deveriam ter sido protegidas pela nossa sociedade de uma exposição à violência (principalmente sobre os pais que amam).

Todos nós sabemos das elevadas estatísticas de violência doméstica neste País. Quantas crianças só no ano de 2019 ficaram órfãs, maioritariamente de suas mães…

O “chumbo” do estatuto de vítima do parlamento para crianças que testemunhem de violência é algo inenarrável de tão incompreensível, principalmente no contexto em que vivemos.

Crianças expostas à violência apresentam traumas semelhantes a “soldados de guerra”, são crianças partidas, que dificilmente vão crescer atingindo o seu máximo potencial, são crianças atrevo-me a dizer “mortas” por dentro…são crianças que precisam de toda a nossa ajuda.

Eu pergunto-me: enquanto sociedade, porque não intervimos com mais veemência face a situações que conhecemos de famílias em contexto de violência? Será porque tememos sofrer represálias, nós e os nossos?

Isto porque não consideramos que aquela criança, vítima, seja da nossa aldeia.

É comum os nossos Magistrados e representantes do Ministério Público, ainda que apresentadas fortes evidências de violência, continuarem a deixar ir muitas mulheres e crianças para o “matadouro”.

Que forma de punição existe perante os seus erros judiciais grosseiros que resultam em tragédia?

É do nosso conhecimento de juízes condenados pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que continuam a exercer, mudando apenas a Comarca. Outros nem isso.

Soubemos há pouco que essa mesma classe de juízes já aplica mão pesada quando são os próprios a sofrer de violência, como foi o caso daquela juíza no Tribunal de Família e Menores que foi arranhada por uma mãe.

Todos os dias surgem notícias de pessoas, mulheres e homens, que exercem violência sobre variadíssimas outras pessoas.

Se falarmos unicamente no contexto profissional, tem havido episódios frequentes de violência sobre profissionais de saúde, sobre professores e auxiliares educativos, sobre motoristas, sobre funcionários públicos, entre outros.

No entanto, face à hegemonia e supremacia dos Magistrados, ao que parece foi apenas essa mulher que arranhou a juíza que foi internada compulsivamente, tratada como incapaz, e presa. Já os outros quase sempre saem com penas suspensas…

Porque não mão pesada para todos os que exercem violência sobre qualquer uma das classes sociais, etnias, classes profissionais, etc? Porque não proteger as crianças destes contextos?

Aqui há uns anos circulou o vídeo de uma menina em duas situações distintas, com dois “outfits”, sozinha, no mesmo cenário, num espaço público.

Na primeira vez apareceu vestida como mendiga.

Na segunda vez estava limpa e de vestidinho deixando transparecer ser loira com olhos azuis.

O resultado foi que na primeira situação ninguém se dirigiu à menina, mas na segunda situação uma grande parte dos transeuntes lhe perguntava se estava perdida e precisava de ajuda.

Porque desconfiamos de uma menina sozinha, suja e esfarrapada?

Dando um exemplo a que assisti estando na sala de espera das urgências de pediatria de um Hospital Público.

Uma mãe de etnia cigana saiu “escoltada” pelo segurança até à saída, com a filha atrás dela.

Essa mãe estava aos gritos, a vociferar asneiras, enervadíssima pelo facto de não terem prescrito nada para a filha referindo que já lá tinha ido ao Hospital na semana passada com a menina e que ela continuava na mesma.

Claro que nenhum dos pais, incluindo eu própria podia sair da sala de espera para ajudar pois estávamos a aguardar a nossa vez das consultas dos próprios filhos doentes.

Mas e o segurança? E outros funcionários do Hospital? Porque ninguém tentou acalmar essa mãe? Porque ninguém ficou um tempo com a menina até que a mãe se acalmasse para depois saírem?

Sei também que nos meios mais populosos é comum haver vizinhos a fazer queixas pelo facto de não conseguirem dormir por ouvirem bebés a chorar a noite toda (pasme-se, bebés a chorar) …  No entanto, pouco comum é talvez esse mesmo tipo de vizinhos fazerem as respetivas denúncias do crime público de violência quando ouvem crianças a chorar por assistir às agressões sobre as suas mães.

Sigo um grupo onde uma mãe expôs um caso de um pai que deixou os filhos de 4 e 6 anos desacompanhados de um adulto responsável numa sala de cinema e se dirigiu para outra sala de cinema.

Essa mãe apercebeu-se e esteve sempre atenta aos meninos. Verificou que no intervalo continuaram sozinhos oferecendo-se para acompanhá-los no fim do filme de forma a se encontrarem com o pai, chamando os responsáveis do cinema.

O pai saiu mais de 20 minutos depois da sua sala de cinema.

Essa mãe tentou alertá-lo para o potencial perigo face ao abandono que tinha verificado. Foi destratada e ofendida pelo pai, em frente às crianças, que depois foi falar com os responsáveis do cinema.

Pouco depois viu-o a seguir no seu carro “topo de gama” com as crianças.

Quem não se lembra daqueles gémeos no Algarve de 3 anos, salvo erro, que foram encontrados de madrugada por um agente de autoridade num parque infantil perto da sua casa?

Acontece que os gémeos abriram a porta de casa e foram até lá e os progenitores, que tinham acabado de ser pais, não acordaram.

Pois bem, o que é que a “sociedade” fez? Retirou-lhes os filhos, e colocou-os em instituições separadas.

Confesso que não tenho mais desenvolvimentos sobre este caso, mas não vos parece notório que estes pais precisavam de ajuda e não que lhes retirassem os filhos?

Eles não abandonaram os filhos, simplesmente deixaram a porta destrancada e não acordaram…

Temos aldeias tão isoladas e segregadas…

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