E para onde devolvemos André Ventura?

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Já toda a gente sabe: em reação a uma proposta de Joacine Katar Moreira para o Orçamento de Estado para 2020, André Ventura escreveu no seu facebook: ‘Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem.’

Note-se o ‘deputada Joacine’, sem apelido, assim como se tratam as empregadas lá de casa.

E note-se ainda mais o ‘devolvida’ – a uma senhora que está na Assembleia da República a fazer propostas porque para isso foi eleita com votos de portugueses, que está a representar na AR. Joacine Katar Moreira tem legitimidade política inatacável para ser deputada à AR, e qualquer insulto que lhe façam de forma a tentar diminuir a importância que tem no Parlamento é um insulto que fazem a todos os cidadãos e eleitores portugueses que votaram em Joacine Katar Moreira.

E, por fim, o ignomioso e racista ‘ao seu país de origem’. Joacine Katar Moreira viveu quase toda a sua vida em Portugal, é portuguesa, teve um percurso académico notável (que chegou a um doutoramento), dedicou-se a um ativismo feminista ligado à condição da mulher negra em Portugal que é de aplaudir. Não é alguém que tenha vivido – de resto os imigrantes geralmente não são – de subsídios públicos para nada fazer, ou que não tenha enriquecido o país com a sua produção de conhecimento e ativismo.

Mas é negra, daí o ‘vai para a tua terra’.

André Ventura – num fim de semana em que teve um comício com saudações nazis lá no meio; depois de se saber que vários nazis foram promovidos nas estruturas do Chega – desmascarou-se, com este post no facebook, no racismo boçal que quer usar na política. É vital que lhe seja dada abundante censura social e política pelo que disse. É próprio de populistas degradarem o discurso a níveis subterrâneos. Lembremos-nos das ordinarices que Trump costuma proferir dirigindo-se aos seus opositores, e sobretudo às suas opositoras e ainda mais às suas opositoras negras. Partidos políticos decentes distanciam-se de tiradas racistas óbvias. Mesmo aqueles que há pouco tempo veneravam Ventura, sugeriam coligações, lhe copiavam os temas e o discurso, sem nunca terem reparado no que significava André Ventura.

Pelas redes sociais houve quem concordasse com Ventura – ninguém disse que Portugal não tinha numerosos boçais. E não tenho dúvida que, tal como nos Estados Unidos, se sintam satisfeitos por terem alguém no Parlamento que lhes represente isso mesmo – a boçalidade.

Houve quem, com desonestidade intelectual, argumentasse que a tirada de Ventura nada tinha a ver com racismo. É a falsidade do costume: retirar as palavras do contexto – apesar de ser aí que toda a gente as entende, como bem sabem – e uma vez que literalmente não se referiu uma raça, não há tirada racista. De resto, como se sabe, racista é Joacine Katar Moreira por denunciar o racismo (sim, há quem tente esta argumentação).

Por fim também se tentou equivaler a proposta de Joacine Katar Moreira à resposta racista de Ventura. O deputado da IL, por exemplo, no twitter.

Outros não equivaleram, mas, como não conseguem sair de mecanismos de ódio político, reputaram a proposta de Joacine Katar Moreira de tonta, radical, identitária.

Convém explicar que a proposta de JKM é tudo menos radical ou, sequer, surpreendente. É uma discussão internacional, e dentro de cada país, existente há vários anos à volta dos artefactos que os museus europeus têm e que foram retirados dos seus países de origem em alturas de pilhagem. Os mármores Elgin – parte dos mármores que estavam no Parténon na Acrópole de Atenas – que estão no British Museum, no Reino Unido, são porventura o mais famoso saque que o país que os produziu, a Grécia, quer de volta. Esta disputa foi de resto reacendida aquando dos resgates financeiros internacionais na Grécia, retomada com o Brexit, e não está resolvida. Pela minha parte, não tenho dúvidas: o Reino Unido deve devolver os mármores à Grécia.

Mas há muitos mais casos de disputas. Desde logo com o Egito, que também teve parte do seu património encaminhado para o Louvre ou para o BM no século XIX, com as campanhas napoleónicas e o protetorado britânico. E alguns países europeus, como França e Holanda, já devolveram algumas peças importantes aos seus países. Donde, esta é uma discussão existente, necessária, complexa, vários países reivindicam devoluções, a deputada Joacine Katar Moreira não inventou a roda, e quem julga que esta questão está resolvida e é um assunto de radicais, bom, não sabe bem o tempo em que vive nem de política internacional. Não sou partidária de pagar reparações por escravatura ou ocupação colonial aos países que colonizámos, mas o património que lhes foi pilhado é outra conversa.

Que estamos num país pouco informado e retrógrado que de cada vez que ouve falar num tema novo reage com escândalo e raiva – já era sabido. Mas a importação do nível do discurso de Trump por André Ventura foi, essa sim, uma inovação. Já tinham existido racismos encapotados, como o de Telmo Correia do CDS tentando ligar a deputada do Livre a críticas à bandeira nacional, tem existido o assédio online a JKM vindo da direita mais à direita que é claramente explorar o filão de maltratar a negra, porém o deputado do Chega clarificou cristalinamente o discurso. Pelo que devolvamos a sugestão de devolução a André Ventura.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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