Meghan Markle – é mulher (e negra), donde tem de pagar

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Imagem daqui: https://pagesix.com/2020/01/07/meghan-markle-shines-in-shades-of-brown-for-canada-house-visit/

Um dos aspetos sintomáticos da desvalorização das mulheres é a convicção de que, chegando a um determinado patamar de sucesso (financeiro, profissional, mediático, político, o que seja), as mulheres têm de pagar esse sucesso. Esta exigência de pagamento reveste-se de muitas formas.

Se a mulher tem família e uma profissão high profile, é-lhe exigida uma muito maior abdicação da família – porque qualquer referência familiar vai ser entendida como desinteresse pela carreira. A sociedade não parece conseguir conviver com mulheres que simultaneamente sejam profissionais de sucesso e tenham uma vida familiar numerosa, tal coisa é só prerrogativa masculina. Uma mulher com sucesso – de qualquer tipo – encontra uma barreira de antipatia na sua vida quotidiana que é perturbante. A inveja faz uma parte do serviço e o ressentimento a outra. E não, esta antipatia não vem só de mulheres, nem preferencialmente. Uma mulher que é bem sucedida cria anti corpos à velocidade da luz. A maledicência e as mentiras e as facadas pelas costas sucedem-se. A lealdade esboroa-se. Não se pode contar com nada que vá além do core mais apertado de confiança – mesmo nesses casos há surpresas. E, nestes dias de internet e redes sociais, as mulheres bem sucedidas levam com uma tremenda carga de abuso.

A razão não é bonita mas é simples. Não se reconhece às mulheres o direito aos lugares de sucesso. Pelo que, se lá estamos, somos umas usurpadoras. As mulheres não são seres dignos de receberem tantas benesses da vida (mesmo que tenham trabalhado para elas). Tanto que inevitavelmente se tenta logo a possibilidade de ter dormido com X, ou ser namorada ou amante de Y, para se ter obtido o cargo. Os cargos de sucesso são propriedade dos homens; se as mulheres os ocupam têm de pagar pela ousadia. Por outro lado, o lugar das mulheres é secundário e hierarquicamente inferior. Se as mulheres escapam a este padrão, têm de pagar – com mentiras, traições, abuso online, whatever – para que a sociedade lhes mostre que apesar do sucesso circunstancial continuam lá em baixo, secundárias. É uma forma de repor a ordem natural das coisas, já que dar vergastadas às mulheres insubmissas que andam pela rua, como se faz em alguns países islâmicos, já está mal visto, infelizmente.

As mulheres políticas são casos paradigmáticos disto. São claramente alvos a abater. São sempre fracas, incompetentes, nada carismáticas, as criaturas mais incapazes que a história universal conheceu, nem se entende como conseguiram alcançar o sucesso sem dormir com ninguém. O nível de abuso que recebem – corrosivo, personalizado, sexualizado – chega com facilidade a extremos doentios.

Meghan Markle é outro exemplo cristalino. Uma mulher, negra, americana, que os britânicos, carregados da sua convicção de civilização superior que colonizou o mundo quase inteiro, entenderam que não era suficientemente boa para viver numa situação tão privilegiada. Vai daí, foi abuso por todas as formas imagináveis, com tons claramente racistas, um alvo a atirar até quebrar. O que noutros casos foi visto com bonomia ou simpatia, no caso de Meghan era demonizado. Até passar a mão pela barriga enquanto grávida (algo que todas as mulheres fazem) foi objeto de bullying.

A questão racial não foi a única. A família sem dinheiro de onde vinha pesou – que os britânicos têm respeito pelo dinheiro, por muito que não o confessem. E ser americana. Não esqueçamos a tirada de Nancy Mitford em Love in a Cold Climate, reproduzindo as críticas que socialmente se faziam sobre Lady Montdore: que as suas origens eram ‘quite low or transatlantic’. Lord Halifax desprezava socialmemte Winston Churchill porque, apesar de neto de duque, tinha mãe americana. Mas obviamente a questão racial foi predominante. E é uma mulher, o que é sempre via aberta para o abuso. Tanto assim é um efeito partilhado que 72 deputadas britânicas enviaram uma carta aberta à Duquesa de Sussex numa demonstração de solidariedade face aos abusos da imprensa.

Pelo que esta retirada de Meghan e Harry foi importante e marcante de uma nova fase de resposta ao abuso online – cujos perpetradores supunham que seria sempre resignadamente tolerado, porque viver na Grã-Bretanha era tão irresistível que se estaria disposto a admitir tal nível de abuso para manter tão admirável benefício. É assim que funciona. Quem está no lado de receber abuso retira-se de onde é vilipendiada para onde seja glorificada, e contacta com as pessoas e continua a usar a sua voz sem o intermédio dos abusadores. É assim que se faz: as mulheres não aceitam nem toleram maus tratos e abuso como preço do sucesso ou da felicidade ou da carreira fulgurante ou do dinheiro ou do sexo ou da liberdade. Ponto. Não temos de pagar nada, muito obrigadas.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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