A Despedida, de Lulu Wang. Um delicioso mergulho na China.

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Tenho a certeza que não sou a típica espetadora para um filme como A Despedida, de Lulu Wang. A China é a minha área de especialização, fiz uma dissertação sobre histórias autobiográficas contadas por mulheres chinesas expatriadas nos Estados Unidos (Lulu Wang nasceu na China, foi viver para os Estados Unidos nos anos 1990 e conta no filme um pormenor autobiográfico e da história da sua família, onde até a sua tia-avó representa a sua própria personagem), li um bom número de livros e escrevi umas tantas linhas sobre a construção das identidades diaspóricas dos chineses. Tanto é assim que o debate que se seguiu à antestreia de A Despedida – adequadamente no Museu do Oriente – contou com Jorge Santos Alves, meu professor e orientador, e Tânia Ganito, que fez parte do meu júri na defesa de mestrado.

A Despedida apresenta-se como sendo baseado numa mentira real. Ficcionando e usando bem o humor, Lulu Wang conta a decisão da sua família paterna não contar a Nainai (avó paterna em chinês) que tinha um cancro de pulmão em estado avançado. (O título do filme em chinês é ‘Não lhe Contes’.) Em vez disso, decidem casar à pressa Hao Hao, o primo de Lulu (Billi no filme), à laia de desculpa para se encontrarem todos com a matriarca em Changchun para o casamento – e se despedirem dela desta forma. Billi e os pais viajam dos Estados Unidos para o nordeste da China, e a família do tio, também expatriada, regressa do Japão com a namorada japonesa de Hao Hao – de resto desesperado por ser obrigado àquele casamento.

Nainai comanda todos os preparativos, sem se saber doente, supondo que tem umas ‘sombras benignas no pulmão’. Pelo meio temos uma oposição bem disposta entre a cultura individualista americana e a cultura chinesa, mais coletivista. E não um coletivismo gerado pelo maoismo, antes a forma milenar como se entende que cada pessoa se dilui no coletivo, na família e na comunidade. As palavras do tio de Billi para defender a decisão de não contar a doença à mãe valem como uma aula de cultura da Ásia Oriental.

Também um dos jantares com toda a família alargada termina numa contraposição entre as aspirações dos habitantes dos Estados Unidos e os da China. A família americana defende que o dinheiro não é tudo, enquanto a parte chinesa valoriza a rapidez com que se consegue ganhar um milhão de dólares e quer, sobretudo, que o filho (único, rebento da política do filho único, gordinho, como a população chinesa de classe média que agora come a calórica fast food ocidental em vez da nutricionalmente mais saudável comida chinesa, e sempre colado ao smartphone) se torne rico.

Curiosamente (ou não), a família asiática-americana revela uma maior fidelidade aos valores do país que a acolheu. Lulu Wang insistiu em fazer um filme asiático, com atores asiáticos, sem o compromisso de por lá introduzir o elemento branco como alguns lhes sugeriram, foi filmado em Chuangchun (no bairro da sua avó, de resto), é quase todo falado em mandarim – contudo não é uma afronta aos Estados Unidos, não é uma crítica política ou sociológica sobre a forma como o país que os acolheu trata os imigrantes, ou sobre xenofobia. Pelo contrário, aquela família chinesa vê-se com naturalidade como parte dos Estados Unidos, nem concebendo sequer a possibilidade de alguém ver tal facto posto em causa – o que, pensando bem, também é bastante político de uma forma serena.

A história que conduz o filme (a tal mentira real em que foi baseada) e a conversa Este-Oeste são pontos fortes. Outro é a forma cândida e genuína como mostra algumas características dos chineses. É um filme que, sendo americano, também vem de dentro da China, porque o que nos oferece não é o olhar exterior e observador. Aí o filme é imbatível e cheio de pormenores que deleitam o conhecedor.

O lado acriançado dos chineses, visível nas trapalhadas e nas brincadeiras da festa do casamento.

A avó, mandona, que esteve no exército e provavelmente combateu os japoneses (os invasores da China entre 1937 e 1945), um claro produto da China comunista, vivendo na zona que foi o reino fantoche de Manchuguo, invadido e efetivamente governado pelos japoneses – sem surpresa desgostando abundantemente de Aiko, a noiva japonesa de Hao Hao.

A decoração das casas e do hotel (novo, mas já com o elevador avariado) – o sofá do quarto de Billi, forrado de um tecido dourado de fibra sintética, é paradigmático do gosto da nova classe média chinesa.

O dinheiro como elemento central na vida dos chineses. A prostituição que é endémica na China capitalista.

O culto dos antepassados e a cultura confuciana, visível na visita ao cemitério do marido de Nainai, onde se queimaram os bens que o avô precisaria no pós-vida (incluindo um iphone e um ipad de cartão).

A valorização da família alargada. A mãe de Billi, uma mãe tigre comme il faut: seca, pouco emotiva, exigente.

E mais, e mais.

Awkwafina ganhou um Globo de Ouro pela sua Billi, mas vi-a como uma personagem que é o menos interessante do filme. A prostração de Billi durante quase todo o filme é bastante inentendível – a doença da avó, a carta de rejeição de uma bolsa e as dificuldades de crescer numa família expatriada não convencem o espetador exigente. Mas este é só um pequeno pormenor no bolo delicioso de A Despedida, carregado de humor e ternurento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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