Trump, a arma de destruição em massa na Casa Branca

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Obama, durante a sua presidência, fez um acordo com o Irão que impedia o país de continuar as pesquisas e testes para o seu programa de armas nucleares. Apesar de o Irão ser um país muito pouco recomendável, governado por uma elite corrupta, ditatorial, sem qualquer respeito pelos direitos humanos (menos ainda os direitos das mulheres) e com política económica incompetente e cleptocrata, o acordo serviu para parar o caminho para as armas nucleares pretendido pelo Irão. E deu uma plataforma mínima de entendimento do Irão com os Estados Unidos e a União Europeia, que trazia algum equilíbrio na região entre as potências Irão e Arábia Saudita (que era o que o Irão também pretendia com a busca de armas nucleares, além, claro, da capacidade de fanfarronice ameaçadora com Israel e os países ocidentais).

Entra Trump, e claro que teve de desfazer, sem alternativa, o acordo nuclear entre os Estados Unidos e o Irão. A UE manteve a sua parte do acordo, mas claro que ficou manco. Seguiram-se sanções económicas ao Irão, as empresas europeias que vendiam ou prestavam serviços aos Estados Unidos foram também chantageadas com a obrigação de pararem de fazer negócios com o Irão. A situação económica degradou-se, a contestação e a repressão aumentaram, as provas de força do Irão face aos Estados Unidos foram-se avolumando.

Com as ameaças do fim do ano passado à embaixada americana em Bagdad, Trump mandou assassinar o general Suleimani, que era sem dúvida uma personagem mal cheirosa, tanto por fazer parte da elite de um país como o Irão como por se dedicar a organizar as black ops iranianas.

A grande motivação do assassinato terá sido, claro, agitar a base americana com uma demonstração de força do brutamontes Trump – nunca esquecer que o facto de Trump ser grunho e brutamontes é o seu maior élan para os seus imbecis apoiantes (neste momento só há imbecis apoiantes, que os inteligentes já desertaram). E gerar falatório para além do impeachment, que irá agora para o Senado – onde provavelmente terá um julgamento fantoche e ganhará, apesar de o apoio popular à destituição de Trump já ser maioritária. Ninguém supõe Trump capaz de decidir o que quer que seja com o filtro do interesse e segurança dos Estados Unidos, em vez de decidir para se servir a si próprio – que é o que tem feito em todos os momentos da sua presidência.

Não vou aqui fazer previsões sobre o que acontecerá, se os republicanos conseguirão conter Trump, se os iranianos retaliarão. A situação é tremendamente instável e insegura, e mesmo que não haja guerra deflagrada (o mais provável), ou que se previnam ataques iranianos com negociações diplomáticas, haverá sempre o custo da incerteza e da imprevisibilidade. Estes custos são avassaladores, e não só de agora com este ataque. Apesar da economia mundial estar com os fundamentais de boa saúde, Trump trouxe uma tal incerteza ao mundo, com as suas guerras comerciais, que as bolsas passam a vida em oscilações, os investimentos são repensados e cancelados porque a imprevisibilidade é demasiada, o crescimento económico por todo o lado ressente-se – incluindo nos Estados Unidos, cuja economia já esteve mais pujante. Há poucos meses os jornais do mundo todo questionavam-se se Trump conseguiria provocar uma crise económica só à conta da incerteza que produz no mundo. Agora, além das guerras comerciais, há a incerteza de uma possível guerra que envolve mesmo soldados e bombas. Os Estados Unidos – alegadamente não intervencionistas com Trump – já estão a enviar mais uns milhares de militares para o Médio Oriente, o Irão vai recomeçar o programa nuclear, o Iraque quer expulsar as forças americanas do país.

Além dos custos da incerteza, há ainda o outro grande dano trazido por Trump: a deterioração da praxis e das instituições democráticas americanas. Trump é um presidente que vai além do fio da navalha, desconsidera costumes instituídos (não revelar as suas declarações de impostos, por exemplo), usa a presidência para enriquecimento próprio (em numerosas ocasiões em que fez publicidade às suas propriedades ou usou o dinheiro da presidência para as melhorar ou com as receitas dos estrangeiros ou lobbyistas que que querem dar graxa ficando nos seus hotéis), legisla em benefício próprio (os cortes de impostos), não consegue negociar e trabalhar com os órgãos legislativos, obriga os que trabalham na administração a provas de lealdade pessoal, em vez de ao país e à instituição, obriga a acordos de non disclosure apesar de trabalharem com informações e política públicas, e entrega-se a todo o tipo de procedimentos que desafiam ou terraplanam as instituições que lhe controlam o poder. Trump é um autocrata. Quando Trump for corrido da presidência, sabe-se lá quando, que não é nada certo que perca em 2020, os danos à democracia americana já serão portentosos.

Este ataque ao Irão serviu para mais degradação da democracia. A política externa, com ameaças ao Irão, é conduzida via twitter, porque o único objetivo é a fanfarronice para a sua base. E já informou o Congresso de que iria retaliar a qualquer ataque iraniano (incluindo destruindo locais de importância cultural – faz lembrar os talibans destruindo os Budas de Bamyan) sem pedir a autorização ao dito Congresso. Que respondeu lembrando a Trump que não é um ditador. É mesmo bombardear as instituições e as leis americanas. E ainda que nada assim se processe – novamente – já houve o custo de se ter sequer aventado a possibilidade.

Trump é bem capaz de ser a força mais destrutiva que anda pelo mundo. E é sem dúvida o maior ataque às ideias democráticas liberais.

 

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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