Os segredos como assassinos da alma

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Eu fui educada para perder a voz. Para não contar aos vizinhos. Ainda hoje cada vez que me sento para escrever vem o mesmo medo. Medo de ser punida ou humilhada por falar do que penso ou sobretudo do que sinto, por contar a história. No entanto, ainda assim consigo fazê-lo.

Muitos como eu, foram educados para não ter voz. Porque a nossa voz seria a que falava da violência e a que contaria as histórias que não se podem contar. As  histórias pessoais de violência e loucura familiar. O bullying invisível. A loucura da normalidade.

Fui criada por um pai violento, do qual posso falar porque já morreu, e uma mãe da qual pouco falarei porque está viva, e os nós que as nossas vidas teceram são os da sua privacidade também. Talvez por isso tantas histórias importantes fiquem por contar. Por contenção de danos… só que não.

O meu pai era um abusador sexual. Era alcoólico, um homem que nos ameaçava de morte frequentemente e era também a pessoa mais carinhosa da minha infância. Raramente as coisas são simples.

Demorei 25 anos a compreender o que tinha acontecido. O meu pai não. O meu pai nunca. Achava que aquela mão estava ali, inadvertidamente. Morria de vergonha que ele percebesse onde estava a tocar. Achava que aquela respiração pesada era estranha, mas nunca tinha sequer beijado alguém, como podia perceber a causa?

E no entanto, aquela quebra violenta dos meus limites, o desconforto, a vergonha, transformaram-me. Mesmo se eu não sabia durante tantos anos o que tinha acontecido, o meu corpo sabia. E isso moldou a minha história.

Assim como não reconheci o abuso do meu pai, fui não reconhecendo os abusos menores de outros homens. O meu sinal de alarme tinha sido violentamente desligado para me permitir sobreviver. As pessoas diziam-me que sendo eu uma mulher inteligente, não  percebiam porque emburrecia no que dizia respeito aos namorados. Eu não emburrecia, congelava.

Algumas pessoas acham que não nos devemos expor nas redes sociais. As mesmas pessoas dizem que não ajudamos ninguém no facebook. Este é o mesmo princípio do silêncio. De silenciar as histórias e com isso sugerir que elas são vergonhosas e devem ficar escondidas. Não tenho nenhuma vergonha desta história. Com muita persistência, esforço e o privilégio de ter dinheiro para pagar ajuda recuperei a minha voz para a contar. É um prazer poder falar sobre ela, não para a exibir, mas para dizer que podemos falar das nossas histórias pessoais. Sem as nossas histórias pessoais, somos mistérios para os outros e para nós próprios. “Os segredos são os assassinos da alma.”(*) Contar faz parte do resgate da alma. O acordar daquela que sabe. Contar e ser ouvido é o primeiro passo da reparação. Só posso contar aqui, porque contei e fui ouvida antes. Porque fui ouvida, posso ouvir outros.

Ouvi muitas mulheres e alguns homens falarem dos abusos que sofreram e das razões porque não contaram. Faziam sentido. Na maioria dos casos o abusador era um familiar ou amigo da família, mas isto já se sabe. Ouvi uma mulher de 50 anos contar-me como fora abusada aos 5. Uma mulher casada. Perguntei-lhe se  o marido sabia. Não. Se alguém sabia. Não. Foram precisas só duas horas para me contar a sua história, mas 45 não chegaram para a contar à sua família, nem ao seu marido. Ouvi jovens exporem situações de abuso na infância pela depois de muitos anos de silêncio. Porque sentiram que iam ter credibilidade.

Maioritariamente não queremos ouvir. Ouvir significa confrontar-se com o agressor. Reconhecer que pode ser qualquer um. E o agressor é mais perigoso que a vítima. É mais fácil esconder. Olhar para o lado. Acusar de mentir.

O abuso nunca acaba. Mesmo quando o enfiamos debaixo do tapete. É um luto com que se pode aprender a viver mas que não se apaga. Um dia passa a fazer parte e quase não dói. Mas está lá. E essa cicatriz limita os movimentos. Faz doer em momentos chave. Há coisas que são extraordinariamente difíceis, como confiar realmente em alguém. Porque alguém importante não foi de confiança. Apenas 6.6% dos abusos na infância e adolescência são perpetrados por desconhecidos.

As teorias mudam a forma como pensamos, as histórias mudam a forma como sentimos. Contar e ouvir histórias é uma arte perdida. Contar faz parte do resgate da alma. O acordar daquela que sabe. Contar e ser ouvido é o primeiro passo da reparação. E duvido que haja ai alguém que não precise de reparação, de justiça, que não tenha histórias de que precisa apropriar-se.

E vem isto a propósito do chumbo do estatuto de vítima para as crianças que presenciem violência doméstica e dos juízes que só acreditam nas crianças quando choram.
“The universe is made of stories, not atoms.” – Muriel Rukeyser

(*) do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés

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