O que nos trouxe Greta Thunberg é bem bom.

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Greve climática, outubro de 2019, Lisboa.

escrevi sobre o antagonismo obsessivo que pessoas de meia idade devotam a Greta Thunberg. Não me vou repetir nas causas (bom, se calhar sim, vou mesmo replicá-las, lá mais em baixo). Porém queria gastar alguns minutos no argumento tonto de ‘devemos ouvir os cientistas, não uma miúda de dezasseis anos’, ‘ah, mas agora somos mandados pelas ideias de uma miúda’, ‘a Greta devia estar na escola, isto é conversa de adultos’.

Bom, não sei de vossas mercês, mas, do que esta vossa amiga reparou, Greta Thunberg não presume ter produzido ciência que dê resposta à forma como lidamos com as alterações climáticas. Diz mesmo que devemos dar ouvidos aos cientistas. Não estamos no ponto de sermos convidados a seguir os palpites para-científicos de Greta. O ativismo de Greta não trata de produzir propostas a que os adultos devem obedecer.

Não serve para nada, então, estas viagens? Claro que sim. O serviço que Greta Thunberg nos prestou foi insubstituível: inspirou os adolescentes a revoltarem-se e a manifestarem-se e a exigirem medidas que lhes salvem o futuro. E, atrás dos adolescentes, vêm os pais dos adolescentes e os jovens adultos. (Em boa verdade, Greta não interpela sobretudo quem não tem filhos e quem já está mais entradote na idade e não se preocupa tanto com o futuro.) A manifestação da greve climática em outubro, em Lisboa, onde estive com o meu filho de treze anos, era avassaladora de grande. Estudantes, milhares, pais de estudantes, pais com carrinhos de bebé. Há muitos anos que não participava em algo tão volumoso. E tão bonito e inspirador – por ser uma organização não política, não partidária, de gente que se junta por uma boa causa.

Ah, mas isto não serve de nada, que os cartazes são feitos em cartão (é reutilização de material, ó totós) e depois deixam o quarto desarrumado, os endiabrados adolescentes, e é tudo inútil.

Falso. É pressão política. Greta Thunberg tirou as alterações climáticas das conversas de cientistas e políticos, onde ninguém lhes ligava nenhuma, e colocou-as na cabeça e no coração dos eleitores. E, assim, os eleitores vão exigir aos eleitos que saiam dos gabinetes onde conversam com os cientistas, que proponham medidas, que as implementem. Os políticos não fazem nada sem a perceção de que serão punidos se não agirem, e foi isso que Greta nos trouxe: a pressão eleitoral e de cidadania que que espeta farpas nos políticos até produzirem trabalho concreto. O medo das massas que lhes tirarão o emprego se não oferecerem avanços naquele que se está a tornar um dos maiores assuntos eleitorais dos próximos anos.

Artigos científicos, cimeiras do clima só com políticos e organizações governamentais e não governamentais, notícias e reportagens em jornais – nada disto tem o poder de pressão das manifestações massivas, dos jovens a exigirem, da comunidade sublevada.

Greta não veio substituir-se aos cientistas: veio obrigar, juntamente com as multidões que tem inspirado, os políticos a ouvirem os cientistas.

E a importância que terá tido em alertar para a necessidade de mudança de comportamentos individuais, para versões mais sustentáveis e amigas do ambiente, desconfio que também não é de somenos.

Mas o disparate que se tem lido é tal que se chegou ao supremamente inteligente argumento ‘se a Greta está a fazer um folclore por causa do clima, é porque não há problema nenhum com as alterações climáticas’. Ou então que as manifestações contra as alterações climáticas – que, lamento informar, não continham bustos nem cartazes de culto do líder com as tranças de Greta Thunberg – levariam, sabe-se lá, os seguidores a irem viver e sucumbir numa comuna agrária. Os delírios são o limite.

Claro que há aqui preconceito. Greta é uma rapariga. As mulheres não podem andar por aí a dizer quando as massas se devem revoltar. Não é esse o papel atribuído. Não se pode atribuir credibilidade às mulheres – se não, onde iríamos parar?! E, claro, as mulheres com visibilidade têm de ser alvo de muito ódio, que é para aprenderem a não ter veleidades. Ah, e o ar zangado? Quem atura o ar zangado de Greta?! As mulheres devem estar caladas e sorridentes, não têm direito à zanga e à fúria. Enfim.

Como prometido, deixo umas linhas que escrevi no texto acima linkado, que dão também umas luzes sobre o antagonismo: ‘A absoluta incapacidade de discutir a mensagem em vez de escalpelizar o mensageiro. Bom, na verdade escrutina-se o mensageiro porque não se quer discutir a mensagem – é sempre o estratagema. Calha o assunto não ser de somenos. Mas não importa, porque antes extinguirmos a espécie humana, quiçá de forma agonizante, que perdermos uma oportunidade de fazermos figuras tristes à conta do fanatismo ideológico.’

Mais umas: ‘A irritação com Greta Thunberg também é a irritação com quem expõe a nossa preguiça, a nossa hipocrisia, a nossa cobardia, a nossa incapacidade de com paixão defendermos causas. As pessoas que não saem da sua inércia pelos demais que se ofendem quando outros têm essa energia e vocação. Os que estão imersos no egoísmo e odeiam quem faz mais que viver à volta do umbigo. Os medricas que não toleram os que arriscam e têm arrojo. No fundo, é a zanga de ver pessoas que lhes são muito melhores.’

Termino com novo ponto: a loucura anti Greta Thunberg também mostra como a política está atualmente alicerçada no ódio. Quem não se revê em Greta Thunberg podia passar à frente e contribuir para o combate às alterações climáticas à sua maneira. Mas não, tem de obsessivamente criticar e odiar Greta.

Enquanto isso os adolescentes e os jovens manifestam-se e cumprem o seu papel: assustar os políticos. Valha-nos isso.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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