António Araújo e seus amigos andam doidos?

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Esta semana foi-nos dado a ler um dos maiores snowflakismos e vitimizações e histeria sem fundamento que por cá foi publicada.

Recapitulemos.

Gauguin está neste momento a ser exibido na National Gallery de Londres. Digo mesmo mais: Gauguin está exposto num dos mais prestigiados museus de pintura do mundo e é visto por milhares de pessoas diariamente. Ora esta exposição high profile é, para António Araújo e sus muchachos (os que o aplaudem), um caso claro de doidice, ‘loucura’, tentativa de censura, ‘tirania justicialista das virtudes retroativas’, ‘correção política pós-colonial’.

Ora, poergunta o cidadão distraído, por que carga de água? É que apesar de Gauguin estar exposto num dos melhores museus do mundo, há pessoas que, em vez de ficarem caladas, usam a sua liberdade de expressão e discutem o próprio do Gauguin – como de resto se faz amiúde com os artistas, uma vez que a arte é uma criação profundamente subjetiva e inevitavelmente entranhada a ligação entre obra e artista. E como dizem coisas que António Araújo não gosta, tal discussão é ‘tese proibicionista e censória’ e ‘montada a tenda e armado o arraial, com graves acusações de pedofilia e racismo ao pintor francês’. As provas do crime? Um editorial do New York Times, a opinião de alguns curadores evidenciando desconsideração pessoal (não artística) por Gauguin e o facto de a própria exposição referir as ligações entre Gauguin e as adolescentes tahitianas que pintou (ou nem chegou a pintar) – isto enquanto a pulsão censória é tal que (já disse?) Gauguin está em exibição na National Gallery. (Certas pessoas necessitam de ir ao dicionário verificar o que é censura.)

Bom, é bastante evidente para pessoas não histéricas que ninguém está a proibir nem a censurar a exibição das obras de Gauguin. Ainda que possa haver pessoas que, fazendo uso da sua liberdade, decidam não ir a uma exposição de um homem que teve sexo com miúdas de 13 anos. O que é absolutamente inaceitável é que se tente – como Araújo e amigos – constranger a liberdade de expressão das pessoas e que se imponham tabus sobre assuntos. É certo que o texto de Araújo parece mais detergente de lavagem da prostituição e pedofilia, e diz bastantes enormidades, mas o principal que se retira é que, para certas almas, não se devia dar a informação de Gauguin ter tido sexo com adolescentes. Ou, dando, tal informação devia ser fornecida sem qualquer juízo de valor. Ou, pior, oferecendo paninhos quentes e explicando que, à época, tal comportamento era perfeitamente normal e aceitável (mentira, mas finjamos por cinco minutos). Ou que, calhando, por Gauguin ser um pintor de talento não se pode dizer nada sobre os abusos e maus tratos dele a mulheres.

Nem preciso de referir que esta argumentação – num mundo em que milhões de crianças e adolescentes são sexualmente abusados anualmente, ficando a esmagadora maioria dos crimes por punir – é ela própria criminosa. É um branqueamento desenvergonhado do abuso sexual de mulheres. Inventando que há censura (e mais umas tolices, tudo dito em tom estrepitoso) a Gauguin (não há, está exposto), é Araújo que pede que seja censurado o julgamento moral mais básico sobre o comportamento do artista. Araújo não aceita que se discutam comportamentos lesivos das mulheres. Temos de ficar calados.

Qualquer pessoa dotada de cérebro e decência entende que sim, podem exibir-se as obras, mas há a obrigação de dizer que os comportamentos de Gauguin foram vis e inaceitáveis. Não lembraria a ninguém objetar se numa exposição de um qualquer artista se referissem as suas ligações à escravatura. Mas, lá está, a escravatura é má. Abusos de mulheres são a vida de todos os dias e devem continuar assim.

Araújo no texto vai ao ponto de até tentar mostrar que Gauguin era, afinal, um tipo catita. Amava os polinésios e tudo. Nada racista. O texto é tão atroz que não se consegue rebater todo. Araújo simpatiza com quem entende, é lá com ele, mas que embarque em lavagens de prostituição, casamentos infantis e pedofilia, isso merece umas palavras.

A prostituição. Parece que é comum, dantes e agora, não há nada a fazer nem a dizer. Para António Araújo é simples. Como há homens dispostos a pagar por sexo com mulheres, o assunto está encerrado. O que interessa é o que querem e serve aos homens, e nada há a discutir além disso. Nem pensem em divagar para os custos brutais que vivem as mulheres prostituídas. Se os homens querem e pagam, oh meninas, está feito, calem-se lá.

Os casamentos infantis. Aqui qualquer leitor de Araújo pára e questiona-se se o historiador terá batido com a cabeça, e com bastante força, tal o amontoado de disparates que escreve. Araújo – aparentemente para mostrar como não há qualquer razão para nos repugnarem casamentos com meninas de 13 anos – elenca os países onde se praticam casamentos com meninas/crianças. Mais informa que a idade mínima de casamento é menor para raparigas que para rapazes. Donde, tira esta maravilhosa, assombrosa, verdadeiramente avassaladora conclusão: ‘olhando para o mundo de hoje, continua a existir muita e muita gente que casa e que tem sexo com meninas impúberes, sem que isso mereça grande escândalo entre os que agora desprezam Gauguin como “pedófilo arrogante”.’

Como diz?! Não merece grande escândalo?! Nunca terá o alegadamente culto Araújo reparado em fortes escândalos à conta de casos de abusos sexuais de menores?! Esteve distraído sempre que surgiam notícias de desmantelamento de redes de pedofilia ou, até, de pornografia infantil?! Aparentemente Araújo não se escandaliza com sexo com meninas de 13 anos, mas toda e qualquer alma que viva no mundo do século XXI é conhecedora do repúdio que a pedofilia e o abuso sexual de menores suscitam (ainda que sejam vergonhosamente pouco punidos). O mesmo para casamentos com crianças. Nunca terá lido Araújo nenhuma reportagem sobre casamentos com crianças nos países islâmicos mais conservadores?! É que há centenas. Não conhece Araújo os apoios que existem na Grã-Bretanha (por exemplo) às meninas que desconfiam que os pais as vão fazer viajar para os países de origem da família para as casarem à força com um velho endinheirado?!

Esta suposta normalidade e falta de escândalo com que se olha para os casamentos/sexo com crianças é tão absolutamente falsa que custa a acreditar que tenha sido escrita por alguém que não queira arruinar a reputação. Num país normal já dezenas de académicos lhe teriam caído em cima.

O sexo com adolescentes no Tahiti. Aqui António Araújo faz alguns (poucos) argumentos com sentido. De facto, os povos polinésios tinham uma vida sexual mais fluída, mais informal e que começava mais cedo que na Europa do século XIX. Esta diferença cultural ainda há poucos anos ficou escancarada no já famoso e infame caso de abusos sexuais da ilha de Pitcairn (de que li pela primeira vez numa noite sobre o Atlântico num voo para Nova Iorque aí pelo ano 2008) – a ilha onde se refugiou o grupo que se amutinou na Bounty. Deixo aqui um pequeno excerto de um texto de The Independent, que mostra bem como se via de forma diferente a sexualidade e o sexo com crianças entre as habitantes de Pitcairn e as ocidentais:

‘The women explained that underage sex was the norm on Pitcairn. Darralyn Griffiths, the daughter of one of the defendants, told us in a matter-of-fact way that she had lost her virginity at 13, “and I felt shit hot about it too. I felt like a big lady.” Others clamoured to make similar admissions. “I had it at 12, and I was shit hot too,” said Jay’s sister Meralda, a woman in her forties. Olive Christian described her youth, with evident nostalgia, as a time when “we all thought sex was like food on the table”.

We must have looked surprised. They were surprised we were surprised. Well, they demanded, at what age did we start having sex? It was clear, in this company and at this particular juncture, that the question could not be avoided. Some of our responses met with howls of derision; the women did not apparently believe that anyone could have lost their virginity at 18.’

Mas não, nem aqui António Araújo tem razão. Trouxe este caso de Pitcairn propositadamente: é que até nas ilhotas libidinosas do Pacífico já há quem questione a bondade de homens terem sexo com adolescentes novinhas ou pré-adolescentes. Porventura estão num estado civilizacional que Araújo e admiradores não alcançaram.

Por outro lado, a informalidade sexual da Polinésia não desculpa a forma traiçoeira como Gauguin dela se aproveitou. E, sobretudo, não justifica que se pretenda que numa exposição de um pintor adulto que teve sexo com meninas de treze anos não se evidencie que tal comportamento é mau, vil e impróprio de gente decente, sem qualquer desculpabilização. Lamentamos, mas as fantasias de homens ocidentais terem sexo com polinésias púberes não se sobrepõe à necessidade de repudiar sem tergiversar o abuso sexual de menores.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. É cronista do Público e escreve ocasionalmente ensaios sobre livros e leituras na Ler. Já foi blogger e cronista do Observador e Diário Económico. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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