Indeciso com os presentes de Natal? Sugerimos livros, livros e livros.

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Está ainda a pensar que presentes de Natal comprar para as pessoas importantes da sua vida? Veio ao sítio certo, então. Pedimos a alguns autores, amigos aqui da casa, para vos presentearem com umas palavras sobre os seus livros. Assim, temos obras de (a ordem é alfabética) Ana Saragoça, Dulce Garcia, Inês Moreira do Santos, Joana Eça de Queiroz, Nelson Nunes e Pedro Boucherie Mendes by themselves. E a mais três pessoas com ligações especiais aos livros. Susana Peralta apresentou A Carga Mental em Lisboa e, bem, para os outros dois consta a explicação no texto. Desfrutem. A seguir, claro, corram para a livraria mais próxima.

ana saragoça

Todos os Dias são Meus, de (e por) Ana Saragoça

Todos os Dias são Meus nasceu de um sonho, literalmente. Sonhei com um cão que vomitava ao andar de elevador. Daí surgiu um prédio lisboeta cujas características reuniam muitos traços dos que habitei até 2010, e um crime a ligar todos os moradores. O acaso levou-me, já depois de completar o livro, a habitar pela primeira vez um prédio não só com elevador, mas com um elevador muito semelhante ao que descrevera no livro, se bem que sem qualquer crime no currículo – nem, imagino, tórridas sessões de sexo.

Uma das personagens do livro recorda como era a vida num prédio noutros tempos. Nem ela nem eu poderíamos imaginar que Lisboa viria um dia a transformar-se numa espécie de LX Experience – todos os elementos de uma cidade sem a maçada dos seus habitantes.

O prédio de Todos os Dias são Meus está provavelmente transformado em hostel ou num ninho de AirBNBs. E, se alguém aparecer morto no elevador, vai ser muito mais complicado entrevistar os seus ocupantes. Entre o seu lançamento e o dia de hoje, o meu livro transformou-se numa peça vintage, portanto estará super in. Acho.

 

dulce

Quando Perdes Tudo não Tens Pressa de Ir a Lado Nenhum, de (e por) Dulce Garcia

Há na desgraça completa algo de belo e redentor. Costumo chamar-lhe a beleza do
estatelanço. Porque o fundo do fundo não permite outro caminho que não o regresso à
superfície. Este livro é sobre essa possibilidade de salvação, quando tudo parece perdido.
A educação é um processo de domesticação. Primeiro dentro da família, depois na escola,
mais tarde em círculos de amizade, relações profissionais e amorosas.

Há sempre alguém a querer mudar o pequeno animal selvagem que todos somos,
socorrendo-se das mais diversas estratégias e conceitos éticos e morais. Só isso garante que a chamada sociedade civilizada seja minimamente governável.

Vivemos metade da vida a tentar ser outro, num esforço para controlar os nossos
sentimentos e acções porque alguém – o nosso pai, o nosso professor, a nossa melhor
amiga – nos assegura que, no final, seremos melhores. Seremos mais gentis, mais
competentes e mais desejados.

O processo começa em casa. E a família pode causar danos irreparáveis. Essa entidade
que é suposto ensinar o valor do amor e da compaixão, do perdão e justiça, fomentando o sentido de pertença, é capaz de nos quebrar as duas pernas antes de nos atirarmos ao
caminho.

Às vezes – talvez na maioria das vezes – não nos aceitam como somos. E essa é a primeira
grande guerra das nossas vidas: lutar pela sobrevivência da pessoa que somos , quando à
nossa volta todos parecem querer alterar-nos. E então o amor romântico chega e as coisas tornam-se ainda mais complicadas.

Um casal é uma combinação de passados e de histórias, duas pessoas a tentarem dançar de forma sincronizada ao som de músicas distintas, quando não opostas.

A ideia de amor que nos vendem na literatura e no cinema é tão diferente da que subsiste na vida real que ambas as indústrias deviam ser levadas a tribunal e pagar-nos pesadas indemnizações por séculos de mentiras.

Existem poucas coisas tão perigosas quanto um coração partido. A frustração amorosa é o fósforo que reacende em nós emoções antigas, ocultas e sombrias. E a dor tem o potencial terrorista de uma mina.

Este romance é sobre uma mulher e um homem que caminham sobre o terreno minado de uma paixão inesperada. Quando se cruzam, partilham outros relacionamentos. Ao unir-se, terão de lidar com uma mulher rejeitada e uma criança que se torna uma arma de arremesso.

É também um livro sobre o medo da loucura. A boa notícia é que, quando ele existe,
significa que ainda nos resta alguma consciência do perigo que corremos. Só os
verdadeiramente loucos nada temem. Tal como os amantes.

Era uma vez uma mulher que vivia num aeroporto à espera de um homem…

P.S. – A história na qual este livro se baseia é verdadeira. Foi alvo de uma reportagem do
jornal El Mundo e passou-se no aeroporto das Canárias.

 

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Leonor e a Girafa Quieta, de (e por) Inês Moreira dos Santos

Leonor e a Girafa Quieta é um livro infantil que oferece uma visão simples e clara do que é ter um AVC e do que a sua recuperação implica. Todo o processo foi atravessado por mim, há 15 anos, quando tive um AVC. Um livro que encerra a história da luta de muitos portugueses, e dos seus familiares, contada de maneira muito simples para crianças. Uma girafa que teve um AVC, no dia de anos da Leonor, e durante a visita ao jardim zoológico com a sua família. Foi a própria Leonor que alertou para a quietude da girafa e chamou ajuda. Todos se unem em torno da girafa para ajudá-la a recuperar.

Escrito na maternidade, durante o pós-parto da minha primeira filha, pretende alertar todos para esta doença, e sobretudo os miúdos, que podem e devem ter atitudes preventivas. Pode acontecer a qualquer um, em qualquer idade e em qualquer altura.

A vida tem de ser o factor mais importante na mudança de hábitos. Um conto infantil que passa uma mensagem, escrito por quem viveu o drama de ter um AVC aos 19 anos e presenciou o que esse drama implicou para toda a sua família.

 

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Antologia de Ficção Especulativa Queer, com (e por) Joana Eça de Queiroz

O termo “ficção especulativa” é considerado pejorativo em certos círculos. A própria ficção especulativa (spec-fi, como é abreviada em inglês) chega a ser mal-vista por muitos em relação à ficção dita erudita, esquecendo-se que há grandes clássicos que pertencem ao género: não só obras mais óbvias, como o Dracula, de Bram Stoker, ou o Do Androids Dream of Electric Sheep, de Philip K. Dick, mas também O Mandarim do meu trisavô e grande parte da obra de José Saramago.

Devido à sua própria natureza transgressora do que era aceite como realista e facto de ser um género à parte, a spec-fi cedo se tornou um reduto para aqueles que estavam à margem do status quo se puderem ver a si próprios, e um meio privilegiado para a abordagem de temas a que hoje chamamos “diplomaticamente” de fracturantes. Quer de forma velada (nos X-Men o Professor Xavier representa Martin Luther King Jr. e o Magneto representa Malcolm X), quer abertamente: há 51 anos o primeiro beijo entre uma negra e um branco mostrado na televisão norte-americana aconteceu num episódio de Star Treck. E antes de serem tomadas pelos Mormons em Twilight, as histórias de vampiros eram férteis em personagens LGBTQ+.

São esses mesmos personagens que estão em falta na ficção especulativa portuguesa (A Confissão de Lúcio, de Mário Sá-Carneiro não chega) e assim, a Imaginauta, em conjunto com a esQrever, lançou um desafio a novos escritores da língua portuguesa.

A “Antologia de Ficção Especulativa Queer”, com prefácio de Pedro Carreira, membro da
direção da ILGA e fundador do esQrever, apresenta seis contos protagonizados por personagens LGBTQ+, que têm mais o que fazer em universos demasiados complicados, para se limitarem a serem clichés da telenovela da noite e está à venda no site da Imaginauta, na Wook, Bertrand, Fnac e em várias livrarias em todo o país.

 

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Preciosa, de (e por) Nelson Nunes

Este não é um romance como os outros. Partimos para a leitura sabendo de antemão que se trata de uma história real. Com nomes alterados, talvez com uma ou outra situação acrescentada para puros efeitos narrativos, mas a vasta maioria dos eventos descritos aconteceu ao longo dos anos 80 e 90 a uma mulher e ao seu filho.

Esmeralda é uma mulher provinda da aldeia para encontrar uma vida melhor na cidade, mas depressa descobre que o seu maior inimigo vive dentro das suas paredes. Casou com ele, teve um filho dele. Depois disso, o inferno. Agressões, roubos, violações. O filho não escapou: foi até agredido quando ainda mal tinha um ano, e mais tarde usado como joguete de chantagens. Depois disso, a única alternativa era a fuga. Mas o pesadelo não terminou – antes pelo contrário.

É um romance propositadamente cru, duro e sem os embelezamentos linguísticos que costumamos ler na ficção convencional. Porque não é bem um romance – é a descrição da vida combatida da mãe daquela criança que, anos depois, viria a ser o autor deste Preciosa.

 

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O Agosto do Desassossego, de (e por) Pedro Boucherie Mendes

Se o thriller ou crime novel for mesmo um género menor, ou pelo menos insuficiente, ainda assim muitos de nós têm-nos seus livros do coração. Um dia disseram-me que de um livro se espera que no mínimo nos ensine alguma coisa, até que Zurique não é a capital da Suíça ou que a invenção do fogão e do forno caseiros que ainda usamos foi um dos grandes atos feministas daquela era. Em O Agosto do Desassossego, usei alguns tropos de thrillers numa história que começa com um homem encontrado assassinado na estátua de Pessoa na Brasileira e que eu quis que fosse lida até ao fim. Por isso o recheio inclui mais vítimas, heróis relutantes, pessoas apaixonadas, pessoas estranhas, pessoas que se escondem, mistérios, conspirações, muita Lisboa e uma iminente nova tragédia no Chiado, 25 anos depois do grande fogo de 1988.

 

carga mental

A Carga Mental e Outras Desigualdades Invisíveis, de Emma, por Susana Peralta

Emma Clit é uma engenheira informática francesa, de 38 anos, que se dedica ao desenho quando tem tempo. Os seus desenhos, nas palavras da própria, “ne sont pas des choses jolies, mais des choses qui parlent”. Ema diz-nos ao que vem: não procura a perfeição artística, mas desenhos simples que transmitem uma mensagem forte.

Descobri Emma Clit há uns dois anos, quando recebi quase em simultâneo dois emails com um desenho da Emma em que uma mulher começa a arrumar os objetos que estão espalhados em cima de uma mesa e vai tropeçando pela casa em várias pequenas coisas que necessitam de intervenção: leva uma toalha para o cesto roupa suja, aproveita para por a máquina a lavar, depara-se com os legumes que ainda não estão no frigorífico, reparar que falta mostarda e junta a dita à lista de compras… o encadeamento de tarefas é tal que a arrumação da mesa acaba por demorar duas horas! Quando vi o desenho, tive a sensação estranha de que Emma tinha estado em minha casa na véspera para se inspirar. Curiosamente, recebi este email no mesmo dia de uma amiga minha que conhece o meu quotidiano de mãe de família numerosa e… do meu marido.

Penso que é a isto que Emma se refere com “des choses qui parlent”. O desenho dela falou-me, de forma muito direta. Todas nós revemos uma parte do nosso quotidiano em algum momento na leitura do livro. Digo todas, e não é gralha, porque é central na mensagem de Emma o peso que as mulheres carregam na vida familiar, no trabalho, nas violências várias. Mas os desenhos de Emma são também críticas contundentes à nossa sociedade, ao mundo do trabalho e ao capitalismo desumano que tomou conta das nossas vidas. Por isso, qualquer pessoa, independentemente do seu género ou orientação sexual, vai ver-se retratado na simplicidade trágica do quotidiano que Ema desenha.

E não é tudo, no capítulo das desigualdades invisíveis. Embora em Portugal seja ainda um assunto tabu, existe hoje um enorme interesse literário e editorial na anatomia e sexualidade feminina. O The Guardian, por exemplo, produziu uma série de mini-documentários sobre a vagina (Vagina Dispatches: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/series/vagina-dispatches). No livro “A Carga Mental e Outras Desigualdades Invisíveis”, há uma sequência fascinante sobre o parto. É uma interessante porta de entrada para os desenhos de Emma sobre as mulheres e o seu sexo, que incluem várias outras sequências imperdíveis, como a do clítoris, que esperamos ver brevemente traduzida em português.

 

Memórias póstumas brás

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1882), de Machado de Assis (1839 – 1908), por Teresa Pizarro Beleza

«Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa
lembrança estas memórias póstumas»

Quando, em Abril de 1994, fui internada na Maternidade Alfredo da
Costa, em Lisboa, levava comigo um livro. Presumi que a cesariana que me
esperava, sendo feita ‘acordada’ (anestesia epidural), me permitiria
distrair-me um pouco de eventuais complicações pelo método mais eficaz
que conheço: lendo.

Não sei por que razão escolhi um livro de Machado de Assis, nem porquê
aquele e não outro. Sabia que Machado de Assis fora um dos grandes
prosadores da língua portuguesa, lembrar-me-ia talvez do encantamento
ao ler «Dom Casmurro» e as avarias de Capitu… mas o que eu não sabia é
que este crioulo autodidacta de mãe açoriana tinha um sentido de humor
tão sofisticado e arguto, raiando o cáustico, muito mais evidente em Brás
Cubas que em D. Casmurro.

O problema era simples: queria rir-me e não podia, porque tinha uma
costura de fresco na barriga, por onde saíra um belo rapagão de 3kg 750g
e 51cm, cheio de cabelo «à Son-go-ku», que lhe fez ganhar a alcunha de
‘bebé chinês’. E algumas partes – o livro está dividido em breves capítulos,
com epígrafes sugestivas – são tão inteligentemente divertidas que uma
pessoa não pode deixar de se rir, mesmo se está em situação pouco
propícia.

Este livro não é apenas divertido, é uma finíssima apreciação crítica da
burguesia brasileira endinheirada e dos seus hábitos, no tempo do seu
Autor, em que a escravatura dos negros ainda é comum e legal. Mistura
eufemismos irónicos e alusões fantásticas – são memórias post mortem! –
que caracterizam o protagonista e as suas aventuras de vida de uma
forma cativante e extraordinariamente expressiva. «Há na alma deste
livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero…». O
morto que relata as suas memórias, incluindo caprichos, paixões, doença,
morte e funeral, conclui que, tendo falhado em várias frentes, pessoais e
profissionais, lhe restaria a glória da invenção do ‘emplastro Cubas’.

Há cenas que não esquecem, como a que celebra o delírio de felicidade de
um bibliófilo que encontra, fascinado, o exemplar único de um livro que
desconhece:
«Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o
por duzentos réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que
era um exemplar único… Único! … Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-
se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-
lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder.
Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro
devagar, com amor, aos goles… Um exemplar único!»
Só a forma precisa, inventiva, perspicaz, sublime com que esse entusiasmo
é descrito valeria a leitura desta obra-prima da literatura em língua
portuguesa.

 

yu hua cronicas vendedor

Crónica de Um Vendedor de Sangue, de Yu Hua, por Maria João Marques

Não escrevi o livro, não apresentei a edição da Relógio D’Água por cá (com grande perda para a editora, claro), não partilhei com o livro o nascimento de nenhum dos meus filhos. Em todo o caso, há um par de anos abracei assolapadamente Yu Hua quando o encontrei na Feira do Livro numa sessão de autógrafos, exigi (e tirei) selfie com ele, proclamei-me a maior fã portuguesa (não admito competição), quase me envolvi em cenas de violência física com umas chinesas que me queriam rapinar o meu exemplar e com os meliantes que tentavam passar-me à frente na fila dos autógrafos. Enfim, comportamentos perfeitamente normais quando se está cara a cara com um dos absolutos escritores preferidos. E que, julgo, me legitimam um bocadinho mais para escrever sobre Crónica de Um Vendedor de Sangue.

Crónica de Um Vendedor de Sangue é um livro arrepiante. Trata desse comércio comum na China que é a venda de sangue, forma recorrente das populações pobres ganharem um dinheiro extra. E das vicissitudes da vida e da turbulenta história chinesa do século XX que levam Xu Sanguan a precisar de vender sangue para se sustentar e à família.

Crónica de Um Vendedor de Sangue é também um livro carregado de humor (como todos os de Yu Hua). Apesar do comércio tenebroso, conseguimos alcançar umas gargalhadas com os sustos que Xu Sanguan apanha. Dou um exemplo: quando depois de ter vendido sangue e, logo de seguida, cometido adultério, outros colegas do comércio do sangue lhe afiançam que sexo após tirar sangue é morte garantida.

Crónica de Um Vendedor de Sangue é, por fim, um livro enternecedor que conta a história do amor de um homem, Xu Sanguan, pela sua família. Um amor que, literalmente, lhe suga o sangue. Perante os eventos dolorosos e trovejantes que o maoismo causou na vida dos chineses, mais as peculiaridades da família Xu, são os atos de bondade e de amor que redimem e permitem a sobrevivência (livre de azedume) aos involuntários participantes na História (e na vida).

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