NÓS DIZEMOS: ‘NÃO’ | Helena Ferro de Gouveia

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25 de novembro, Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra Mulheres

 

Ali estava ele, o homem perplexo. Ele disse “boazona” a uma adolescente. Ela esticou-lhe o dedo médio bem na cara. “Isso é crime”, disse ela. Ele soltou uma ameaça e um chorrilho de palavrões. O homem perplexo, habituado a estar no topo da cadeia alimentar, usa a boçalidade quando se sente “ameaçado”, incapaz de viver num mundo onde uma mulher não queira ser apalpada no metro, assediada na rua ou online. Não conheço uma única mulher da minha geração que não tenha sido importunada, assediada, incomodada com comentários de teor sexual em público ou vítima de algum tipo de abuso perpetrado por homens. Um homem, se ainda não o sabe, porque muitos já o sabem e praticam, terá que aprender a escutar melhor e não é assim tão difícil: um não é um inultrapassável limite. “Não”, vale para os estranhos, para os solteiros, para os casados, para os amigos, para os famosos e os anónimos. Vale quando tendo consentido a mulher decide mudar de ideias e parar. Não é não. “Ene”, “ah”, “oh”.

O autoconsentimento tácito do homem sobre a mulher, derivado de uma espécie de direito de nascença que vinha com o pénis acabou, assim como acabou o discurso “com aquele decote”, “ela no fundo queria”. Não, não queria. Dos desejos das mulheres sabem as mulheres e quando dizem não, é não. Os direitos das mulheres sobre o seu corpo continuam a ser atacados em 2019. Os direitos às suas mentes também, de formas mais subtis. O machismo tóxico continua a matar e não apenas mulheres.

“Um dia a mãe de Fuizinha amanheceu adormecida, morta. Os vizinhos tinham escutado a pancadaria na noite anterior. A mulher gritara, gritara, a Fuizinha também, também. Ouviu-se a voz do Fuinha: Agora silêncio. A mulher silenciou de vez”. A cena é de “Becos da Memória”, publicado em 2006 no Brasil, podia ser de “A mulher transparente”, de 2016, ou de “Preciosa” de 2019. É a história de milhares de mulheres em Portugal, milhões no mundo, e das suas famílias, que dia após dia lidam com o terror, o medo, a dor física e emocional. Todos os livros referidos contam a violência pelos olhos da vítima, o que é um exercício brutal. Mostrar uma imagem inteira da vítima, dos que sobrevivem e com isso aproximá-los dos leitores para que não possam ser ignorados e se tornem inescapáveis é fazer um delicado trapezismo na corda das emoções que a violência doméstica evoca. Num mundo em dissonância como o das vítimas de violência doméstica o silêncio esmaga. O medo, a vergonha, a humilhação, as cicatrizes da alma. Da literatura ao real: “Duas mulheres mortas em 24 horas. São já 29 as mortes por violência doméstica este ano. Em duas semanas, foram três as mulheres que morreram às mãos dos maridos ou ex-companheiros, num total de 23 desde Janeiro. Em 2018, foi noticiada a morte de 28 mulheres, mas os dados do RASI davam conta de 39 homicídios em contexto de violência doméstica”, noticia o jornal Público a 3 de Outubro de 2019. A 25 de Novembro são 33 as vítimas de violência doméstica, 25 mulheres e uma menina. Baleadas, estranguladas ou espancadas. Num dos países mais seguros do mundo, menos quando se é mulher. Em 15 anos são mais de 500 as mulheres assassinadas pelos companheiros, ex-companheiros, maridos, namorados.

Rosa Monteiro, a Secretária de Estado para Igualdade,  apela à denúncia  de um crime que é público “queremos que as vítimas se sintam confiantes para pedirem ajuda e que as pessoas, que têm conhecimento de situações de violência, se sintam interpeladas e não hesitem em denunciar. A denúncia, a procura de apoios e de informação são passos decisivos para encetar um processo de mudança e de superação, rompendo com ciclos de dúvida, medo e de sofrimento”. Mas não basta a denúncia ou o apoio às vítimas e sobreviventes que tem vindo a ser reforçado e merece um rasgado elogio, é preciso educar: não se pode continuar a culpabilizar ou a desconfiar das vítimas e ser tolerantes com comportamentos violentos.

Quem diz que é cada vez mais difícil ser homem quando as mulheres dizem não, está coberto de razão. É certamente difícil dividir o poder para quem dele detinha o monopólio, incluindo o de abusar, bater, humilhar. Deve ser difícil aceitar a conquista de espaços de poder e de fala pelas mulheres, apesar de todo o machismo ainda vigente e do constante “mansplaining”.

Mais do que nunca teremos que andar juntas, de mãos dadas, bem apertadas, também com os homens, capazes de escutar e de dialogar de igual para igual. Há muito para conquistar. Aquilo a que todas as mulheres e meninas têm direito: o respeito, o direito a viver sem ser agredida, violada, o direito a um salário igual, o direito a poder sair à rua sem medo, o direito a dizer não.

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Helena Ferro de Gouveia, Gestora e Consultora em Liderança

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