Todas as políticas são, e sempre foram, identitárias

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A política portuguesa anda em polvorosa com a política identitária. Com a chegada ao parlamento de uma deputada negra que foi eleita com uma agenda feminista e anti-racista (e ecologista e europeísta, mas estes epítetos são mais palatáveis para um país pouco habituado a novidades), a esquerda correu a discutir se a adoção de políticas identitárias seria ou não o fim da esquerda, com muitos afiançando que sim; de resto a briga não é nova, Nick Cohen argumentava mais ou menos o mesmo no livro What´s Left?. E a direita correu a repudiar as políticas identitárias como uma maluqueira que divide a sociedade, problemas minúsculos de citadinos com demasiado tempo livre na vida.

Percebo bem que as políticas identitárias assustem. Assustam porque têm um apelo inescapável, porque vão buscar simpatias à própria identidade das pessoas, à sua experiência pessoal, às vicissitudes que lhes construíram a personalidade e o sentido de si. Todas elas forças poderosas. De uma vez por todas devemos assumir que os eleitores querem ser representados por pessoas com quem se identifiquem de alguma forma, em quem se revejam, que acreditem tendo partilhado vivências que criam um elo entre eleito e eleitor. Há muito pouco, se alguma coisa, a fazer para combater isto.

Por outro lado, as políticas identitárias subvertem as alianças usuais até aqui, expressas mais ou menos nas várias linhas partidárias. De facto, não é ter mais ou menos dinheiro que evita que as mulheres sejam vítimas de crimes sexuais, ou que as protege contra a violência doméstica. E isso é uma ligação – o sentimento de vulnerabilidade a estas realidades que perpassa a todas – que pode ser, e muitas vezes é, mais forte que qualquer simpatia partidária ou de classe social. Todas as mulheres têm em cima histórias de discriminação (percebam-nas ou não), vivam mais ou menos acima na pirâmide social. Claro que ao fator de discriminação sexo se pode acrescentar o fator de discriminação pobreza, tornando as mulheres pobres mais vulneráveis ainda. E a pobreza pode gerar outras alianças. E muitos homens, à direita e à esquerda, estão interessados em garantir que afinal a discriminação económica é a que conta, em exclusivo. Só que, lá está, quem combate a discriminação económica tradicionalmente está mais interessado na sua agenda (a que resolve os problemas sentidos pelos homens pobres) que em defender os direitos (incluindo à integridade física e autodeterminação sexual) e as oportunidades das mulheres pobres.

Qualquer negro em Portugal é alvo de racismo, mesmo que seja endinheirado e frequente a universidade. Os gays e as lésbicas continuam sendo olhados de lado, gozados, os miúdos e as miúdas os destinatários preferenciais de bullying nas escolas. Não vejo bem como um gay pobre operário fabril tenha ímpetos de votar no PCP, o partido que, além de almejar representar o voto proletário, tem membros que espancam gays aos beijos na festa do Avante. Da mesma forma que não vislumbro que uma mulher, por muito upper class que seja, que já tenha sido vítima de violência sexual, ou em perigo disso, ou sofrido assédios vários, ou que não guarde castidade fora de situações de casamento, vá votar numa direita extremamente conservadora que promove os interesses económicos das elites – mas garante que assédio sexual é problema inexistente, a ausência de consentimento não implica que exista violação ou promova a inexistência de educação sexual nas escolas (a ver se as vagabundas que têm sexo sem estarem casadas engravidam, que é bem feito).

As novas políticas identitárias existem, e prosperam, precisamente porque há pontos comuns em pessoas de diversas classes e proveniências – que, não sendo os problemas dos homens brancos, nunca foram contemplados com a devida importância nos manifestos políticos. E, em boa verdade, a alergia às políticas identitárias também tem muito de pânico por se estar a tirar protagonismo aos do costume – homens brancos heterossexuais (de qualquer estrato social) – e aos seus problemas de eleição, dando visibilidade agora a quem não a tinha e às necessidades, em termos de políticas públicas, destes até agora invisíveis.

Mas aqui chegados, aproveitemos para lembrar que políticas identitárias há muitas. A nova direita tem uma forte identidade branca, masculina (anda muito perto dos ridículos que defendem os direitos dos homens – como se não estivessem a ser defendidos há séculos pelos políticos homens), heterossexual. Propõem também uma identidade cristã, mesmo aqueles que são ateus ou absolutamente avessos a qualquer noção de fé católica ou de prática de caridade cristã (de resto a nova direita embate fortemente contra os valores cristãos). E o que são o nacionalismo e o regionalismo se não políticas identitárias? Ou os sentimentos de classe – tanto de classe operária do PCP como da elite que vem de antes do 25 de abril do CDS? Ou mesmo o republicanismo de boas famílias do PS? A ligação entre política e futebol – por que julgam que existe, se não porque o clubismo é também um identitarismo? Até que ponto o ambientalismo não é uma política identitária dos mais novos – que protestam e contestam pela sobrevivência?

As políticas identitárias não são nada de novo. Simplesmente são novas políticas identitárias que competem com as antigas políticas identitárias.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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