Como matar uma mulher e não ser condenado

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Os misóginos que sonham em assassinar uma mulher mas têm medo de ir parar à prisão devem estar felizes. Alguns “homens” descobriram uma solução que lhes permitirá realizar essa fantasia e escapar impunemente, sem pena de prisão e sem correr o risco de serem violados por outros reclusos. E – cereja em cima do bolo – ainda conseguirão violar a mulher antes de a matar e ninguém saberá.

Existem alguns limites a esta solução: a morte só poderá ser por asfixia. O misógino não poderá por isso esfaqueá-la ou usar uma arma de fogo. Mas pode, por exemplo, usar cordas, um cinto ou outros instrumentos de asfixia que a sua imaginação de homicida cruel descubra.

O assassino só terá de decorar bem a sua defesa: tudo não passou de um “jogo sexual que foi longe demais”. Terá de repetir isto até à exaustão, porque são estas palavrinhas mágicas que assegurarão a sua liberdade. Terá de convencer o colectivo de juízes que a excitação sexual era tanta naquele quarto, que a vontade de atingir um clímax estrelar a dois levou a vítima a implorar que lhe apertasse o pescoço, mais e mais, com mais força. Só depois desse orgasmo – conjunto, como é óbvio – é que o homicida percebeu que ela já não abria os olhos e não era por ainda estar num estadio de prazer sobrenatural.

A seguir o coitado terá de chorar muito – baba e ranho dão pontos adicionais – e descrever o pesadelo em que vive desde esse momento. Não lhe deverá ser muito difícil…vários homens têm uma capacidade única em revirar factos e passarem de agressor a vítima em poucos segundos. Afinal ele não conhecia a sua força nem nunca tinha experimentado bondage, limitou-se a seguir as instruções da vítima – uma experiente e quilometrada sedutora, viciada em sexo – com o objectivo de aumentar o prazer sexual dela, que era o seu único foco. A verdadeira vítima foi o infeliz que agora terá de viver com o trauma desses momentos de horror e de ter perdido a mulher da sua vida. A culpa e saudade eternas serão a sua prisão, dirá ele quando o juíz lhe perguntar se deseja prestar declarações finais. Se cumprir estas instruções de forma sufrível, é quase garantido que será absolvido. Quem não acredita só terá de analisar estes exemplos recentes:

Este homem violou e asfixiou com uma corda a sua própria prima, tendo depois adormecido na cama dela, por debaixo do cadáver da mulher, que pendia do tecto. Foi absolvido.

Esta mulher britânica foi morta na Suíça pelo seu namorado que usou a mesma defesa. Estavam alojados num hotel, às 3 da manhã discutiram e gritaram ao ponto de outros hóspedes se terem queixado, e às 6 da manhã ele desce nervosamente à recepção dizendo que ela não respira depois de um “jogo erótico”. O assassino aguarda julgamento, a polícia ainda investiga se o homicídio terá sido intencional ou “acidental”.

O caso mais recente é o desta jovem mulher que foi assassinada na Austrália. O assassino viu filmes pornográficos violentos depois de a matar, fotografou-a provavelmente post-mortem, escondeu o seu corpo numa mala e desfez-se dele mas ainda assim alega que foi ela quem lhe pediu para a estrangular, num acto erótico que “acabou mal”. Até o procurador parece estar do lado do assassino ao dizer que “só duas pessoas sabem o que se passou verdadeiramente naquela noite, e uma delas está morta”. Não é difícil aferir o que se passou naquela noite, as provas parecem ser de peso. Aguarda-se o desfecho do julgamento.

57 mulheres foram assassinadas no Reino Unido, por 57 homens que alegaram o mesmo “jogo sexual que foi longe demais” como estratégia de defesa. Embora 38 destes tenham sido acusados e condenados, 19 homens escaparam da acusação de homicídio, e 5 não foram acusados de qualquer crime.

Os femicídios estão a ser reduzidos a um simples “jogo” e há assassinos que ficam em liberdade usando essa desculpa.

Mas as feministas estão atentas. Este site, com o nome frontal Não podemos consentir a isto compila os femicídios no Reino Unido onde os assassinos tentaram escapar à justiça usando a defesa do jogo erótico que “correu mal”. Reportam que 45% dos homicidas que invocaram esta defesa receberam penas mais leves ou foram absolvidos.

Não podemos fechar os olhos ao principal factor por detrás destes crimes e desta defesa – a pornografia. Há várias décadas que se estuda os efeitos preversos do consumo de pornografia que fomenta directamente a agressão sexual e violência contra mulheres e crianças.

Este estudo provou que quanto mais pornografia um homem consome, maior tendência terá para a usar durante o sexo, para exigir determinados actos pornográficos do seu parceiro, para evocar imagens pornográficas por forma a manter a erecção e para ter mais inseguranças sobre a sua performance sexual e aparência física. O consumo de pornografia está negativemente correlacionado com o prazer sexual e nível de intimidade sexual com o parceiro.  O que não supreende já que só necessita de aumentar artificialmente o prazer sexual através de, por exemplo, estrangulamento do parceiro, quem sofre de disfunção sexual e tem dificuldade em manter ou prolongar a erecção.

A pornografia é uma questão de saúde pública. É o principal factor por detrás do aumento das taxas de violência contra mulheres. É também responsável pelo aumento em 70% dos casos de abuso sexual de menores que chegam aos hospitais e pelo aumento de 80% dos casos de abuso sexual de menores perpetrados por menores. Está na altura de levarmos a sério esta epidemia e de começar a reagir, caso contrário mais mulheres e crianças serão violadas e mortas e mais assassinos escaparão em liberdade.

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