Assédio online: a tentativa de expulsar as mulheres do espaço público

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Ontem vi um texto do New York Times dando conta da decisão de várias mulheres atualmente membros do parlamento britânico de não se recandidatarem nas eleições que se avizinham. O motivo? O abuso constante e massivo que recebem, inclusive online. ‘Sexually charged rhetoric has been prevalent in the online abuse of female MPs, with threats to rape us and referring to us by our genitalia’, assim descreve o que se tem passado Caroline Spelman, conservadora que não se recanditará depois de 22 anos no parlamento. ‘Nobody in any job should have to put up with threats, aggressive emails, being shouted at in the street, sworn at on social media, nor have to install panic alarms at home’, refere outra deputada que também não se recandidata.

A maior recetora de ataques, como consta num relatório da Amnistia Internacional sobre as eleições de 2017, foi Dianne Abbott, a primeira deputada negra do parlamento britânico. Qualquer semelhança com a avalanche de ódio e de abuso online que Joacine Katar Moreira tem recebido desde que foi eleita não é pura coincidência.

O abuso dirigido às mulheres com participação pública, seja política seja mediática – e dirigido em maior volume que aos homens, com conteúdo sempre mais pessoalizado e frequentemente sexualizado – não é uma ocorrência inocente que acontece por acaso. De resto nem se trata de assédio feito por questões políticas. Do que observo, qualquer observação que possa ser distorcida ou interpretada com má fé é aproveitada. Uma qualquer piada sem especial significado. Uma opinião inócua sobre assuntos correntes. Às vezes declarações sobre realidades de que é relevante opinar – nos últimos dias vi o twitter enlouquecer por Joacine Katar Moreira falar da ligação entre masculinidade tóxica e extrema direita (mais que estabelecida; já aqui defendi que o sexismo está no core mais íntimo das novas alt rights) e de ódio online (como se um político não tivesse obrigação de falar sobre este assunto que é tudo menos de somenos). À falta de material, inventa-se: memes com frases inventadas, tuits falsos, a via láctea é o limite.

A isto junta-se uma vigilância permanente e paranóica do que as mulheres escrevem e dizem (e vestem e com quem interagem). Os comentários incessantes a cada gesto ou palavra, a despropósito, descompensadamente, descontroladamente, desproporcionadamente. O ambiente que criam – e querem criar – é o de cerco e de punição por se falar.

Como disse, não acontece por acaso. O objetivo é o da notícia: convencer as mulheres a saírem do debate público e a regressarem à esfera privada. Como já não se pode impedir que as mulheres tenham acesso ao debate público (ainda que menos representadas que os homens), e fica mal assumir que se quer expulsar as mulheres do espaço público e de visibilidade, e que não se toleram mulheres com voz própria (que assumir estas coisas seria passarem um auto atestado de grunhismo e misógina, e os militantes de ambas sabem bem de mais já não declarar ao que vêm e o que são) , o estratagema é atirar-lhes lama incessantemente até as mulheres quebrarem e desistirem. Para reservar à força (da lama) o espaço público todo para os homens e, de seguida, argumentarem que as mulheres não estão lá porque não querem, estão a ver?, é uma consequência das diferenças biológicas a preferência das mulheres por estarem caladas em público.

Já aconteceram outros casos. O de Katie Hill, recentemente. A congressista demitiu-se depois de começarem a circular fotografias consigo nua durante um encontro sexual (divulgadas pelo ex marido como vingança). Muitas outras terão desistido sequer de se candidatar. Por cá, Joacine Katar Moreira leva em dobro por ser mulher e negra – que, já se viu, é a regra das sociedades racistas e machistas – mas não sucede só com a nova deputada do Livre – todas as políticas que saiam do estereótipo mulher cala e discreta levam com abuso online – nem só com políticas. Qualquer mulher com mediatismo que desafie a visão tradicional de uma mulher sossegada a deixar os homens fazerem as suas guerras por ela é alvo de abuso.

E, enquanto não nos expulsam, os abusadores online mesmo assim vão tendo vitórias. Porque qualquer contributo de uma mulher é afogado no meio de insultos, insanidades, boçalidades. Fazem-nos perder tempo a defender-nos, que é tempo e energia que deixamos de ter para apresentarmos os nossos pontos de vista nos assuntos que realmente contam. De algum modo conseguem abafar um pouco a nossa voz. Que é o objetivo.

Em conclusão: quem participa nisto, ou apoia, relativiza ou olha para o lado – em vez de censurar fortemente quem a despropósito cria ruído consistentemente, vigia paranoicamente, insulta, mente – está a agir militantemente para expulsar as mulheres do espaço público. Ficamos a saber.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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