Trump a destruir a democracia americana

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Quando Donald Trump foi eleito – e tudo o que a toranja radioativa veio a ser como presidente estava plasmado à vista de toda a gente enquanto foi candidato – um dos argumentários usados pelos seus apoiantes (sobretudo os que não se assumiam como apoiantes, mas justificavam todas as ações, elogiavam aqui e ali, criticavam os opositores e estavam claramente deliciados com a sova que Trump tinha dado na mulher que ousava querer ser presidente) andava nesta linha: o partido republicano e as instituições americanas vão conter e domar Trump. Eu dizia que não, que o perigo de personagens políticas como Trump é o de estarem sempre a contestar os limites que lhe são impostos, desgastarem as instituições, agirem amoralmente no fio da navalha da lei (ou à revelia da lei) e afrontando os costumes éticos voluntariamente aceites pelos detentores de altos cargos.

Não digo isto para demonstrar a minha genialidade na razão. Em boa verdade era muito evidente. Só quem queria racionalizar e encontrar desculpa para não condenar a sarjeta que a presidência americana se veio a tornar é que pretendia não ver.

E assim foi. Trump deu cabo de todos os costumes da atividade presidencial que a tornavam mais transparente, mais escrutinável. A mentira de Trump e dos porta-voz para a imprensa é constante. Factos alternativos, desonestidades escancaradas, tentativas de reescrever a realidade que toda a gente conhece, falsidades na hora de dar conta da atividade do presidente, you name it. Terminou os briefings diários à imprensa, ameaça de todas as formas jornais e jornalistas, o que já incentivou ataques de um maluco a um jornal sulista – com mortes. Uma absoluta vergonha na mistura entre assuntos familiares e assuntos de estado. É o resort de Palm Beach de Trump que é usado para receber chefes de estado estrangeiros, são as comitivas estrangeiras ou de lóbis que são encorajadas a hospedarem-se no hotel Trump de Washington, é a publicidade que faz nas viagens de estado aos seus campos de golfe, é o vice presidente que gasta mais dinheiro para dar graxa ao chefe e ir pernoitar nas propriedades Trump, são as negociações com a China que andam, também, ao sabor das licenças que o estado chinês atribui aos negócios dos vários Trump, é o uso do acesso a líderes estrangeiros para facilitar a construção das torres Trump pelo mundo.

A recusa em escrutinar como ganhou dinheiro e se está ou não a lucrar com a presidência, mostrada na recusa de fornecer as declarações de impostos. (Devia ser obrigatório, claro, é uma falha legal que revela como questões de transparência não podem estar dependentes da ética voluntária dos incumbentes.)

A absoluta inconstância de políticas (muitas vezes determinadas pelo que é dito na Fox News). A incapacidade de obter informação, em vez de confiar nos seus instintos caducos de megalómano. A incompetência de uma administração sempre a cair aos pedaços. A retórica ordinária e boçal, de permanente guerra, criando uma constante tensão explosiva.

As políticas fascistas e desumanas de separar os filhos dos pais na fronteira, usando o trauma provocado nas crianças como terrorismo psicológico sobre os pais que tentam uma vida melhor nos Estado Unidos. A traição às curdas e aos curdos.

As aldrabices com a Rússia e a Ucrânia para ter ganhos eleitorais e atacar os opositores. A política externa de terra queimada, dando cabo de alianças, de estabilidade, de acordos firmados para obter exíguos, ou nenhuns, ganhos negociais. A constante auto exaltação do alucinado laranja. O narcisismo gigantesco que torna todos os assuntos de governação e, bem, do mundo sobre o próprio Donald Trump. A permanente atuação fora da lei na relação com a Câmara dos Representantes (agora dominado pelos democratas).

O que fazem as ditas instituições que os iluminados pró trumpistas envergonhados garantiam que nos iriam salvar? O partido republicano está num estertor moral, completamente vergado a Trump. As demais instituições lá tentam conter o que conseguem.

Nas últimas semanas mais se notou, com as informações que têm surgido do inquérito para o impeachment do Presidente – Trump ameaçou parar ajuda financeira à Ucrânia se o país não investigasse o filho de Joe Biden (até então o candidato favorito dos democratas para as eleições de 2020) por corrupção; depois alterou a transcrição da conversa com o presidente ucraniano e tem boicotado a investigação, proibindo inclusive membros que trabalham na administração de fazerem depoimentos no Congresso.

A lei e Donald Trump não se dão bem. A ética e Donald Trump ainda menos.

A retórica do presidente tem ficado cada vez mais alucinada, como se viu no inacreditável anúncio da morte do líder do ISIS. Desde invenção sobre o que se passou, até afirmações indecorosos sobre o morto, passando pela inevitável (em se tratando de Trump) medição de pilinhas com Obama garantindo que esta morte era mais importante que a de Bin Laden.

Não dou nada por garantido que Trump perca as eleições de 2020, mas a polarização e a intolerância ao presidente têm crescido pelos americanos. A monumental vaia, juntamente como os gritos de ‘lock him up’ (adaptados do que se tornou o slogan de campanha de Trump ‘lock her up’ referindo-se a Hillary Clinton) é sintomática.

A pior herança de Trump será esta: a de normalizar comportamentos de um presidente na antítese da ética. O desafio à legalidade. A recusa de todos os atos não obrigados pela lei mas a que os anteriores presidentes se submetiam voluntariamente por respeito pelo escrutínio. O abastardamento da linguagem de uma atividade nobre como presidir a um país. A mentira como fora de vida. O ataque aos checks and balances. O elogio às tiranias e aos tiranos. No fim da (das?) presidência Trump, a democracia americana será bastante menos liberal e transparente.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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