‘Não estudes, se queres casar’ – a última investida

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Há uns dias li esta crónica de Gerard Baker do Wall Street Journal sobre essa calamidade para a vida das mulheres que é agora termos dado em estudar e tirar cursos e mestrados e doutoramentos em números maiores que os dos homens. Na verdade, esta argumentação é uma característica do insidioso e sonso machismo moderno. Há tempos li um texto de João Marques de Almeida que recomendava às mulheres (porque aparentemente julga que deve recomendar e que é ouvido pelos seus alvos) lerem menos e ouvirem mais música. O regime chinês tem propaganda igual: informa as mulheres jovens que é melhor casarem e terem filhos rapidamente (mesmo se poucos), não estudem muito, que se estudam depois ficam por casar – as leftover women, na expressão da académica sinóloga Leta Hong Fincher.

O tom é sempre de ameaça. As mulheres que estudam de mais, que sabem de mais, que se preocupam de mais com o seu crescimento académico, são mulheres que não vão encontrar marido. Na China, porque os homens não querem mulheres sabichonas. Por cá (e nos Estados Unidos), porque os seres humanos tendem a casar com parceiros de igual formação e status, e se há menos homens com ensino superior que mulheres, estas vão ser mais a competir por menos homens.

Donde: mulheres, quietas, pensem nos vosso sistema reprodutor e não estudem.

Atenção que o texto – como sempre – foca-se nas mulheres. As mulheres é que fazem mal em estudar muito – é o subtexto – e é a sua teimosia em estudar que vai criar grandes, calamitosos, apocalíticos efeitos nas relações entre os sexos. Não há qualquer conselho aos homens – do calibre de ‘vejam lá, estão a ser ultrapassados, estudem mais para estarem ao nível das mulheres todas que tiram licenciaturas, mestrados, doutoramentos, até têm sorte que vão ter mais mulheres vossas semelhantes para casar se estudarem’. Claro que não. O comportamento dos homens é sacrossanto, está sempre perfeito. O comportamentos das mulheres é que deve ser modificado, elas que tenham o trabalho de se acomodar ao mundo que os homens gostavam de ter.

O texto é um belo exemplo de um homem a escrever sobre mulheres sem fazer ideia do que está a falar – os homens raramente sabem quando o assunto é mulheres. Contudo, apesar de estar às aranhas, claro que o homem vai dizer coisas. Afinal cabe aos homens – acreditam ainda muitos espécimes – determinar como é o mundo no geral e as relações entre os sexos em particular. Para isso usam do estratagema de tomar para si a narrativa do que acontece à sua volta. E como as mulheres são mais excluídas do debate público, claro que a narrativa oficial passa a ser a conversa tonta de um homem que não percebe do que escreve. O texto é mais um exemplo limpinho de um homem a dizer às mulheres como é o mundo onde elas vivem – porque as mulheres têm de aprender com os seus melhores, porque o ponto de vista dos homens é ‘O’ ponto de vista, único, a verdade absoluta.

Claro que é uma imbecilidade, não tem aderência à realidade – ou tem cada vez menos – mas serve para condicionar, para criar engulhos na vida das mulheres, para dar um boost de auto-estima aos homens com estudos superiores (que ficam a achar-se semideuses irresistíveis).

Vejamos. É certo que homens e mulheres tendem a fazer aquilo que se designa de assortative mating – escolhe-se um parceiro com nível semelhante de estudos, sucesso profissional, rendimentos, e, até, de atratividade física. Por aqui, poder-se-ia pensar que mais mulheres para menos homens com estudos superiores as deixa em maus lençóis.  Sucede que há demasiadas nuances para esta conclusão poder ser tirada.

Um. Assume que o projeto individual de felicidade de uma mulher passa por casar com um homem. Será assim para a maioria – gostam de amar e serem amados numa relação estável e que perdure – mas não é para todos, e cada vez mais não é para as mulheres. Regressando ao mundo chinês, a verdade é que na China e Taiwan existe um grande número de mulheres altamente escolarizadas que não casaram – e, ainda assim, foi a escolha que fizeram: concentrarem-se na profissão e não se submeterem ao tradicionalismo dos casamentos chineses.

Dois. Não tenho dados para isto, mas da experiência que tenho, e de amigas, é bastante diferente escolher um homem para casar e, sobretudo, para pai dos filhos, que escolher um homem para namorar ou mesmo casar numa altura da vida em que os filhos ou já existem e estão mais ou menos crescidos ou não vão existir. Os parâmetros da exigência são diferentes. Não é o mesmo escolher um bom pai para a prole ou escolher uma agradável companhia romântica com quem se tenha bom sexo. As características que se valorizam num homem aos vinte ou aos trinta não são as mesmas que se valorizam aos quarenta e aos cinquenta.

Três. O texto é sonso e insidioso. Não refere que as mulheres por muitos estudos e especializações que tenham, e por mais que sejam peritas em determinadas áreas, o poder económico e político continua concentrado ferreamente nos bolsos dos homens e as mulheres continuam comparativamente excluídas. Não havendo desculpa da falta de conhecimentos, inventam-se agora características psicológicas que justifiquem a exclusão das mulheres. Qualquer dia (e também é essa a serventia de textos como o do WSJ), cria-se a narrativa ‘as mulheres estudam mas na verdade não querem empregos high profile, estudam só por diletantismo, que afinal querem é casar; é por isso que não aproveitamos as ótimas alunas e mestres e doutoras’. A maior presença nas universidades está longe de se ter refletido numa maior igualdade no mercado de trabalho.

Quatro. Esquece que as dinâmicas médias ou medianas entre os sexos também se alteram quando estamos perante mulheres muito bem sucedidas. Se o mercado de trabalho se vai alterar por causa das mulheres nas universidades, então significa que essas mulheres vão ser high achievers, vão ter grandes rendimentos. Donde, a sua capacidade de escolher o tipo de homens que preferem também aumenta. Uma mulher com capacidade para se sustentar – e em grande estilo – a si mesma, não vai valorizar tanto a capacidade masculina de sustentar a família.

Há dados contraditórios – desde logo porque, como referi, é uma realidade com muitas nuances – mas há indícios de que as mulheres, em ambientes mais igualitários (incluindo nos rendimentos) escolhem os homens mais pela aparência física que pelo nível económico. É fácil  concluir que, comprovando-se esta tendência, que tem lógica, as mulheres mais bem sucedidas e que não necessitem que as sustentem escolham parceiros mais atraentes que parceiros mais endinheirados. Podem perfeitamente preferir um homem bonito com uma profissão menos intelectual ao advogado ou gestor high profile não tão atraente. A mulher bem sucedida namorando com o PT, ou com o giro chefe da loja onde vai às compras, é um clássico destes casos.

Uma mulher bem sucedida que procure sobretudo sexo e companheirismo, em vez de um progenitor, também é provável que escolha quem lhe agrade fisicamente. Afinal as mulheres têm mais orgasmos com homens atraentes.

Nada garante que as mulheres high achievers escolham os que também têm cursos superiores à frente dos que não frequentaram a universidade ou têm outro tipo de cursos e percursos. Em suma, a realidade é complexa, em se tratando de seres humanos vários fenómenos podem coexistir, e não é de todo provável que a propaganda hostil à educação das mulheres, vinda de um homem com excessiva contundência, seja a que mais se assemelha à verdade ou às experiências maioritárias. É avisado não dar importância a cassandras insidiosas. Importante é que as mulheres continuem os seus percursos académicos, invistam em si próprias, adquiram conhecimento e se atirem ao sucesso.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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