As nossas irmãs curdas

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Imagem de https://belfastchildis.com/2015/11/02/her-war-women-vs-isis-rt-documentary/

Na guerra contra o ISIS (ou Daesh) – e guerra, guerra, com tiros, metralhadoras, bombas, explosões, sangrentas disputas territoriais – nenhuma imagem era mais ilustrativa do combate civilizacional que diariamente ocorria que a das mulheres curdas que constituíam (e constituem) entre 30 a 40% do exército curdo. A distopia mais patriarcal, dos islâmicos que queriam levar o mundo de volta ao século VII (exceto nos casos em que o mundo do século XXI lhes permitia manter mais tempo disponíveis para serem violadas pelos seus odiosos guerreiros as escravas sexuais que colecionavam, como a pílula), que (repito) montaram um sofisticado esquema de escravidão sexual de mulheres não islâmicas, que determinavam a mais abjeta servidão das mulheres (todas) nos territórios que administravam, que tinham milícias (femininas) que puniam qualquer microscópica prevaricação de vestuário das mulheres – era ferozmente combatida por mulheres curdas. Mulheres curdas que, no mundo islâmico, serão das mais independentes – ainda que, claro, estejam longes de viver num mundo igualitário. E, num não tão frequente final feliz, foram elas que venceram.

O espírito livre das mulheres curdas não é fenómeno recente. Há uns anos li o Na Síria, de Agatha Christie (por cá com uma bonita edição da Tinta da China). Não, não é um romance policial. É um livro onde relata duas expedições arqueológicas que o seu marido arqueólogo Max Mallowan chefiou na Síria, de cuja equipa a escritora fez parte. Publicado pela primeira vez em 1946, a partir de pedaços de memórias redigidos durante as expedições arqueológicas do casal nos anos 30, num mundo pré Segunda Guerra Mundial. Além do produto literário (cuja análise não farei aqui), é um documento interessante por mostrar um médio oriente que – sem surpresas – tem linhas de continuidade com o Médio Oriente da segunda década do século XXI. Aprender História (que não se aprende só nos manuais académicos) é sempre a melhor forma de perceber o presente: como aqui chegámos, as continuidades, as disrupções.

Agatha Christie fala dos yazidi, descreve as relações entre os sexos no mundo islâmico de inícios do século XX. E fala das mulheres curdas. Deixo aqui duas páginas onde Christie descrevia as mulheres curdas. Há outras no livro onde as refere, mas estas ilustram bem as diferenças entre as mulheres árabes e as curdas. Umas recatadas, tímidas e obedientes; outras extrovertidas, ripostando com os maridos, donas do seu nariz, ‘sem dúvida de que é tão boa como qualquer homem, ou melhor’.

São estas mulheres, com esta tradição de espírito irreverente e independente, que o [colocar adjetivo de execrável para baixo] Donald Trump traiu. O abandono americano dos curdos à fúria turca ficará para a História como um daqueles momentos de ignomínia (para ir buscar a expressão americana para o ataque a Pearl Harbour). E – como a psique coletiva dos povos não esquece – não tenho dúvidas que será uma das traições que por muitas décadas iremos ter repercursões. Dos próprios curdos na sua relação com os Estados Unidos (e a Europa, se nada fizer, nem que sejam sanções económicas à Turquia). Muito para lá dos efeitos de curto prazo que já se começam a sentir, da guerra e dos ataques militares turcos aos curdos e do muito possível renascimento do Daesh.

Dentro dos que mais sofrerão com o ressurgimento do ISIS estão as mulheres daquela zona, e sobretudo as mulheres curdas – sobre quem a vingança dos fanáticos islâmicos se abaterá, que perderão de novo as suas liberdades, que terão de regressar às cenas e aos perigos da guerra (com o Daesh e com os turcos). As reservas do maldito petróleo do Curdistão terão tido, como sempre, influência na cínica decisão da toranja Trump, bem como as rotas de transporte do dito produto. Em todo o caso é difícil saber lidar com uma decisão que traz tanto Mal como esta de Trump. É perturbante, é um cliché, mas é verdade: Trump faz o trabalho do Mal.

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