Este país ainda não é para mulheres

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Imagem de Isabel Santiago.

À medida que fui crescendo, e agora tenho consciência disso, vários aspectos foram sendo evidentes na minha construção e foram sofrendo um condicionamento. Pavloviano talvez. Sabia que de noite corria riscos maiores de ser atacada: então não saía à noite. Sabia as ruas em que estavam grupos de homens à conversa: então ia dar uma volta à vila para não passar lá. Sabia que se alguém fosse de saia, era essa colega chamada ao quadro. Sabia que se alguém soubesse que alguma de nós namorava era chamada de nomes pouco bonitos: então escondia até à exaustão esse namoro. E isto são só exemplos. O demais condicionamento só foi condicionamento devido ao sexo. Sexo Feminino.

À mulher de César não basta ser. É preciso também parecer. Eu cresci com esta máxima sempre presente. Quando me comecei a desenvolver, quando apareceu a menstruação, notei automaticamente uma mudança de discurso. Penso que será praticamente geral. Começou a desenvolver-se uma mulher. As mulheres tinham de ser recatadas e castas. À minha volta via mulheres a mudarem o comportamento depois de casarem. Quando começavam a namorar. As mulheres tinham de ir para casa mais cedo que os homens. Tinham de se esconder, tapar. Cresci num sufoco. E este sufoco não vinha de casa. Vinha da sociedade onde estava a crescer. As mulheres eram criadas para ser mães. Casar e ser mães. Para a pessoa que me criou, era impensável ser-se outra coisa. Alguém que se separasse naquela terra, e eu vivi bem de perto aquando do divórcio dos meus pais, era falada, mal vista, e olhada de lado. Uma injustiça. Que condicionou várias das decisões da minha vida.

Só perto dos 30 anos, quando estava grávida da minha primeira filha, me apercebi das injustiças que acontecem às mulheres, e fiz um caminho sem retorno para a revolta com o meu passado. A consciência disto, hoje, dói. A consciência de que não quero que as minhas filhas cresçam da mesma maneira, dói. A consciência de que, muito provavelmente, irão crescer assim, dói ainda mais. E reparem, eu, em casa, tinha uma liberdade fantástica. O pior era quando saía de casa. E nisto penso que todas experimentámos algo parecido. Cresci com muito amor, mas também muito machismo a correr. É assim. Há 30 anos, as mulheres tinham de servir os homens, os tais seres superiores. Vá lá só ter demorado 30 anos a perceber que as mulheres servem para mais. E há um corte inevitável com a minha educação, a partir do momento em que digo que chega.

Faço para a semana 35 anos. E digo-vos: em 35 anos não mudou muita coisa. E digo-vos outra: as mulheres que alteram o seu comportamento é por uma questão de sobrevivência.  Eu própria alterei o meu comportamento, ainda que tenha sido rebelde o suficiente para não ceder no que era mais importante, eu também deixei de vestir saias até aos 20 anos. Porque se por acaso estivesse de saia numa situação de assédio, então saberia que a culpa era das minhas pernas. E recolhi-me, muitas vezes, preferi ficar no meu canto, em vez de gritar e ralhar e denunciar. Ainda prefiro. Porque ainda não conseguimos a igualdade. Pergunto-me se algum dia vamos conseguir. Pergunto-me se algum dia vamos conseguir ser livres.

Este artigo é um mea culpa.

É um pedido de desculpa a todas as que passam pelo mesmo e não arranjam força para inverter a situação. Eu também não consigo.

A primeira situação de assédio sexual que aconteceu comigo, pelo menos com a consciência desse assédio, foi aos 18 anos. Tinha acabado de entrar para a faculdade, e achei a situação tão despropositada que resolvi falar com alguém. “O que fizeste tu?” Eu, que já estava transtornada, fiquei quase histérica. “Como assim o que fiz?” “Os homens têm de ser provocados”. “Eu não fiz nada!”

A situação de assédio repetiu-se na minha vida, e repete-se na vida da maioria das mulheres. É crime. Já é crime. Pese embora não haja denúncias suficientes para o assédio ser considerado problema. Resta-me perguntar porquê. Porque será que a maioria das mulheres ainda considera um crime menor ser incomodada ao ponto de alterar o seu comportamento. É assim a educação. No meu caso, que é o que conheço melhor, já fui prejudicada por não ceder ao assédio. Quem utiliza estes métodos criminosos, ganha, mesmo que não ganhe a mulher, ganha por não ser denunciado. E enquanto não for denunciado, continuará o mesmo comportamento. Enquanto não ensinarmos os assediadores que é um comportamento errado, eles não alteram. Porque na vida das mulheres tudo tem de ser ganho assim. Já imaginaram não ter de se esforçar para serem ouvidas?

O que aprendi eu aos 18 anos? Que é melhor ficar calada a passar pela humilhação de me julgarem atiradiça. É crime, mas como se prova? É a palavra de um contra a do outro, e todos sabemos como a palavra de um homem vale mais que a de uma mulher. Uma maneira de sobreviver, porque o assédio destrói, mesmo as que cedem (e estas não devem ser julgadas), é tentar ignorar. E a maior parte ignora, porque senão queremos ver a nossa reputação destruída, numa sociedade machista, a maneira é esta.

Este país ainda não é para mulheres. Este país ainda vai demorar a mudar. Porque os velhos do Restelo continuam a brotar a cada esquina.

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