Abbey Road: 50 anos do fim

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Sem ter o experimentalismo de Sgt. Pepper’s, o reconhecimento universal do Revolver ou a influência que o Álbum Branco teve nas gerações futuras, a verdade é que o Abbey Road tem um lugar muito especial na discografia dos Beatles por ter sido o último disco que os quatro gravaram, se bem que caiba ao então inacabado Let It Be a honra de ter sido último disco dos Fab Four a ser lançado.

Não só por ser a gravação definitiva dos quatro, Abbey Road também ficou na história por ser um álbum que legou uma das capas mais icónicas da indústria musical e que elevou as composições de George Harrison a um estatuto até então inaudito dentro da banda.

Pela primeira vez, o Quiet Beatle, teve direito a dois singles: “Something” e “Here Comes the Sun”, tendo o primeiro relegado “Come Together” para o lado B, um momento único na história do pop rock, quando uma parceria com a lendária assinatura Lennon/McCartney se via remetida para o lado b de um EP, coisa nunca antes vista e que nunca mais seria repetida.

A verdade é que os Beatles viviam os seus últimos momentos enquanto banda. George Harrison abandonara as gravações do documentário “Let It Be”, deixando os outros três sozinhos nos estúdios em Twickenham. Paul McCartney e John Lennon afastavam-se e o final era eminente, até Ringo Starr parecia já mais compenetrado na sua recente carreira como actor, estrelando ao lado do extraordinário Peter Sellers. Enquanto os quatro procuravam novos rumos, Phill Spector pegava nos cacos das gravações do projecto abandonado, para dar forma ao que viria a ser “Let it Be”.

É nessa altura, quando John e Yoko se casam, quando Paul e Linda se refugiam na Escócia e George aprofunda a sua paixão pelas músicas e filosofias orientais, que surge a ideia de voltar a reunir os quatro rapazes, para gravar mais um álbum, longe das obsessões perfecionistas com que Phill Spector trabalhava no “Let it Be”.

E é essa felicidade, de um verão que chega depois de um longo e penoso inverno, que trespassa do álbum, tão bem sintetizado na bucólica “Here Comes the Sun”, uma pérola de optimismo, com que Harrison, em estado de graça, nos brindou.

O álbum abre com uma das mais extraordinárias canções que o Rock já conheceu: “Come Together”, uma composição de Lennon, que 50 anos passados, é ainda (e atentai àquela linha de baixo) um manifesto de coolness que dificilmente será superado.

Segue-se “Something”, a magnum opus de George, que nas palavras de Frank Sinatra é a melhor canção de amor de todos os tempos, e que só é superada pela canónica “Yesterday” no número de covers a que teve direito. Sobre esse tema, Elton John considerou “Something” uma obra prima, “melhor que Yesterday, muito melhor”, o que não deverá ter ajudado muito à já periclitante relação entre George e Paul.

McCartney contribui com “Maxwell’s Silver Hammer” e “Oh! Darling”, duas composições que parecem saídas de uma outra época, neste caso os anos anos 20, num caminho que Paul já começara a trilhar em álbuns anteriores, e que continuaria na sua posterior carreira a solo.

Não querendo esquecer, mas esquecendo, a obrigatória contribuição de Ringo para o alinhamento do disco (“Octupus Garden”), o lado A do LP fecha com a épica “I Want You (She´s So Heavy)”, que com os seus quase oito minutos, é um registo raro na discografia dos Beatles.

O tom, num blues a fugir para o road rock – a lembrar o que McCartney tentara com “Helter Skelter” em algumas demo tapes das gravações do Álbum Branco -, influenciaria alguns dos grandes nomes que nos anos 70 deram vida ao hard rock. A coolness com que Lennon abrira o Lado A, encerra na perfeição com esta que foi a última música da banda, a ter os quatro membros em estúdio ao mesmo tempo.

Virado o lado ao disco, chegamos a um mundo novo, onde somos levados pela delicadeza de “Here Comes the Sun”, e pela escuridão de “Because”, onde Lennon desconstrói a Serenata ao Luar de Beethoven para nos brindar com uma requintada harmonia vocal, que casa na perfeição com o tom sinistro da instrumentação.

Inicia-se então uma viagem musical, num pastiche de estilos e referências, onde as canções de Lennon e McCartney se fundiram numa bela arte de corte e costura, que se inicia em “You Never Give Me Your Money” e acaba em “Her Majesty”.

“You Never Give Me Your Money” é Paul McCartney tanto no brilhantismo como nos defeitos que se lhe reconhecem na sua carreira a solo. “Sun King”, que inclui a única palavra em português de toda a discografia da banda (não, não vou revelá-la, é favor ir ouvir a música) é uma belíssima composição psicadélica em que Lennon se transforma num Tony Silva, sensual, a divagar num italo-castelhano macarrónico…

Em grande forma, John atira-se de seguida a “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam”, duas canções que haviam sido rejeitadas no Álbum Branco e a fazerem recordar um Lennon de outros tempos.

O fio condutor desta colagem de canções, à imagem de uma ópera rock, uma ideia que os Beatles já tinham aflorado no lado A do Sgt. Pepper´s, continua com “She Came in Through the Bathroom Window”, onde Paul, being Paul, brinca com os fãs, os Apple Scruffs, que tinham invadido a sua casa de St. John’s Woods.

Para terminar, o disco fecha com o trio “Golden Slumbers/Carry That Weight/The End” e uma faixa escondida.

“Golden Slumbers” é uma pérola (sim, mais uma!), em que em 1:31 Paul McCartney roça a perfeição, numa introdução para “Carry That Weight”, a música que se segue, e que na realidade foi gravada em conjunto num só take com a “Golden Slumbers”.

Carry That Weight é uma celebração do espírito do lado B do álbum, com McCartney a voltar a “You Never Give Me Your Money”, mas com versos e uma orquestração modificada.

O crescendo final de “Carry That Weight” desagua directamente em “The End”, onde com um solo inicial de bateria, Ringo Starr lidera os quatro numa jam, onde os três restantes se divertem em blocos de solo de guitarra, onde cada um tinha direito a quatro segundos…

A festa termina com um piano que anuncia um dos versos mais citados de toda a obra dos Beatles: “and in the end/ the love you take/ is equal to the love you make…”

Com chave de ouro, Paul McCartney devolvia aos fãs todo o amor que receberam. O disco continua em silêncio até surgir “Her Majesty”, uma inócua crítica de Paul a Isabel II em 23 segundos.

Consta que Sua Majestade não terá gostado muito da brincadeira, e da letra que não lhe seria muito abonatória, mas longe vão os tempos em que os maiores problemas da Rainha de Inglaterra eram uns versos numa faixa escondida de um disco dos Beatles.

Feitas as contas, o balanço de Abbey Road é francamente positivo. É verdade que é fruto da sua época, umbilicalmente ligado ao estertor da banda, mas não deixa de ser um dos grandes álbuns da banda, que nos legou mais que uma mão cheia de grandíssimas canções, uma capa para o altar da iconografia pop e as sementes de muito do melhor pop rock produzido nos anos 70.

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