Safaa Dib | Liberdade é Igualdade

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Imagem de Safaa Dib.

A primeira vez que apresentei uma candidatura política em nome do LIVRE foi no ano de 2014, quando inscrevi o meu nome nas primárias para as eleições europeias desse ano. O partido estava no processo de se apresentar pela primeira vez a eleições e, em vez de os candidatos e candidatas serem escolhidos por uma direção, inscreviam-se nas primárias e apresentavam as suas propostas, que seriam escrutinadas, debatidas e votadas pelos membros e apoiantes do partido.

Nas primárias, deu-se o caso curioso de eu ter sido votada em 6º lugar.  Os primeiros 6 candidatos posteriormente transitavam para debates e nova votação, mas as regras da paridade – instituídas nos documentos fundadores do partido – empurraram-me “para baixo”, para 7º lugar, dando lugar a uma discussão interna no partido sobre que sentido faria “despromover” uma mulher quando as regras da paridade tinham sido criadas para corrigir uma injustiça histórica em relação a mulheres.

Recordo-me do email afável e preocupado que recebi do Paulo Monteiro, o candidato que ficara em sexto, a pôr o seu lugar à minha disposição.  E foi esta a primeira vez que descobri que estava num partido diferente e que estas questões eram debatidas intensamente com um genuíno interesse e desejo em fazer algo diferente.

Cinco anos depois, e várias eleições depois, listas inteiramente paritárias passaram a ser uma realidade entre os partidos quando em 2014 eram uma absoluta novidade. Cinco anos depois, encontro-me entre os 15 dirigentes que compõem o Grupo de Contacto do LIVRE e não há um dia que não questione a sanidade mental dos vários coletivos voluntários que compõem este partido e que têm disponibilizado tanto do seu tempo livre – e alguns com sacrifícios pessoais elevados – com a aspiração de lançarmos novas ideias e novas formas de fazer política. Uma visão de um futuro utópico para concretizar no presente, é como gosto de descrever pessoalmente o nosso estilo.

E mesmo sem ter obtido ainda uma subvenção partidária ou eleito deputados na Assembleia, o LIVRE tem desenvolvido um trabalho persistente em desafiar as mulheres a candidatarem-se a primárias e não se acomodarem aos tradicionais cargos de organização nos bastidores. Não minto, esse esforço tem sido árduo. Talvez condicionadas por um sistema patriarcal que lança sempre os homens para a linha da frente, as mulheres têm dificuldades em dar o rosto ao combate político, preferindo optar por tarefas de gestão.

Ainda assim, temos plantado sementes. Em todo o país juntaram-se a nós professoras, ativistas, cientistas, estudantes, mulheres de todas as faixas etárias e backgrounds profissionais, a reverem-se nos princípios do LIVRE e no modo como o partido conseguiu construir uma via rápida entre a cidadania e a política.

E as sementes têm dado frutos. Tem sido uma grande alegria ver a Joacine Katar Moreira em campanha, a nossa cabeça-de-lista pelo círculo de Lisboa às próximas legislativas, a primeira mulher negra a encabeçar uma lista em Lisboa às legislativas, e já conhecida pelo seu trabalho como ativista feminista intersecional e antirracista. Com a Joacine temos trilhado um percurso sem precedente e feito de muitas aprendizagens, mas também temos encontrado muita resistência à mudança e à representatividade e inclusividade. Poderia falar de muitas outras mulheres no partido que têm, através da sua candidatura, conseguido responder a uma insatisfação enorme gerada por uma sociedade cada vez mais dominada pelos valores neoliberais. Há um pouco de loucura e idealismo em cada uma de nós.

E à medida que o capitalismo aperta cada vez mais as suas garras, despoletando uma maior precariedade e violência de género, o feminismo tornou-se um alvo a abater. Não há feministas assumidas que não sejam alvo de constante bullying em redes como o twitter ou Facebook. Candidatas políticas feministas levam bullying a triplicar.

Ainda assim, continuamos a luta e o LIVRE incluiu, no seu programa eleitoral, vários pontos dedicados a “Promover a igualdade de género em todas as suas interseções”. Entre as várias medidas elencadas, destaco a implementação de Planos para a Igualdade de Género em todas as instituições do Estado, monitorizados pela Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade e apoiadas pela CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género; estabelecendo um Padrão de Igualdade Salarial, obrigando à remuneração baseada nas qualificações e à publicação dos pagamentos salariais internos para aumentar a transparência; o reforço da representação dos géneros na administração das empresas e instituições públicas, estabelecendo a paridade como regra nos órgãos diretivos;  o reforço do papel dos homens na parentalidade, nomeadamente através do aumento das durações das licenças de paternidade; a promoção de campanhas de sensibilização para a eliminação dos estereótipos de género e dos papéis sociais atribuídos a cada sexo.

Combater a violência de género, a violência doméstica e no namoro é também uma das prioridades do LIVRE, e requer modos de ação que passam pelo reforço de conteúdos educativos sobre a igualdade de género, direitos sexuais e reprodutivos no currículo escolar; o reforço de organizações não governamentais que trabalham na prevenção da violência e/ou apoio a vítimas de violência doméstica, sexual, tráfico humano ou prostituição; tornando obrigatória a formação das forças de segurança, profissionais de saúde e outros profissionais para prevenção, identificação e atuação em situações de perigo e, por fim, o desenvolvimento de campanhas de sensibilização contra a violência no namoro, violência doméstica, mutilação genital feminina e assédio moral e sexual.

Para o LIVRE, o combate às desigualdades, às injustiças sociais e à discriminação presentes na sociedade portuguesa é um combate permanente e passa pelo reforço de direitos sociais e ao lado de cidadãos e cidadãs conscientes do seu potencial e com a capacidade de trazer uma nova visão à política, alicerçada nos princípios do universalismo, liberdade, solidariedade, sempre disponíveis para a mudança, sempre rumo à igualdade.

 

Safaa

Safaa Dib dedicou-se ao mundo dos livros durante grande parte da sua vida até ter trocado uma carreira editorial de 10 anos por um espaço de cozinha libanesa no centro de Lisboa, Casa dos Cedros. A atividade política iniciou-se em 2012 e é atualmente dirigente do LIVRE e candidata às Legislativas por Lisboa.

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