Quem quer livros sobre a Segunda Guerra Mundial?

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Não é uma lista exaustiva – seria impossível! – nem sequer comprida ou com preocupação de ser eclética ou de refletir o melhor da literatura ou esteticamente mais apurado que se escreveu de divulgação histórica. É tão somente uma lista de livros que li, gostei ou considerei curiosos e úteis. Nem sequer é uma lista de sucessos recentes. Por alguma razão desconhecida – ou porque estou mais interessada noutros temas nos últimos anos, ou porque a distância temporal gera um menor número de livros interessantes sobre a Segunda Guerra Mundial que há quinze ou vinte anos – não tenho lido muitos livros passados entre 1939 e 1945 nos últimos anos. Em todo o caso os mais antigos já têm estatuto de clássicos, donde nunca fica mal a leitura.

Começo com a ficção. E com a exceção temporal: li-o há dois anos. A God in Ruins, da grande, enorme Kate Atkinson, possivelmente, para mim, a maior escritora viva. O livro não se circunscreve aos anos da guerra, mas tem neles um grande sumo (e páginas). É uma espécie de spin off do livro anterior da Atkinson, Life After Life (também muito à volta da SGM). A God in Ruins traz um tema pouco comum na literatura britânica: o bombardeamento intensivo das cidades alemães pela aviação dos aliados, mais para o fim da SGM, procurando-se uma punitiva destruição das cidades e tendo como alvos os civis e as suas casas (de uma forma muito mais destrutiva que o blitz de 1940-41 dos alemães sobre as cidades britânicas). O livro é vintage Atkinson: personagens soberbas, histórias bem construídas, mestria numa escrita sem peneiras, reviravoltas na narrativa. Há mais desta autora sobre a SGM, mas eu ainda não li (mas comprei-o em dezembro): Transcription, passado no mundo do MI5 nos anos de guerra. Ainda não li, mas recomendo na mesma. Kate Atkinson nunca desilude.

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Podemos passar para A Procura do Amor de Nancy Mitford (traduzido por Carla Quevedo), um clássico incontornável. Ali pelas alturas de Guerra Civil Espanhola e nos primeiros anos da SGM, seguimos os amores de Linda Alconleigh. Que não são o mais interessante do romance. Como sempre com Nancy Mitford, é a descrição (com bateladas de humor) do mundo upper class britânico que nos regala.

Uma Noite em Lisboa, de Erich Maria Remarque deve ser dos poucos livros deste autor que terminam bem (ou, enfim, bem para alguns). Vale a pena, claro, desde logo porque se passa em Lisboa, essa cidade que nos anos da guerra se tornou parte da rota dos refugiados judeus para fugirem da Europa. Se procura um murro no estômago, A Centelha da Vida, do mesmo Remarque, romance passado no horror de um campo de concentração, é a obra mais adequada. Tem a resiliência, a felicidade possível no meio do mal absoluto, a sobrevivência. Ainda assim é um marco literário do Holocausto que não alegra ninguém. (Li-o na adolescência e não o releria agora.)

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Para terminar a secção da ficção, aqui vos refiro a trilogia A Bicicleta Azul, de. Passada entre Bordéus, as propriedades vinícolas da Aquitânia e Paris, os três livros atualizam a história de E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell (e do filme icónico, nem é preciso dizer) para a França ocupada da SGM e para a Resistência francesa. Claro que as diferenças adequadas são introduzidas. Sobretudo uma batelada de cenas sexuais e de descrições dos encontros de Léa, a protagonista, com os homens da sua vida. Não é um estandarte da boa literatura, mas entretém e dá boa ideia da atmosfera da época e da vida sob a ocupação francesa, desde as ambíguas relações que se estabeleciam com os ocupantes até ao mercado negro, passando, claro, pela atividade clandestina.

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Passando para os livros de não ficção (apesar de parecer), temos dois bastante legíveis e interessantes, à volta do fim da primavera e do verão de 1940, na Grã- Bretanha, contando os meandros políticos de um tempo em que o Reino Unido ficou sozinho na Europa em guerra com a vitoriosa Alemanha nazi, que vergara os países invadidos. Enquanto o que restava da força expedicionária britânica encurralada em Dunquerque e durante a chamada Batalha de Inglaterra – os bombardeamentos de fábricas e aeródromos em Inglaterra que eram a fase preparatória para a invasão nazi da Grã-Bretanha – Churchill esforçava-se para pegar os cacos do país e não ceder a um armistício com Hitler. É tudo contado pelo húngaro-americano John Lukacs em Five Days in London e The Duel, The Eighty Days Struggle Between Churchill & Hitler.

Europe at War 1939-1945, No Simple Victory, de Norman Davies, traz uma visão contraditória daquela com que crescemos: os bons ganharam aos maus. Os bons ganharam, mas os maus também. Em consequência da SGM, a Europa ocidental foi liberta da ocupação e influência nazi, mas a parte leste ficou cinquenta anos subjugada à URSS em pesadas ditaduras comunistas. Também nos dá uma visão mais proeminente do papel do Exército Vermelho e do descalabro da invasão da URSS por Hitler em 1941 na derrota final de Hitler, em vez do poderio americano que geralmente nos contam como o fundamental para a vitória aliada.

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Num registo semi memorialista, semi biografia, Papa Spy, de Jimmy Burns, conta-nos a história do seu pai como agente dos serviços secretos britânicos em Madrid durante a SGM. Além de termos ideia do mundo de espiões madrileno (bastante mal tolerado por Franco, que não queria desagradar – ainda mais (já que nunca entrou na guerra) – ao amigo Hitler) e da vida em Espanha nos anos 1940, temos como bónus o mesmo em Lisboa, porque o papá Burns vinha amiúde a Portugal contactar com os mais numerosos espiões que por cá pululavam.

Deixo para o fim um livro que toda a gente devia ler. The Righteous, The Unsung Heroes of the Holocaust, de Martin Gilbert, conta-nos histórias das pessoas que nos países ocupados pelos nazis salvaram judeus durante a SGM. Ou dando-lhes guarida por períodos variáveis de tempo, ou ajudando-os na fuga, ou avisando-os do perigo que se aproximava. Todos estes heróis correram perigos reais com esta ajuda que prestaram, muitas vezes arriscando a vida, a liberdade, a propriedade e até a vida (e etc.) dos seus familiares. É um livro que nos mostra que temos sempre escolha e que podemos sempre seguir o caminho da humanidade e do bem. E que muitos, arriscando tudo, fizeram-no.

 

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