Segunda Guerra Mundial: a entrada em força das mulheres no mercado de trabalho

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Imagem de https://www.npr.org/2010/03/09/123773525/female-wwii-pilots-the-original-fly-girls

É da História: a 1 de setembro de 1939, há 80 anos, a Alemanha invadiu a parte ocidental da Polónia. A Segunda Guerra Mundial não começou exatamante nesse dia. França e Inglaterra fizeram um ultimato aos alemães para que retirassem da Polónia até às onze horas de dia 3. Não retiraram, é sabido, e Neville Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, fez uma desencantada declaração aos ingleses na BBC informando que, assim, ‘existia o estado de guerra entre os dois países’.

A Segunda Guerra Mundial iria durar por quase seis anos completos. Terminou na Europa, com a derrocada do regime nazi e a chegada a Berlim pelos soviéticos, a 8 de maio de 1945. Na Ásia Oriental e do Sudeste só com as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, a 6 e 9 de agosto desse ano, os japoneses se renderam.

Nestes seis anos de guerra o mundo mudou. No fim, os países europeus deixaram de ter condições de manter as colónias africanas e asiáticas – por falta de recursos financeiros drenados pelo esforço de guerra e porque, afinal, tinham passado seis anos à bulha com países que recusavam as ideias democráticas e a determinação da política por vontade popular, algo que, bem, não é muito consonante com a ideia colonial de administrar e civilizar outros países. A Europa dividiu-se em duas, com a União Soviética a dominar os países mais a leste. Os cataclismos políticos sucederam-se. Porém não foram apenas as mudanças geoestratégicas que determinaram que o resto do século XX fosse inteiramente diferente do mundo de antes da SGM. Uma série de alterações sociais ocorreram durante os seis anos em que o status quo foi completamente subvertido. As famílias foram apartadas, os homens viajaram para outras paragens, os formalismos e salamaleques do mundo pré 1939 não podiam ser mantidos em tempo de guerra.

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Sociedades muito estratificadas como a britânica viveram um maior contacto entre as várias classes sociais durante a guerra. Não só os homens no exército, mas também os demais na sua vida quotidiana. Os gradeamentos dos jardins das praças das cidades inglesas – que reservavam esses espaços verdes e aprazíveis apenas para os moradores daquelas zonas de prestígio – foram retirados (o metal era necessário para armamento) e toda a gente podia usufruir dos ditos jardins antes fechados. Nos comboios não havia fiscalização dos lugares de primeira classe, pelo que todos se encontravam nas cabines destas viagens. Outras pequenas subversões da sociedade pré guerra foram ocorrendo e, mesmo se no fim da guerra muitas divisões foram eliminadas, o efeito nunca se esbateu.

Um dos grandes efeitos da Segunda Guerra Mundial foi a disrupção na vidas das mulheres. Algumas consequências da guerra foram malignas: as violações como arma de guerra; as ‘mulheres de conforto’ (raio de nome), que ainda hoje envenenam as relações entre China, Coreia e Japão; as especificidades do Holocausto para as vítimas femininas. Outros artigos na Capital Magazine irão buscar essas realidades mais sinistras. Além, claro, das mulheres que perderam filhos, maridos, namorados, irmãos, pais ou que morreram nos bombardeamentos.

Porém, nem todas as consequências foram negativas para a vida das mulheres na SGM. Uma delas foi a entrada massiva da metade feminina da população no mercado de trabalho. A razão era a evidente: a metade xy em idade ativa foi recrutada para as forças armadas, abandonando os seus trabalhos pré guerra. No entanto, os países continuavam a ter de funcionar e havia necessidades acrescidas num período de guerra – os bombardeamentos pediam mais bombeiros, as fábricas de pára-quedas, munições, aviação e outros bens relacionados com armamento tinham mais procura, e por aí adiante. Sem homens para ocuparem estes empregos, os governos – a contragosto e receosos de romperem com todos os estereótipos e tradições associados aos sexos e temendo destruírem os bem estabelecidos papeis masculinos e femininos como de sustento da família, eles, e gestora da esfera doméstica e cuidadora dos filhos, elas – recorreram à força de trabalho feminina. Este efeito foi vivido em dimensões variáveis na generalidade dos países europeus que estavam em guerra, nos Estados Unidos (incluindo 350.000 nas forças armadas, com mulheres que pilotavam aviões de transporte, e outras atividades de igual gabarito, dentro desse número), na Alemanha – onde a ideia nazi de feminilidade remetia as mulheres apenas para cuidadoras dos seus maridos alemães e de produtoras de muitos filhos arianos, nos países extra-europeus que participaram na guerra (como a Austrália) e até no conservador e tremendamente patriarcal Japão.

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Malgrado a vontade dos governos de manterem o status quo, e de encorajarem as mulheres a continuarem bem vestidas, maquilhadas (desde logo porque Hitler odiava mulheres com maquilhagem, o que tornava até o uso de baton um statement anti-nazi) e (na visão convencional) femininas, estereótipos de género foram espatifados. Porque as mulheres foram ocupadas – e aos milhões – em profissões tradicionalmente reservadas para homens. Motoristas, eletricistas, operárias em fábricas de maquinaria pesada, mecânicas – no filme The Queen, Helen Mirren lembra às tantas, quando o seu carro fica atolado, que foi mecânica durante a SGM – operadoras de tratores e maquinaria agrícola, enfim, todo o tipo de trabalhos em que, até então, ninguém sonharia colocar as delicadas senhoras.

O caso que conheço melhor é o britânico. Logo no início da guerra umas tantas mulheres, geralmente solteiras e jovens, voluntariaram-se para os serviços femininos auxiliares das forças armadas. Mas não eram suficientes. Em Dezembro de 1941 o National Service Act (No.2) considerava que todos os adultos, homens e mulheres, eram suscetíveis de serem recrutados. Inicialmente pensou-se apenas estender este trabalho compulsório no esforço de guerra às mulheres solteiras. Continuaram sem ser suficientes. Pelo que em fevereiro de 1942 alargou-se também às mulheres casadas. Até as grávidas tinham de se registar, apesar de ficarem dispensadas de trabalhar. Esta Home Front – a frente de batalha que foi proteger o país e mantê-lo em funcionamento para que os exércitos pudessem estar ocupados noutros lados – ficou inteiramente a cargo das mulheres, que serviram com excelência.

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As britânicas trabalharam em tudo. Nas forças armadas recaíam sobre elas quase todos os trabalhos exceto os que envolviam usar armas de fogo: eram as administrativas, as mecânicas, as motoristas,… As WAAF e as WREN ficaram particularmente famosas, com os uniformes que chegavam a ser usados como vestidos de noiva nos casamentos durante a guerra. Tomaram a proteção civil, desde a vigilância da vinda de bombardeiros alemães, aos bombeiros, aos esquadrões que desativavam as bombas não explodidas, à logística de transportar as crianças londrinas para locais seguros distantes das cidades inglesas cobiçadas pelos bombardeiros. As fábricas ficaram a cargo das trabalhadoras femininas. Transportavam quase tudo o que se movia pelo país, no Women’s Transport Service. As terras eram trabalhadas e cultivadas por mulheres, encarregues de produzir legumes e criação animal para alimentar o país – era o Women’s Land Army. O filme Land Girls, que corre no Netflix, baseia-se nestas raparigas que iam trabalhar nos campos. Além, evidente, de todas as profissões onde as mulheres já eram conhecidas: cozinheiras, escriturárias, telefonistas,…

Houve campos ainda mais inimagináveis (pelos padrões de agosto de 1939) onde as mulheres britânicas entraram – os dos serviços secretos. No já famoso Bletchley Park – o local onde se recolhia a informação obtida pela escuta das comunicações de rádio alemãs, Alan Turing construiu o seu computador e se descobriu a forma de descodificar a máquina de encriptação Enigma – 75% das pessoas que trabalhavam nestas ocupações ultra secretas eram mulheres. Claro que a maioria em trabalhos de escuta, tradução, arrumação de material obtido e semelhantes, mas algumas poucas chegaram ao nível de descodificadoras. O ambiente de Bletchley Park está bastante bem recriado nos filmes The Imitation Game (sobre Turing) e Enigma (baseado no livro de Robert Harris). Mas a minha série preferida que vai buscar esta experiência de guerra é The Bletchley Circle, também disponível no Netflix, sobre umas amigas descodificadoras de Bletchley que usam os métodos que utilizavam para descodificar comunicações dos alemães para resolver crimes na Londres do pós-guerra. (Conta também as vicissitudes da vida das mulheres que de súbito voltaram a ser colocadas em casa nos papeis de mulher e mãe.)

Mais perigosa e mortífera foi a participação de jovens mulheres em territórios inimigos como agentes do SOE, Special Operations Executive, uma organização criada em 1940 por Churchill com a instrução de ‘set Europe ablaze’. Dedicavam-se ao ‘ungentlemanlike warfare’: assassinatos de inimigos, sabotagem, contactos com os movimentos de resistência dos países ocupados pelos nazis, envio de agentes para recolherem informação ou para espalharem desinformação. OS agentes do SOE eram sempre muito novos, tinham uma taxa de mortalidade assustadora (com frequência capturados e torturados e mortos pela Gestapo) e cinquenta e cinco dessas agentes foram mulheres. Geralmente trabalhavam como correios, falavam impecavelmente as línguas do país e protegendo-se com o facto de as mulheres não levantarem tantas desconfianças. Várias morreram – a mais famosa é talvez Noor Inayat Khan, de origem indiana, que valentemente resistiu à tortura da SD depois de capturada e morreu executada em Dachau, dando lugar até a audições no parlamento inglês por este desaire – outras sobreviveram para contar (ou não) os feitos.

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Esta participação muito ativa das mulheres no mundo do trabalho e no esforço de guerra teve consequências que não se conseguiram conter no fim da guerra, quando os homens voltaram dos exércitos, quiseram os seus empregos de volta, as mulheres foram despedidas (ou despromovidas ou tiveram o ordenado reduzido) e os governos informaram-nas que a sua obrigação era regressarem a casa aos papeis de fada do lar e de maternidade, deviam repor a população com a produção de muitos bebés e deixassem lá as veleidades de quererem continuar com a liberdade e independência, de movimentos e financeira, que usufruíram durante os anos de guerra.

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As roupas usadas pelas mulheres alteraram-se, com a adoção de calças pelas mulheres que trabalhavam – eram muito mais práticas. Construíram-se (no Reino Unido) em muitas fábricas durante a guerra creches para tomarem conta dos filhos pequenos enquanto as mães trabalhavam – no fim da guerra foram desmanteladas. (Nos Estados Unidos, como é hábito, nem Roosevelt do New Deal tratou de fornecer suficientes creches às mães americanas que trabalhavam em ocupações fulcrais para o esforço de guerra.) A liberdade de movimentos das mulheres cresceu significativamente, deixaram de estar confinadas à zona doméstica e era frequente viajarem por causa de trabalhos. A liberdade financeira que receberem um ordenado lhes proporcionou também não é de somenos. O facto de terem desempenhado tão bem as suas tarefas em profissões geralmente associadas aos homens também desfez irreversivelmente mitos sobre as (in)capacidades das mulheres ou a sua desadequação a trabalhos mais pesados. É certo que as mulheres working class, inclusive as casadas, já tinham empregos; contudo viver num mundo onde é generalizado o trabalho feminino fora de casa tem mais impacto.

Nem todas as mulheres ficaram descontentes por regressarem ao papel doméstico quando para isso foram empurradas. Algumas sim. Em todo o caso, as relações de forças entre os papeis masculinos e femininos haviam-se alterado para sempre, bem como as perceções sobre as capacidades das mulheres. E, paulatinamente, desde então que a população ativa feminina não parou de alcançar conquistas no mundo do trabalho. Conquistas que, infelizmente, estão agora sob ataque dos partidários de ideologias parecidas com os que originaram a SGM. Os tontinhos do argumento ‘as mulheres não ganham tanto como os homens e não estão em cargos de liderança porque não têm características tão capazes como os homens, não há discriminação, blablabla’ certamente têm explicações muito ‘racionais’ para o facto de as mulheres depois da guerra terem sido enxotadas a bem ou a mal para fora do mercado de trabalho.