‘A noite passada’ de Alice Brito: como a política condiciona toda a vida pessoal

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Escrever é fixar o tempo que vivemos. Esta frase foi glosada duzentas vezes por escritores de todos os tempos. A ideia de que escrever um romance serve quase sempre para falar sobre o tempo em que se vive concretiza-se tanto na ficção científica – onde tantas vezes se exploram as inquietações do mundo de hoje, traduzidas em realidades virtuais mais avançadas que nos permitem pensar em cenários radicais – como nas tramas mais realistas.

‘A noite passada’ de Alice Brito é um desses textos que se assume como tempo cristalizado para memória futura. Não nos esqueçamos dos dias que vivemos em 2019 para perceber a necessidade de um livro de época, passado entre os últimos anos da ditadura de Salazar e o alvoroço dos primeiros tempos da democracia. Não nos esqueçamos também da cidade cenário quase elevada a personagem principal onde tudo acontece, Setúbal, do que ela é hoje e do que ela foi. Não nos esqueçamos de quem somos hoje as mulheres da classe média e de como somos, do que hoje podemos escolher ser e fazer.

O tempo em que a ação acontece contagia as personagens. Esta é a constatação mais evidente deste romance. Como se o livro invertesse o axioma: o pessoal é político. Neste texto, o político é pessoal, invade a vida das personagens, a forma como elas se relacionam e a sua própria autoconsciência.

A noite passada’ é a saga de uma família que atravessa os tempos mais sórdidos da história portuguesa e que se vê inerme sempre e quando a polícia política resolve intervir naquelas vidas privadas. Esta família é normal, sem pretensões de construir um mundo melhor ou fazer qualquer tipo de alteração ao sistema vigente, sem nenhuma resistência social ou política, mas que também sofre despotismo permitido à época aos agentes da autoridade.

Alice Brito conta neste livro como uma mulher adulta, com formação média e empregada num escritório, fica refém do homem por quem se apaixona. Quando engravida depois de uma série de encontros ilícitos – ela é solteira, o que configura um comportamento punível no código civil de 1966, no sentido em que a não virgindade da nubente era razão para anular o casamento, até 1977 – vê-se a braços com uma gravidez indesejada que o amante não quer que prossiga. Abandonada por ele, confronta-o e ele afirma à luz do dia que é um PIDE, que é casado e que não quer mais nada com ela. A ameaça é clara: poderá a usar as armas habituais do Estado contra ela.

Amélia, a mulher, acaba por conseguir casar com um colega de trabalho, o que lhe resolve o escândalo e, para dissipar todas as suspeitas possíveis, o casal muda-se para Setúbal que, naquela época – ainda sem comboios nem autoestradas – é uma cidade com vida própria afastada da capital.

O que faz a mulher de um homem que socialmente a salva? Contenta-se e é a mais submissa das mulheres. O que faz um homem que salva uma mulher? Exerce o seu poder, mesmo que a sua índole seja boa, não deixando de relembrar quando encontra necessário o tipo de relação que pode exigir a Amélia e ao filho (mesmo se deste também se escondeu a paternidade biológica): na gratidão dela encontrará sustento esta relação.

O papel da política nas relações conjugais vê-se noutros casais: os vizinhos que chegam ao bairro pequeno burguês onde Amélia reside como o marido e o filho. Ela é a encarnação da pobreza, sempre calada, envergonhada, vestida de preto e ele a concretização do pequeno ditador: um gordo seboso que a usa para as aparências necessariamente heterossexuais sem nenhum gesto de cuidado para com ela, que está seguro que o pouco dinheiro que tem serve perfeitamente para a comprar, que a maldade que lhe inflige a serve o propósito do apoucamento do que resta daquela mulher, dando largas à sua própria maldade.

Dar largas à própria maldade é de resto o que, quando a vida decorre pacata, o Pide parece querer fazer: primeiro com mensagens anónimas e vidros partidos, depois com pancadas de meia-noite. Ele paira como um fantasma aterrorizador sobre aquela família e a sua ação direta, com os instrumentos que o Estado lhe põe ao dispor, condicionam a saúde e as relações dos membros daquela família.

No entanto, e apesar do fantasma durar até ao fim da história, a progressiva perda de poder e a sensação de que o fim da ditadura está próximo vão contaminando as relações interpessoais. Amélia ganha poder dentro do seio familiar, tira a carta de condução, a vizinha de negro aprende a ler e torna-se emancipada na sequência do suicídio do marido, Encarnação, a empregada de Amélia, impõe-se na luta pela habitação durante o Verão Quente.

A revolução que se vive nas ruas e quartéis de Setúbal onde, por momentos, o cantor Zeca Afonso aparece como personagem, é também o tempo da paixão, não apenas política, mas da paixão ardente, carnal entre as personagens mais jovens. Como se o tempo político não fosse outra coisa do que aquilo que contagia o ser mais íntimo destas personagens. A relação estabelecida neste grande romance de 2019 é incontornável: o político é pessoal.

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Alice Brito, A Noite Passada, Planeta, €15,99.

 

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Carla Macedo nasceu em 1979 e nem acredita que já passou tanto tempo. É jornalista desde 2001, feminista desde os 8 anos, quando teve uma epifania na missa. Esteve envolvida na criação do site Delas.pt, do qual foi editora executiva até ao verão de 2018. Conduziu entrevistas na rádio TSF a mulheres que se destacam em diferentes áreas, no programa Conversas Delas. Na LuxWoman, foi chefe de redação, na Máxima Interiores, também. Colaborou com a Evasões, a Volta ao Mundo (sim, sim, adora viajar!), a Notícias Magazine, a Sábado e muitas mais. Fez televisão para uma produtora, mas os programas nunca foram para ar – danos colaterais da crise! Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, começou no jornalismo numa revista de carros, a Frota, ainda antes de acabar o curso, fez o CENJOR e depois um curso de Jornalismo Multimédia. É casada. Tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Igualdade em casa é coisa que não falta.

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