O meu encontro com a escritora Sabina Urraca

0
Fotografia de Livraria Flâneur.

Sabina Urraca enviou-me uma mensagem, uns dias antes da conversa que íamos ter, na livraria Flâneur, Porto. Falaríamos sobre o seu livro As Meninas-prodígio, publicado na colecção Confluências, da Faktoria K, uma chancela da Kalandraka.

O nosso encontro foi no café da Casa da Música, uma hora antes do evento. Levava algumas notas da minha leitura, uma série de páginas marcadas para ler ao público, antes das minhas perguntas.

Momentos como este: Aí percebi porque um adulto neurótico podia sentir-se seduzido perante a ideia de passar o Verão a chefiar um grupo de crianças. Haveria labor mais prazenteiro que restringir e programar estados viscerais da alma, como a diversão e a brincadeira descontrolada?
O cocó, expressão visceral onde quer que seja, também precisava de regulação. Três vezes por dia, dissera ela. A maioria dos miúdos obviou aquela ordem com despreocupação infantil. Mas alguns eleitos, os meninos mais obedientes e impressionáveis, como eu, mergulharam no desespero.

Antes de partirmos para a sessão, confidenciei à escritora espanhola que tinha lido muito pouco sobre ela, só mesmo de véspera. Não queria viciar a minha leitura, que terminei no próprio dia. Naqueles dedos de conversa, desfiz alguns mitos sobre a história, matéria que me deu mais perguntas e pistas para a apresentação que ia fazer.

Chegados à livraria, com o namorado da autora e a sua cadela electrizante, fomos dando umas voltas, abraçando o público, as editoras, os donos do espaço. Tentava falar devagar, elevando uma ou outra palavra à língua dela, para que nada falhasse.

Ali me sentei, as minhas páginas dobradas e meia dúzia de observações a disparar. A história provocava em mim múltiplas sensações: de arrepio, horror contido, riso, alguma compaixão e tristeza, convidava-me a entrar na narrativa e resolver questões abertas pela personagem.

O romance é centrado numa mulher, percorrendo as fases da sua vida, desde criança até adulta. Tudo isto passado maioritariamente no bucolismo do campo, com o exemplo das pessoas que vai conhecendo e observando.

Um livro sincero, cru e grotesco em alguns picos, sobre o quotidiano e as observações de uma pessoa marcada pelo crescimento nos anos 80 e 90, rodeada de ídolos pop como Drew Barrymore, Punky Brewster ou Nadia Comăneci; estrelas que viveram precocemente a fama, que a intérprete parece admirar. E todas elas prodígio, inalcançáveis na perfeição.

Um aspecto que os leitores sublinharam na sessão é a aparente mensagem feminista, pois a história centra-se nos pensamentos de uma mulher, com pormenores da sua intimidade e desejo. A paixão por um homem muito mais velho, ainda que não corresponda aos parâmetros clássicos platónicos, conduz-nos às suas reflexões privadas e aos sonhos próprios de uma criança a crescer.

Sabina Urraca não quis nem pretende afirmar-se como escritora do tema, mas reforça que o facto da novela ser sobre uma mulher (e tantas outras à sua volta) pode levar o leitor a julgar isso. No entanto, disse que foi escrevendo sem qualquer pretensão, esta é uma história de uma pessoa normal, passada no campo e na cidade, nos regressos a memórias distantes, que vão formando o seu papel no mundo. E apenas isso, o olhar posto numa personagem, que transporta algumas coisas que a própria autora viveu.

A conversa terminou com uma calorosa despedida, ficámos a saber que o livro foi um sucesso em Espanha e ainda que o seu editor discute a possível adaptação do livro a série ou filme.

Sinopse:

Tudo começa quando me convidam para ver um parto. Uma mulher que praticamente não conheço deixa-me vê-la a deitar ao mundo a sua segunda filha. Todos deveríamos ver partos, penso eu. Quero escrever um artigo sobre o assunto. Quero derrubar esses falsos mitos do nascimento asséptico com uma mãe lindíssima a pegar num bebé redondo e perfeito ao colo. Tenho trinta e um anos. Nunca pari e não sei se o quero fazer, ainda assim quero vê-lo. Nasci no sistema capitalista. Quero ter tudo, ver tudo, viver tudo. Não posso perder nada…

As meninas-prodígio é uma tragicomédia em vários actos e um conto com tons de terror gótico mas, sobretudo, um relato contemporâneo sobre a identidade que arranca num presente imperfeito para regressar a todas as idades de uma mulher.
Obra parcialmente autobiográfica, movida pelo estigma do amour fou por um homem mais velho e alcoólico, na voz de uma narradora pansexual, provocadora e sentimentalmente voraz.
Dificilmente encontraremos uma autora que questione de forma tão genuína o mundo que a rodeia, sem perder de vista a busca do seu mais íntimo centro de gravidade permanente.

Artigo anteriorA necessidade de histórias contadas no feminino
Próximo artigoYesterday, o filme
Avatar
Rodrigo Ferrão nasceu em 1983, é natural do Porto e frequentou o curso de Direito, mas virou a página e foi livreiro alguns anos. Rodeado de livros, dedicou-se à discussão literária através do mundo digital. Não totalmente realizado com o debate, decidiu escrever a sua própria poesia, seguindo-se de outras grafias. Gosta de ler, passear no campo e na cidade, escrever e viajar – não perde uma oportunidade para contar aquilo que vê. Sonha um dia largar o trabalho e ir por aí, divagando como pensa.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.