A necessidade de histórias contadas no feminino

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Bad Feminist, de Roxane Gay

Há uns meses li um ótimo livro: Bad Feminist, de Roxane Gay. Aconselho muito a leitura. É bem disposta, fluída, cândida e honesta, de grande teor autobiográfico (e eu nunca resisto a histórias pessoais interessantes e bem contadas), com ensaios pertinentes sobre temas todos atuais – os que andam à volta da raça (Roxane é descendente de haitianos negros) e do sexo.

Hoje quero ir buscar um dos ensaios do livro (e que título de ensaio-capítulo catita é este): ‘The Solace of Preparing Fried Foods and Other Quaint Remembrances from 1960s Mississipi: Thoughts on The Help‘. Como é bom de ver, o ensaio anda à volta do livro e do filme The Help, que conta a história de amizades e relações laborais entre as senhoras de famílias brancas bem do Mississipi e as suas criadas negras. O texto de Roxane Gay tem bastante humor, tanto mais que descreve a pancada que lhe causou aquela história, alegadamente sobre mulheres negras, ser toda ela concebida e contada por mulheres e homens brancos. Roxane não fica muito satisfeita consigo própria com esta intolerância – afinal, como escritora, não quer deixar de escrever sobre brancos se assim se sentir impelida – mas termina concluindo que The Help é um bom argumento para os escritores apenas escreverem sobre as realidades que conhecem (eu, que na adolescência escrevi um magno romance sobre uma ménage a trois sem nunca, antes ou depois, ter experimentado tal excentricidade, tendencialmente concordo) e que a autora de The Help não se esforçou o suficiente.

Transporto tudo isto para o sexo. Geralmente temos histórias contadas por homens, escritas por homens, filmadas por homens e editadas e produzidas por homens. A maioria das histórias sobre mulheres são histórias concebidas e contadas por homens. Se nos livros há oferta abundante de escritoras femininas (ainda que, recordemos, JK Rowling tenha escondido o seu nome com iniciais para não perturbar o possível sucesso com a desconfiança do sexo feminino), no cinema e televisão os homens estão em percentagens esmagadoras. Por Hollyhood, felizmente, há tentativas de corrigir o enviesamento. Freida Pinto ou, com mais notoriedade, Reese Witherspoon fundaram ambas produtoras de filme/televisão para contarem histórias de mulheres por mulheres.

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Bad Feminist, de Roxane Gay

Por cá, não podia deixar de ser (nunca reparamos em nada), ignora-se o problema. Sobretudo ao nível da RTP (e rádios associadas) e dos subsídios do ministério da cultura para teatro, ou cinema e televisão do ICA.

Não entendo como na RTP (e derivados) não há uma preocupação transversal a todos os programas para, a nível de apresentadores, participantes regulares ou ocasionais, e de conteúdos oferecidos se ter uma representação tendencialmente paritária. Pela minha parte, posso garantir que já há muito deixei de ver programas, com a exceção do Governo Sombra, em que apenas existissem homens. (Houve tempos em que existiram programas só de mulheres, como o Froufrou ou O Senhor que se Segue. Incrivelmente agora nada disto se vislumbra.) Se são demasiado bons para terem mulheres lá no meio, certamente também dispensam as espetadoras.

Em termos de subsídios, o mesmo. Sei bem que os subsídios estão capturados pelos mesmos sempre, os que têm acesso aos decisores políticos e capacidade de gerar barulho na comunicação social. E os resultados dos espetáculos ou produções subsidiados nunca é escrutinado e avaliado, a verificar se se está a dar dinheiro para produtos que ninguém quer ver ou, pelo contrário (existem, sem dúvida), para peças ou filmes ou séries que aliam qualidade à capacidade de atrair público. Em todo o caso, deve ser um fator de atribuição de dinheiro dos contribuintes: os pontos de vista masculinos devem ser contados (e eu gosto de os ver) mas os femininos também. Histórias contadas por mulheres sobre mulheres são essenciais para destruir estereótipos e para as mulheres ganharem controlo da narrativa sobre o seu sexo. Bem como mostrarem as vicissitudes das vidas no feminino, iluminarmos o que vemos como importante, revelarmos medos, sonhos, ambições, limitações sistémicas – em vez de sermos representadas somente pelos olhos dos homens.

Nas Conversas Capitais da semana passada foi este um dos temas que levantei. Tive pouco sucesso – tirando com Leonor Beleza, que não foi hostil à ideia – mas vou continuar a clamar. Afinal, considerando os conteúdos, mulheres a contarem histórias potenciam a identificação de outras mulheres. E, donde, a audiência.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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