A propósito de africanos e cristandade que, dizem-nos, não conjugam

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Hoje é dia para lembrar duas histórias minhas, a propósito de africanos e cristandade que não conjugam um com o outro, diz Maria de Fátima Bonifácio num texto (não encontro qualificativos) no Público.

Uma é do meu Crisma (já não me lembro dia nem ano). Os meus pais, que nunca ligaram a fotografias, não levaram máquina. O meu namorado, que também não era excessivamente atento aos registos fotográficos (discutimos isso vinte anos), igual. Ainda não havia smartphones que tiravam fotografias catitas. Pelo que ninguém me fotografou. Achava eu. Ora dava explicações de economia a um aluno do ISLA que tinha nascido num dos PALOP (tenho ideia – já foi há muitos anos – que Cabo Verde ou São Tomé) na Escolinha (o nome oficial é ‘qualquer coisa São Pedro Claver’). E ele tinha ido ao Crisma (na Sé de Lisboa, vejam bem aos sítios que os africanos não comungantes da nossa cristandade vão) de uma amiga (como? uma africana crismando-se?! não são todos partidários do candomblé?). Não me cumprimentou por lá (e por que terá tido essa timidez?), mas tirou-me várias fotografias, revelou-as e ofereceu-mas. Pelo que as únicas fotografias que tenho do meu Crisma são as que este africano tirou.

Outra é da minha única experiência de bairros problemáticos. No décimo primeiro ano ia, rotativamente dentro de um grupo de colegas, dar umas aulas ao sábado de manhã a miúdos do Bairro das Fontainhas (não sei se ainda existe). As aulas não prestavam para nada (nós não tínhamos preparação para as dar), mas nunca me recordo de qualquer sensação de insegurança no bairro ou de alguém me ter tratado mal. E – para chegar outra vez à cristandade – estas aulas foram organizadas pelo Colégio São João de Brito, que queria ajudar miúdos de um bairro problemático que tivessem dificuldades na escola.

Continuando com a cristandade e os bairros que têm ciganos e africanos – mas já não com experiência minha – o Centro Social da Musgueira foi criado e desde sempre dinamizado por jesuítas, durante muitos anos pelo P. Afonso Herédia.

Já me ouviram ou leram arengando sobre os perigos que a imigração de muçulmanos representa, sobretudo para os direitos das mulheres. Donde: a exigência da adoção dos nossos valores e modos de vida deve ser inegociável.

Até entendo que se olhe para os ciganos como um problema, porque muitos deles claramente têm dificuldades em conviver em sociedade. As mulheres da comunidade cigana são muitas vezes vilmente maltratadas: impedem-nas de continuar a educação, são vistas como parideiras a casar na puberdade, apanham com frequência dos maridos, têm uma moral sexual draconiana em cima delas, são infetadas com doenças graves pelos maridos toxicodependentes, se se rebelam contra tudo isto muitas vezes levam com toda a violência da comunidade em cima. Não tenho respostas para estes casos, mas também não aceito que a exclusão e a segregação sejam o caminho. Precisamente porque tenho por hábito defender os direitos das mulheres e das crianças, e não quero que os meninos e as meninas de etnia cigana cresçam para perpetuarem vidas de servidão das mulheres e de criminalidade dos homens, ou de baixa escolaridade e baixos rendimentos. Nem aceito que as mulheres ciganas que queiram sair desta opressão cultural não tenham meios e ajudas para o fazerem.

Porém o que não entendo mesmo é a exclusão dos africanos da cristandade. Porque os imigrantes africanos têm a ambição de se integrarem na vida europeia, não querem subverter a nossa cultura, não a querem substituir, não a odeiam. É o contrário: querem-na para si próprios. Claro, mantendo os seus ritmos, as suas músicas, a sua gastronomia e aí por diante – que, de resto, geralmente se fundem bem com as europeias. Tirando a mutilação genital feminina – a extirpar da Europa a todo o custo – não me recordo de hábitos odientos que tenham sido trazidos pelos africanos e seus descendentes. E, com frequência, são católicos.

Tive em tempos um amigo (mudou-se para Londres e eu perdi o contacto), um negro alto e elegante com ar de príncipe africano, de idade incerta, que era neto de um chefe tribal. O avô tinha tido 47 mulheres e existiam mais de duzentos netos seus. Mas não tenho presente que sejam os imigrantes africanos que queiram importar a poligamia, para dar um exemplo.

Termino com duas perplexidades que as opiniões da estirpe de Maria de Fátima Bonifácio me trazem.

1. É oh tão curioso como pessoas tão compreensivas para com o salazarismo e o seu império colonial – se não mesmo apoiantes declaradas -, que tanto propagam o mito lusotropicalista do português bom colonizador que foi um governante benevolente para as populações de cor, afinal não tenham nenhum pejo em mostrar o nojo que as tais populações de cor lhes provocam. O que terraplana a argumentação da bondade do império, claro, mas estes pessoas, já aprendi, não são exigentes em tocando à seriedade argumentativa.

2. As pessoas são livres de serem racistas, xenófobas, proferirem discursos de ódio, vomitarem ignorância e preconceito. Que tantos racistas o façam usando o cristianismo – que é desde os inícios uma religião universalista, igualitarista sem olhar a raças ou cores de pele ou etnias ou culturas – como desculpa, ou a herança cultural judaico-cristã (que não é exatamente europeia, já agora), revolve-me as entranhas.

Quanto às quotas – que inicialmente estavam em discussão antes de todos os impropérios racistas de Bonifácio – sou por princípio favorável a que os representantes espelhem de forma bastante direta os representados. (E há mais outras boas razões para estas quotas, que por economia de espaço hoje deixo de fora.)

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