O futebol não é para meninas

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Na sexta-feira passada Paris recebeu o pontapé de saída do Campeonato do Mundo de futebol feminino. Mais de 45 mil pessoas lotaram as bancadas do Parc des Princes para ver a França enfrentar a Coreia do Sul.

Por todo o mundo, milhões de telespectadores acompanharam a estreia de Le Sommer, Rénard, Henry e companhia. Não sabe de quem eu estou a falar? Não reconhece estes nomes? Shame on you!
Estas são as autoras dos quatros golos da vitória gaulesa, três símbolos da selecção francesa, sendo que Amandine Henry, além de craque, é a capitã das Bleues.

Este campeonato do Mundo, que será acompanhado por milhões de telespectadores, e não só nos 24 países participantes, irá gerar receitas sem paralelo na história do evento. E a FIFA, organizadora da prova, sabe que tem uma máquina de fazer dinheiro nas mãos.

E é precisamente a dimensão económica do evento, e a distribuição dos lucros, que esteve na base das diversas polémicas que foram surgindo nas semanas que antecederam o começo da prova.

Da Austrália aos Estados Unidos da América, da Alemanha à Inglaterra, mas não só, levantaram-se vozes sobre a disparidade na diferença de valores entre o que as mulheres e os homens recebem quando vestem a camisola das suas selecções.

Nos Estados Unidos, Hope Solo, é há muito a voz desse descontentamento. A capitã norte-americana lidera o protesto das jogadoras da selecção, que processaram a federação exigindo prémios iguais aos dos seus colegas da selecção masculina.

As internacionais estado-unidenses chamaram a atenção esgrimindo factos que não sofrem contestação: o futebol feminino dos E.U.A. deu muito mais vitórias ao país que o masculino, tem mais praticantes e tradição, sempre gerou receitas iguais ou aproximadas ao futebol masculino, mas em compensação, as internacionais que já tantas vezes foram campeãs do Mundo recebem consideravelmente menos que os internacionais masculinos que nunca vão longe nas fases finais do mundial.

Na Austrália, a exigência era a mesma. A associação sindical de jogadoras de futebol exigiu prémios iguais para homens e mulheres, ameaçando a federação australiana e a FIFA com processos, depois de saberem que o prémio atribuído pela FIFA à Federação Australiana em caso de uma hipotética vitória no mundial, não chegaria a metade do atribuído à equipa masculina, que foi eliminada na primeira fase do mundial da Rússia no passado verão.

Por sua vez, no Japão, as jogadoras (campeãs do mundo em 2011 e vice-campeãs em 2015) queixaram-se do desinteresse do país pelos seus feitos, em comparação com a atenção dispensada ao futebol masculino, que está longe de obter os mesmos resultados.

Já há dois anos, tinha sido a vez das campeãs africanas protestarem com a disparidade nos valores com que a federação camaronesa premeia homens e mulheres. Na altura, as jogadoras fizeram um sit-in na entrada do hotel onde estavam a estagiar, numa imagem que correu mundo, e obrigou a federação local a negociar uma nova política de prémios.

Da Alemanha chegou também um vídeo viral, em que com sentido de humor, as jogadoras da Mannschaft tentavam chamar a atenção dos adeptos de futebol para a indiferença com que são tratadas pelo grande público.

As oito vezes campeãs da Europa lembraram que aquando da sua primeira grande conquista internacional tinham sido pagas com um serviço de chá…

Mais a norte, a norueguesa Ada Hegerberg recusou-se a participar no mundial, em protesto pela desigualdade entre os géneros no futebol no seu país, uma decisão já tomada há dois anos, mas que foi reafirmada em vésperas de começar a competição, recusando a possível convocatória, não só pela disparidade entre valores, mas apontando à desigualdade de tratamento pela comunicação social e também pelas pobres condições de que o futebol feminino está dotado no país.

Se uma jogadora recusar-se a ir à selecção é notícia, que dizer da actual vencedora do Ballon d’Or feminino? O que seria de um mundial em que um Cristiano Ronaldo ou um Lionel Messi se recusassem a participar?

Por falar em Cristiano Ronaldo, esta semana a Forbes publicou a lista dos atletas mais bem pagos do mundo, onde o português é segundo com 96,3 milhões de euros, atrás do argentino, que com 112,2 milhões de euros encabeça a lista, onde não cabe nenhuma mulher.

Já em Abril, a France Football havia publicado duas listas, uma para homens, outra para mulheres, dos jogadores e jogadoras mais bem pagas do mundo, e a diferença era abismal. Nessa lista, que incluía outros rendimentos além dos utilizados no ranking da Forbes, Messi voltava a liderar com 130 milhões de euros e Cristiano Ronaldo era segundo com 113 milhões, vindo o brasileiro Neymar em terceiro lugar com 91 milhões de euros.

A encerrar o top está o espanhol Sérgio Ramos que surge em 20.º lugar com 20 milhões de euros de rendimento, que é 11,5 vezes mais que o total combinado do top 5 de jogadoras de futebol feminino, a saber:
Marta €340,000, Carli Lloyd €345,000, Wendie Renard €348,000, Amandine Henry €360,000 e a já citada Ada Hegerberg com €400,000.

Os €400,000 de Hegerberg teriam de ser multiplicados 326 vezes, para a jogadora mais bem paga do mundo receber o mesmo que Lionel Messi…

De Inglaterra, fez-se ouvir a voz de Toni Duggan, que contra a corrente considerou que apesar de apoiar as reivindicações das norte-americanas, não partilha da mesma ideia para Inglaterra, pois se na América as mulheres conseguem resultados superiores aos homens desde sempre, na Inglaterra tal ainda não acontece.

Duggan gostaria de ver melhoradas as condições de treino, indo mais longe ao afirmar “que antes de falarmos de dinheiro, eu gostava que tivéssemos água quente nos chuveiros dos nossos balneários”…

Por fim, uma nota local… enquanto no resto do mundo se batem recordes de audiência, em Portugal, se quiser acompanhar a competição terá de ser através do RTP Play. A televisão estatal ofereceu o jogo de abertura em canal aberto na RTP2, que também transmitirá as meias finais, jogo de atribuição do terceiro lugar e a grande final.

Quanto aos canais pagos Sport TV e Eleven Sports, lamentavelmente não compraram os direitos porque certamente já tinham a grelha repleta com repetições dos principais jogos da época masculina que agora findou. Prioridades…

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