Sexismo benevolente – não há tal coisa

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Imagem de Isabel Santiago

Durante vários anos acreditei que a maioria dos machistas que conhecia – muitos, e incrivelmente sobretudo no mundo dos blogues (onde supostamente escreveriam pessoas inteligentes, abertas e escolarizadas) e, depois, nas redes sociais – eram sexistas benevolentes. Homens que eram machistas, sim, mas de um machismo digamos cultural, embebido no ambiente que nos influencia a todos, resultado do atávico conservadorismo português, preguiçoso (porque avesso à mudança, ao estilo português, mais do que por questões ideológicas). Mas que não era um machismo violento nem intelectualmente ou politicamente motivado, nem sequer maligno a ponto de defender, por exemplo, violência sexual sobre mulheres. De facto, escrevi várias vezes sobre casos de violência sexual e nunca, nessa altura, tive qualquer backlash como o que tenho agora (inclusive das mesmas pessoas).

Era, então, daquelas pessoas de quem se questiona por que razão as mulheres feministas toleram o sexismo benevolente (apesar de neste artigo o termo ‘sexismo benevolente’ esteja mais ligado a questões de boas maneiras que, ainda assim, é um patamar mais benigno do que eu presenciava, e que me levanta mais dúvidas; eu própria seguro a porta e dou passagem e ajudo outras pessoas que sejam fisicamente mais fracas e não é por isso que as considero menores ou incapazes).

Ora bem: tolerava porque estava enganada. As pessoas que eu considerava serem machistas apenas por comodismo e preguiça afinal são machistas retintos. Odeiam visceralmente a liberdade sexual das mulheres e a independência financeira que estarmos no mercado laboral nos traz (porque uma e outra nos tornam menos dependentes de homens abusivos – como eles – e mais livres para terminar relações). Evidentemente agem (e votam) para nos extirpar de direitos e de liberdades e de oportunidades. Praticam bullying organizado para nos calarem. Querem garantir a impunidade da violência sexual e da violência doméstica – cuja permanência é uma forma de nos constranger liberdades e de nos condicionar no uso dos nossos direitos. Consomem e veneram o lixo jordanpetersiano em orgasmos contínuos (daqueles que, desconfia-se, não conseguem – ou não querem – proporcionar às suas mulheres).

Só toleram mulheres desde que estas não se assumam feministas – esta declaração fá-los literalmente ficar com os parafusos desconchavados. Tornamo-nos, nesse momento, encarnações do diabo para estas pessoas subitamente fanáticas desde pequeninas, que (uma vez que nos deixam de ver como humanas) se sentem legitimados para nos atacar com todas as canalhices.

Também só toleram mulheres que não desalinhem nas suas opiniões. Teciam-me loas incontáveis (desde ao agradável aspeto físico até à maravilhosa capacidade intelectual e talento para a escrita) enquanto me supuseram defender as suas causas. Quando perceberam que eu afinal divergia, a torrente de ódio foi imparável. Além de não terem um módico de racionalidade para avaliarem as minhas opiniões (sequer compreendê-las), qualquer dissidência era distorcida, aumentada, encarada como prova de um extremismo de esquerda, malícia, defeitos de carácter vários que eu afinal possuiria. Não existe qualquer capacidade de encaixe para serem questionados por uma mulher, ou por terem uma mulher a discordar deles fundamentadamente e sem demonstrar qualquer respeito e admiração pelas suas (pouco) doutas opiniões. A quantidade, e a qualidade do ranço que contêm, de mentiras e insultos que vem continuamente destas pessoas – porque não param, fazem disto missão de vida – é infinda.

Por isso, ofereço esta minha experiência para dizer que não há tal coisa como sexismo benevolente. Os sexistas só são benevolentes enquanto sentem que não necessitam de afiar as garras. Um sexista benevolente é um sexista violento (verbalmente, no abuso das redes sociais, produtor de aldrabices, militante defensor de que nos retirem direitos e liberdades) à espera de acordar. É um elemento perigoso que, uma vez espevitado, dará lugar ao mais fanático e maligno atacante. Não estou a exagerar. São produtores e exportadores de ódio em versão sempre renovável. Atacam pela frente, pelas costas, são insidiosos e hipócritas. Só não fazem mossa porque não conseguem: ninguém, fora de casa deles, sabe quem são; são, inevitavelmente, pouco sofisticados intelectualmente; não preciso profissionalmente destes seres excitados; e considero que as pessoas se medem também pela qualidade dos inimigos – estes não são de grande qualidade, e vero, mas compensam na insistência quantitativa.

Além disso agora dá prestígio junto dos teenagers ter grupos de haters. Os meus filhos e os amigos ficam sempre muito bem impressionados comigo por eu ter o poder de levar pessoas, à conta do ódio, a escrever (geralmente num português questionável) insanidades que fazem quem tem cérebro funcional soltar umas boas gargalhadas (ainda que os teens se fiquem pela leitora dos comentários do Observador). Melhor que isto só foi descobrirem que sou usada em memes – nesse momento foi a glória (minha), e o mais velho declarou-se (enfim, não foi a primeira vez) muito orgulhoso da sua mãe.

Conclusão. Um sexista benevolente é um inimigo dos direitos das mulheres tão perigoso como o mais assumido doido varrido ativista dos men´s rights (essa realidade oh tão em perigo). Sexismo benevolente está assim na categoria de ‘doença fulminante saudável’, ‘tofu gostoso’, ‘terramoto devastador excitante’ e outras contradições semelhantes. Uma gastroenterite média é mais útil e benéfica, porque sempre podemos perder alguns quilos e isso é de valor. Estão avisadas.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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