Dois dias na Conferências do Estoril (com política, diagnósticos negros – e alguma esperança)

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Anne Applebaum com Raquel Vaz Pinto

Fareed Zakaria, anteontem. O anchor da CNN, com um programa com o seu nome (Fareed Zakaria GPS), que se tornou famoso nos anos áureos da Newsweek, nas Conferências do Estoril foi uma delícia – porque é delicioso ouvir bom senso e inteligência crepitante, algo que, em boa verdade, rareia. Fez um périplo pelas razões que levaram os Estados Unidos a votar em Donald Trump (bom, três milhões a menos dos que votaram em Hillary Clinton, nunca esquecer). Falou-se da crescente divisão sociológica e cultural entre as populações urbanas (democratas e progressistas) versus populações rurais (republicanas e conservadoras), de quem tem um grau universitário e quem não tem (a mesma ordem na cisão ideológica e cultural). Os estilos de vida das populações rurais e republicanas são cada vez mais distantes do modo de vida dos citadinos – que fazem yoga, comem quinoa e abacate, têm hábitos culturais extravagantes e por aí adiante. O ‘daily drama’ da administração Trump. O amor de Trump por Putin e a evidente identificação que faz com ditadores ou governantes de democracias musculadas. O perigo para as instituições americanas que é o constante e continuado ataque que Trump lhes faz – como sucedeu na Turquia, em que inicialmente houve resistência das instituições que controlam e freiam o poder executivo para, com o tempo, estas sucumbirem perante as investidas de Erdogan.

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Fareed Zakaria

Ora o cisma cultural (agora comento eu) vê-se também nas sociedades europeias e é dos assuntos que me apoquenta nos últimos tempos. Muita coisa boa tem sido escrita sobre este assunto – que revolve muito à volta do conceito de classe. Algo que a direita considera inexistente (ou pernicioso), mas que cada vez mais temos de trazer para a discussão, porque de facto há questões de classe que têm de ser contempladas. A divisão sociológica de estilos de vida e de local de residência também acompanha cada vez mais a divisão entre a working class (uso o termo inglês porque não há tradução feliz) de um lado, e a classe média e a classe alta de outro. Existem mesmo efeitos semelhantes aos aplicados às mulheres, como um wage gap, para a mesma profissão, que existe entre oriundos da classe média/alta e os nascidos working class. Vários livros muito interessantes se escreveram sobre isto. De James Bloodworth (um dos meus autores preferidos atualmente), com The Myth of Meritocracy e com Hired. Regresso a Reims, de Didier Eribon. E Political Tribes, de Amy Chua. Foi este livro de Chua que usei para fazer a minha pergunta a Fareed Zakaria – porque além das diferenças de modo de vida, estas populações votantes em Trump mostram taxas de desemprego mais altas que a média, taxas de adições a substâncias maiores, cada vez menos conseguem entrar nas universidades, têm menor esperança média de vida. Há problemas reais. Fareed Zakaria também os reconheceu, e inteligentemente falou da necessidade de estas pessoas se sentirem ouvidas, porque a sua necessidade é, muitas vezes, de se sentirem culturalmente reconhecidas (em vez de escarnecidas).

Ontem, mais rebuçados. Anne Applebaum, autora de ótimos livros sobre a União Soviética – os mais recentes Red Famine e Gulag -, especialista em all things russian e colunista do Washington Post. Girou sobre a política internacional no mundo de Trump e Putin. Houve bastante dos dois. Do desejo de Putin de enfraquecer e, se possível, desmembrar a União Europeia – porque a UE é uma entidade poderosa a negociar com a Rússia, enquanto os estados individuais estariam muito mais à mercê da ordem putinica. Do seu incansável apoio às ditaduras e regimes autocráticos – a que dá todas as ajudas para se manterem.

Fez um paralelismo curioso entre as redes sociais e outras inovações tecnológicas. Costumo dizer e escrever que as pessoas da segunda década do século XXI ainda não sabem lidar com as redes sociais. Estamos a aprender e a fazer disparates porque ainda não temos o traquejo – e o distanciamento (vivemos todos ainda a fase do vício) – para aquilatar o que deve ser a nossa resposta às redes sociais. E nem é preciso referir a ajuda que as redes sociais têm dados a fenómenos políticos tóxicos, de Trump a Modi a Duterte, pois não? Anne Applebaum (historiadora de formação) lembrou que as inovações tecnológicas da comunicação sempre tiveram esse efeito. A imprensa levou à polarização entre católicos e protestantes e durante três séculos a Europa andou em guerras religiosas. Com o aparecimento da rádio, os que mais depressa aprenderam a usá-la para fins de propaganda foram Hitler e Stalin. (Anne Applebaum não o referiu, mas recordei-me do Lord Haw-haw, um britânico que da Alemanha emitia pela rádio desinformação sobre a guerra para o Reino Unido, tentando desmoralizar os britânicos no esforço de guerra. Eram uma espécie de fake news antes do tempo.)

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Guy Verhofstadt com Pedro Cordeiro

Mais tarde, Guy Verhofstadt, presidente da ALDE (liberais) no Parlamento Europeu, falou, inevitavelmente, da União Europeia. Do que disse, revelou estar a anos-luz do posicionamento dos partidos portugueses afiliados na ALDE. Foi bem disposto – o humor é o melhor remédio para lidar com certos problemas europeus bicudos. Particularmente sobre o Brexit e as desventuras do parlamento britânico. De como o parlamento britânico – que toda a gente, antes, supunha o farol da democracia moderna – tem um funcionamento estranho, desde o speaker-manda-chuva com poder discricionário, até passarem o tempo a votarem contra coisas (contra ficarem na UE, contra ficarem na união alfandegária, contra terem um acordo de comércio como o Canadá, contra saírem à bruta) e nunca conseguirem votar para algum passo construtivo. Referiu o óbvio: Os socialistas europeus, o PPE e a ALDE terão de negociar inevitavelmente a partir de agora que a bipolarização terminou. E ainda bem.

De resto, as Conferências do Estoril deste ano tiveram muitas oradoras mulheres (de parabéns a organização), um painel sobre feminismo global (onde participei) e um novo cenário, no novo campus da Nova School of Business and Economics, em Carcavelos. Do melhor que acontece por cá.

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

1 COMENTÁRIO

  1. A liderança de Guy Verhofstadt no ALDE está a abrir caminho para a governabilidade da Europa. Um político sério e focado na construção Europeia como tarefa de uma geração. Corrida de maratona e não de 100m. Pés assentes no chão e sentimento de urgência face aos próximos 5 anos da UE.

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