Europeias 2019: A guerra dos votos

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Quando se anda pela capital da Hungria, Budapeste, toma-se o pulso à nova realidade “europeia” melhor do que através de qualquer noticiário televisivo, feed da Internet, rede social ou magazine. Esta cidade central na História europeia, parte integrante do imenso Império Austro-Húngaro até 1918, fonte para o mundo de compositores como Liszt e Bartók, está inundada de uma ponta à outra de cartazes políticos atacando a imigração como “fonte de doenças e outras maleitas”, em pleno 2019. Os cartazes são do Fidesz, o partido de extrema-direita do primeiro-ministro Viktor Orban, colocado no poder com uns avassaladores 49% dos votos nas eleições legislativas de 2018. O espectáculo continua fora das ruas: abre-se um qualquer canal de televisão húngaro e há programas televisivos um atrás do outro proclamando a nação húngara como a mais saudável da Europa, os “imigrantes” (sempre eles) como “agentes de infecção na Europa” e como há que defender a “nação contra o Império de Bruxelas”. Não é difícil de perceber o quão complicadas vão ser as eleições para o Parlamento Europeu: uma autêntica guerra campal pelo controlo do discurso e do poder europeu.

As eleições deste domingo são o segundo maior exercício de voto democrático no mundo a seguir às eleições indianas. Mas isso não significa que a maior parte do eleitorado se importe com as personalidades que vão a votos, muito menos com a abstracta instituição que é o Parlamento Europeu. Na realidade, até agora, todas as eleições europeias eram uma forma de o eleitorado afirmar gostos ou antipatias única e exclusivamente baseados na geometria política a nível nacional. Por exemplo, nas últimas eleições em 2014, oito países europeus tiveram taxas de participação eleitoral abaixo de 30%. Todos sabemos que nunca houve um verdadeiro demos europeu ou uma consciência europeia, porque a União Europeia é esta entidade abstracta: uma rara combinação de regras comerciais e monetárias comuns com políticas e culturas absolutamente locais.

Durante décadas o caminho seguido pelos burocratas europeus foi o de mais e mais integração, mas a realidade é que essa integração foi fundamentalmente legislativa, obrigatória, e não propriamente um processo de almas e corações. Por exemplo, mesmo países muito próximos como a Alemanha e a República Checa ou Portugal e Espanha ainda têm menos de um terço dos seus mercados de serviços integrados. No papel fala-se muito do mercado único e do projecto europeu, mas a verdade é que o coração dos europeus nunca esteve para aí virado. Acresce o facto de que nesta década a Europa passou por um total Cabo das Tormentas: a pior crise em oito décadas (com milhões de desempregados e uma resposta a nível central que consistiu em seguir cegamente regras orçamentais completamente inapropriadas numa situação de paralisia económica); a maior vaga migratória em cinquenta anos (em que não houve a mínima coordenação a nível central, com países como a Itália e a Grécia inundados de imigrantes e refugiados que o resto da Europa, com excepção da Alemanha, não quis acolher) e uma série de outras mini-crises em cima, como se duas não bastassem: secas tremendas, a erosão da confiança política, o abalo da credibilidade das instituições religiosas, bancárias, locais, policiais, you name it e a Europa teve-o desde 2008. Tudo isto criou uma saturação total no eleitor comum, uma vontade de experimentar novas ideias e abriu um campo de flores a uma série de novos protagonistas, mais ou menos orquestrados ou pelo Kremlin ou pelos compinchas de Trump (nomeadamente Steve Bannon).

A França, país fundador da União Europeia, é outro caso exemplar do que vai a jogo este domingo. Segundo um estudo recente do ECFR, 70% dos votantes franceses pensam pura e simplesmente que tanto o sistema político francês como a União Europeia não funcionam. O resultado desta percepção, sendo a França a pátria de Colbert, tem sido uma viragem já nem disfarçada para o protecionismo. A extrema-esquerda (de La France Insoumise) tem defendido a ideia de um “imposto quilométrico”, ou seja, quanto mais longe um produto é importado ou exportado mais é taxado, uma ideia aliás partilhada pelos Verdes franceses (o que isto faria ao mercado único europeu é uma advinha). Já Marine Le Pen tem embarcado num exercício de rebranding em preparação para estas Europeias e agora defende um “protecionismo inteligente” que apoiaria a economia francesa através da reintrodução de tarifas aduaneiras (portanto adieu mercado comum também). Já o proteccionismo dos socialistas franceses é, claro, um “protecionismo igualitário”. Até mesmo Macron, que se tinha afirmado há dois anos como a única réstia de europeismo e liberalismo francês, parece convertido, depois de dois anos fatigantes no poder: o slogan da campanha do partido do Presidente francês é “Uma Europa que protege”. A própria direita francesa dos Republicaines defende protecções tarifárias e a reserva de 50% dos contratos públicos na França apenas para companhias francesas. Ganhe quem ganhe na França este domingo bem podem esquecer qualquer investimento no ideal europeu (para além dos longos discursos com que Macron se gosta de deleitar quando em passeio pelas capitais europeias). A Franca está em puro molde protecionista, não só no sentido comercial, mas uma proteção identitária, gaulista, pura.

Atravessem os Alpes em direção a Itália, outro país fundador da Europa (e que nos deu tudo desde a Renascença até ao vermelho Valentino) e este cenário de erosão do projecto europeu é ainda maior. Ali a revolta é não só contra a União Europeia mas de região contra região: o norte italiano, industrial, rico e afluente, detesta pagar impostos para sustentar o sul do país, pobre, agrícola, “parasita” para os industriais da Fiat e da Ferrari. A Liga italiana de Salvini emergiu desse particular contexto geográfico e é ali que tem o seu maior apoio – acima dos 50% em muitas das cidades-chave do Norte italiano. Salvini teve nos últimos dois anos a astúcia política de pegar no que é sobretudo uma cisão interna (a Itália foi sempre uma combinação de repúblicas dispares artificialmente unida em 1870) e projectá-la contra a Europa. O sonho de Salvini e da Liga italiana para estas eleições é de juntar todos os movimentos de extrema-direita europeus num só bloco coeso que mude e sobretudo perturbe a União Europeia por dentro (para o caixote do lixo foram as ideias de saír do euro). Por isso Salvini organizou nas últimas duas semanas nem mais nem menos que quinze comícios comuns com populistas de onze países europeus, onde todos bradaram contra os inimigos tradicionais: a burocracia europeia, os imigrantes e o Islamismo. Teriam sido doze países com a coligação governativa na Aústria mas o vice-chanceller austríaco, Heinz-Christian Strache, foi inconvenientemente apanhado num vídeo a favorecer interesses russos (surpresa) e teve de se demitir. Esperem ver um confronto fortíssimo no próximo Parlamento Europeu entre o grupo político que se está a agregar à volta de Salvini e o grupo de Macron.

Até na Alemanha e na Suécia, tradicionalmente dois países europeus estáveis, conservadores e dedicados ao projecto europeu (no caso alemão, a Europa é central à sua identidade como país pós 1945), 45% dos eleitores dizem que a União Europeia não está a funcionar para eles. O resultado é uma pressão enorme para os partidos do centro e uma hemorregia de votos para os extremos: por exemplo, a Alternative für Deutschland (anti-Europa, anti-euro, anti-islamismo de novo) tem mais de 25% de intenções de voto alemãs nestas eleições europeias e na Alemanha de Leste (mais pobre, mais alienada do centro político) essa intenção de voto na extrema-direita chega aos 40% numa série de regiões. Este fenómeno tem puxado a CDU de Angela Merkel (que pela primeira vez não participou numa campanha eleitoral para preparar a sua saída de cena) não só mais para a direita, mas, sobretudo para um discurso mais proteccionista e menos europeísta. O slogan de campanha do partido de Merkel é “A nossa Europa faz-nos fortes” mas a palavra “proteção” é usada trinta e sete vezes no manifesto eleitoral da CDU.

O outro dos quatro grandes países europeus, o Reino Unido, chega a estas eleições numa situação mais do que Monty Python. Primeiro que tudo não era suposto que estas eleições sequer acontecessem: no fim de contas, o Reino Unido tinha o 31 de Março marcado como a data de saída da União Europeia. Como o Parlamento britânico não chegou a acordo sobre coisa nenhuma, o país entrou na Twilight Zone de uma extensão ao processo do Brexit até 31 de Outubro, obrigando à participação nestas eleições, a última coisa que tanto o Partido Conservador como os Trabalhistas queriam. Seguiu-se no último mês uma atmosfera verdadeiramente surreal: pela primeira vez em cem anos os dois maiores partidos britânicos nem sequer publicaram um programa político para umas eleições e semanas foram gastas em conversações fúteis entre os dois com vista a chegar a um consenso para evitar a participação nas eleições.

Finalmente nesta última semana instalou-se o circo total: uma revolta do Conselho de Ministros de May contra a ideia da primeira-ministra de submeter pela quarta vez ao Parlamento britânico o acordo do Brexit assinado com Bruxelas (acordo já rejeitado tres vezes). Até no próprio dia de eleições (são às quintas-feiras os actos eleitorais no Reino Unido) os ministros britânicos passaram o tempo todo a atacarem a primeira-ministra e outros colegas. Na sexta-feira o inevitável aconteceu: Theresa May não aguentou mais a pressão e demitiu-se como primeira-ministra. Os Conservadores, atolados na miríade de diferenças internas em relação ao Brexit, parecem apostados no mais longo suicídio da história política britânica: as sondagens dão-lhes apenas 7% de intenção de votos nestas Europeias e um humilhante quinto lugar atrás dos Verdes. O grande beneficiado é claro Nigel Farage com o seu novo Brexit Party (que defende uma saída imediata da União Europeia sem acordo comercial), destacadíssimo à frente nas intenções de voto e que irá juntar-se (por mais breve ou longo que seja o período em que o Reino Unido ainda faça parte da UE) ao bloco de Salvini. No outro lado da barricada também se espera uma subida de votação maciça para os Liberais Democratas britânicos, o partido pró-UE e anti-Brexit. Os eleitores britânicos fartaram-se de vez de três anos de marasmo e de falta de clareza em relação ao Brexit dos dois grandes partidos tradicionais: Conservadores e Trabalhistas. Quem pensava que o sistema político britânico se ia basear para sempre numa rotação contínua e estável entre esses dois blocos estava muito enganado.

O mais interessante e irónico desta viragem abrupta para os extremos e para o anti-europeísmo em vários países europeus (com excepções raras, como a Irlanda e Portugal, países pequenos e altamente dependentes da Europa) é que, na realidade, a própria burocracia da União Europeia enterrou, desde o fim da crise de 2008-13, o desejo de um projecto federal e único europeu. Em Bruxelas deixou-se pura e simplesmente de falar na adesão da Turquia, o assunto é um não tópico; fecham-se os olhos aos desvios orçamentais da França e da Itália; a ideia de um orçamento central europeu não passou de uma boa intenção no papel e a proposta de Macron de introduzir um salário mínimo europeu (novamente a ideia muito francesa, do dirigismo clássico, de nivelar países completamente diferentes do ponto de vista económico e social com regras únicas) foi prontamente metida na gaveta.

A Europa como superestado desapareceu da boca de qualquer delegado nas reuniões em Bruxelas. “Uma Europa que protege” é o novo slogan que se ouve por todo o lado em Bruxelas, Estrasburgo, Berlim. Este é um protecionismo dirigido quase que meticulosamente a assuntos tópicos: deslocação económica, mudanças climáticas, Rússia, imigração. Esta é a reacção assustada da oligarquia europeísta ao simples facto de que o sistema político europeu se transformou num campo de batalha fragmentado, com actores novos, forças que se juntam brevemente para se separarem de novo, em que o regional é prioritário sobre o global, sem o tipo de fio condutor que o projecto europeu de sucessiva integração permitia. O resultado vai ser um Parlamento Europeu mais fragmentado e por isso mesmo mais disfuncional que nunca. Os populistas vão querer destruír a União Europeia por dentro, nomeando alguns dos cargos máximos, por exemplo, e intervindo em todos os dossiers centrais (defesa, economia, imigração, direitos sociais e nacionais). Os europeístas vão ter de recorrer a coligações pouco ortodoxas para aguentar as instituições europeias (por exemplo, não é de todo de excluir alianças entre os grupos socialistas e de centro-direita, sobretudo quanto maior for a percentagem de nacionalistas e extremistas eleitos este domingo).

Por tudo isto, se os leitores estão à espera de estabilidade na Europa na sequência destas eleições, lamento dizer mas estão muito enganados. Vai ser mais um caso de “Fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy night”, como a Bette Davies dizia com um brilho nos olhos e um cocktail na mão no All About Eve. Se ao menos isto tudo fosse tão fabulosamente sedutor como a Margo Channing.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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