Emergência Climática e Capitalismo

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Imagem de Isabel Santiago.

A crise ambiental tem sido menosprezada e descredibilizada há tanto tempo e de tantas formas diferentes, que o subconsciente coletivo parece dizer «Não é possível. Se fosse mesmo assim tão grave “eles” faziam alguma coisa». O “eles” todo-poderoso antecipava e salvava-nos.

Como nos salvou de todas as outras crises que vieram antes desta, certo?

A nossa classe política já provou, vezes e vezes sem conta, sobretudo nos últimos anos, que é estrategicamente incapaz de gerir ou antecipar o que quer que seja, mas nós continuamos a fechar os olhos, a empurrar a responsabilidade, a “deixar andar”. Afinal, não pode ser assim tão mau… e se for, os efeitos também só se vão sentir daqui a várias gerações, certo? Errado. Provado e avisado, inúmeras de vezes, pela comunidade científica (o “eles” que importa).

Claro que não apetece nada pensar nisto e muito menos assumir qualquer tipo de responsabilidade, porque não, não basta votar nos paliativos que temos no Parlamento (completamente alienados da realidade), nem basta fazer reciclagem em casa ou parar de comer carne. As medidas que são necessárias tomar neste momento são muito mais dramáticas e estruturais e afetam a própria organização da nossa sociedade. Precisamos reavaliar a sociedade de consumo em que vivemos, de constante produção e crescimento. O resultado já não é teórico. Está à vista. Isto não é segredo nenhum, nem conversa de hippies e extremistas ambientais. Consta, entre outros, do Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

Neste momento, e se quisermos limitar o aumento do aquecimento global a 1,5°C até 2030, vamos ter que implementar medidas extremas, coisa que até agora nos temos recusado a fazer. Se não o fizermos, e ultrapassarmos esse limite, as consequências serão devastadoras: colapso do ecossistema, acidificação dos oceanos, desertificação, inundação das cidades costeiras, emigração em massa… enfim, receita para o caos. E isto sem considerar sequer que os recursos que usamos e abusamos atualmente, são finitos e que estão a desaparecer a um ritmo alarmante. Desde o peixe, aos combustíveis fósseis, passando pela extinção em massa da biodiversidade terrestre. Continuar assim não é sustentável, mas mais do que isso, não é sequer possível por muito mais tempo e ou aceitamos esse facto e vamo-nos preparando para uma mudança progressiva e faseada ou essa mudança vai acontecer na mesma, quer se queira, quer não – e desengane-se quem acha que temos muitos anos pela frente. O Planeta está-se nas tintas se é “prático” ou se o “custo é demasiado elevado” – vai acontecer e pronto.

Mas então, se temos a informação e se sabemos que medidas são precisas tomar, porque é que não o fazemos? Porque quem tem o poder de decisão é exatamente quem mais beneficia do atual status quo e tem todos os incentivos e mais alguns para negar que a situação seja assim tão urgente. Só vão agir se não lhes for dada outra escolha, através de um movimento em massa de protesto, como temos visto surgir um pouco por toda a Europa e que levou, inclusivamente o Parlamento Britânico a declarar recentemente estado de emergência ambiental.

Em Portugal, este movimento tem surgido em força nas gerações mais novas – naturalmente mais disruptivas e menos acomodadas, mas também mais facilmente descredibilizadas. É altura de juntarmos mais vozes, falar mais alto e exigir um futuro seguro e digno para os nossos filhos – porque é isso que está em jogo.

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